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H-orizontes

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31
Dez20

"A Cidade de Vapor – Todos os contos" – Carlos Ruiz Zafón

Helena

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Esta compilação de onze contos da autoria de Carlos Ruiz Zafón constitui simultaneamente uma homenagem ao autor da saga do Cemitério dos Livros Esquecidos e um agradecimento aos seus leitores.

Cada conto remete para o universo literário da tetralogia, seja a nível das personagens e do espaço, seja a nível do ambiente que paira sobre a história.

Tanto Blanca e o Adeus como Sem Nome complementam a história do amaldiçoado escritor ficcional David Martín, o que não implica que façam realmente parte dela: o autor joga com a loucura da personagem para criar “memórias não acontecidas” e refugia-se nela ao introduzir um episódio que, caso contrário, contradiria o passado já conhecido da personagem.

Rosa de Fogo e Príncipe do Parnaso providenciam ao leitor dados acerca do icónico Cemitério dos Livros Esquecidos, como a sua origem arquitetónica e a sua misteriosa localização. Zafón entrelaça factos e personagens verídicas com o enredo da ficção, e o maravilhoso mundo da saga parece transferir-se para a realidade.

Alicia ao Alvorecer, Mulher de Vapor e Lenda de Natal são contos curtos e nebulosos, rodeados de mistério, magia e misticismo.

Uma Rapariga de Barcelona, Homens de Cinzento e Gaudí em Manhattan são as histórias que mais se afastam do coração da saga original. Ainda assim, os traços são os mesmos, e reconhecemos a tinta de Zafón na insanidade do luto no primeiro, na perícia assassina no segundo e na sinistra figura no arranha-céus nova-iorquino no terceiro.

Com 2020 a chegar ao fim, pensei que não havia melhor maneira de encerrar o historial de leituras deste ano do que com um regresso a casa – pois é essa a sensação que me invade sempre que volto às páginas de Zafón. Mudam-se os títulos, mudam-se os enredos, mas não se alteram as descrições magníficas, os céus escarlates, os anjos sinistros, os espectros, as damas de branco e as maldições que não olham a estatutos sociais para assolarem gerações. É impossível não detetar nestas páginas o gosto do autor pelo sinistro, pelo macabro, pelas personagens condenadas à desgraça, pelos incêndios, pela neblina e, claro, por Barcelona. De facto, apesar de nunca lá ter estado, tenho a sensação de já conhecer os meandros dos seus bairros mais recônditos, de já ter caminhado pelas Ramblas e convivido com os barceloneses (mesmo com alguns de alma perdida ou razão toldada).

Apesar de não ser o melhor livro de Zafón, é mais um testemunho do seu poder de envolver o leitor nas tramas que constrói e entrelaça com mestria. Para além disso, concretiza a narrativa com uma linguagem simultaneamente tão bela e intensa que parece irradiar as emoções presas nas palavras, a agonia, a raiva, o desespero, tudo o que torna os seus livros objetos com vida própria.

Este livro torna, de certa forma, a morte de Zafón um pouco mais fácil de suportar, enquanto pequeno espólio de trabalhos com que tencionava presentear os seus leitores fiéis. Se gostaram de ler a saga do Cemitério dos Livros Esquecidos, não deixem de visitar este livro – de tempos a tempos, para que a magia de cada história não se perca na repetibilidade do discurso.

“A queda dos justos vem sempre da mão daqueles que mais lhes devem.”

“- Quero conhecer o sentido da vida, quero saber onde encontrar o melhor gelado de chocolate do mundo e quero apaixonar-me – declarei.

- A resposta aos teus dois primeiros desejos é a mesma.”

28
Jul20

"A Sombra do Vento" - Carlos Ruiz Zafón

Helena

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No dia em que Daniel Sempere, a personagem principal do mais célebre romance de Carlos Ruiz Zafón, acorda em pânico por não se recordar do aspeto da sua falecida mãe, o seu pai decide revelar-lhe algo que mudará para sempre a sua vida: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Esta biblioteca escondida nas entranhas de Barcelona é um grande reservatório de todos os livros alguma vez escritos, onde se garante que nenhum deles será destruído ou cairá no perpétuo esquecimento. Daniel abandona o Cemitério com A Sombra do Vento, de Julián Carax, debaixo do braço e, quando começa a lê-lo, é irremediavelmente absorvido pela sua história.

Com o passar do tempo, Daniel descobre que tem em sua posse um exemplar de valor extraordinário de uma obra de um autor misterioso, cuja história ainda paira sobre Barcelona, difusa como a neblina. Decidido a compreender os meandros daquele mistério, o jovem Sempere começa a sua investigação junto de Clara Barceló, uma rapariga cega que rapidamente se torna a sua primeira paixão. À medida que vai descobrindo a bizarra história de Carax, através de relatos daqueles que tinham contactado com ele, Daniel deteta semelhanças perturbadoras entre ele e o escritor, o que apenas o motiva mais na sua busca.

Apesar de todos os riscos que lhe são inerentes, Daniel penetrará num labirinto de mistérios, intrigas e histórias de amor, que o levará a desvendar os segredos de Barcelona.

“(…) poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que de facto abre caminho até ao seu coração.”

Apesar de o considerar muito menos intenso e entusiasmante do que Marina ou O Labirinto dos Espíritos, reconheço que A Sombra do Vento é o romance mais bem escrito de Zafón.

Para além da sua construção impecável, sem deixar pontas soltas e desvendando o mistério aos poucos, este livro é marcado pelo estilo fenomenal do autor. Zafón tem um poder incrível de transmissão de sensações através das palavras. Proliferam os recursos expressivos e as frases marcantes, e somos envolvidos pelo enredo, tal como Daniel aquando da leitura do seu A Sombra do Vento. Graças à construção impecável das personagens, estabelecemos fortes laços de amizade com elas, desde Fermín Romero de Torres, um mendigo do pós-guerra, até Julián Carax, o escritor maldito cuja alma atravessa as páginas deste livro.

É difícil abordar todas as esferas que compõem este romance, pois são muitas e variadas. As minhas partes preferidas são as que constituem picos de adrenalina, como o encontro de Daniel com o sinistro ser que quer queimar todos os livros de Carax, as analepses em que somos inteirados da história da vida do escritor maldito e as cenas referentes aos amores atribulados de Daniel e Beatriz Aguilar.

No primeiro volume da tetralogia do Cemitério dos Livros Esquecidos, Zafón conjuga magistralmente os valores do amor, da amizade, da coragem e do gosto pela leitura.

"Há prisões piores que as palavras."

Relacionados:

"El Prisionero del Cielo" - Carlos Ruiz Zafón

"O Jogo do Anjo" - Carlos Ruiz Zafón

"O Labirinto dos Espíritos" - Carlos Ruiz Zafón

11
Jul20

"O Jogo do Anjo" - Carlos Ruiz Zafón

Helena

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Barcelona, 1917. O jovem David Martín recebe pela primeira vez uma remuneração pelo seu trabalho enquanto escritor, no pequeno jornal La Voz de la Industria. Com esta conquista, David inicia uma carreira de produtividade e popularidade crescentes, primeiro com Os Mistérios de Barcelona e, mais tarde, na editora Barrido e Escobillas, com A Cidade dos Malditos, sob o pseudónimo de Ignatius B. Samson.

É através das suas publicações que capta a atenção de um misterioso editor, Andreas Corelli, que o convoca para um encontro invulgar. Corelli propõe-lhe que rompa o contrato com a Barrido e Escobillas e que passe a trabalhar para ele, escrevendo um livro que encerrasse uma nova e revolucionária religião. David não apresenta uma decisão definitiva ao editor e, inexplicavelmente, um incêndio consome o edifício da Barrido e Escobillas nessa noite, matando os dois editores e dissolvendo automaticamente o vínculo que restringia o jovem romancista.

As coincidências acumulam-se e culminam quando David descobre que o falecido Diego Marlasca, antigo proprietário da casa para onde se mudara recentemente, tinha estado também envolvido num contrato obscuro que tinha por objetivo a escrita de um livro religioso e que o conduzira à loucura.

Apercebendo-se de que se entranhava cada vez mais na mesma armadilha em que Marlasca caíra, David começa a investigar obstinadamente a identidade de Corelli e a história do escritor amaldiçoado, apesar do rasto de sangue que vai deixando atrás de si.

Paralelamente à intriga principal, a jovem Isabella entra na vida do escritor como sua aprendiz, e a paixão desmesurada por Cristina Sagnier, a protegida do seu mentor, Pedro Vidal, acompanha-o e perturba-o permanentemente.

Esta é uma história de amor, traição, ódio, maldições, obstinação e loucura que nos insere na mente de David Martín, enquanto narrador autodiegético.

“O segundo tomo, empapado num sabor mórbido e sinistro destinado a espicaçar os leitores de bons costumes, relataria a macabra peripécia vital de um romancista maldito, cortesia de David Martín, que relataria na primeira pessoa como perdia a razão e nos arrastava na descida aos infernos da sua própria loucura para se tornar um narrador menos fiável do que o príncipe dos infernos, que também se passearia pelas suas páginas. Ou talvez não, porque tudo não passava de um jogo em que seria o leitor a completar o quebra-cabeças e a decidir que livro estava a ler.” Este resumo de “O Jogo do Anjo” que Zafón faz em “O Labirinto dos Espíritos” encaixa-se perfeitamente naquilo que o livro é e nas impressões que deixa no leitor.

Confirmei, com esta releitura, que este é o volume de que menos gosto da tetralogia do “Cemitério dos Livros Esquecidos”. Para além de ser confuso, na medida em que é difícil perceber onde acaba o relato dos factos e começam os devaneios da loucura de David Martín, tem pontas soltas que, contrariamente ao que eu esperava, não são atadas nos restantes volumes da saga.

Ao reler este romance, tive a sensação de que Zafón destina invariavelmente a maioria das personagens à morte. Contam-se pelos dedos aquelas que têm uma história que se prolonga para lá da intriga – ou seja, que não morrem queimados, envenenados ou baleados -, o que considero algo limitativo para a sua complexidade.

Este livro tem, de facto, de ser encarado como o produto de uma alma que se adentra na sua própria demência, caso contrário os pormenores bizarros e quase sem sentido que vão surgindo levarão o leitor à frustração.

O prazer da leitura foi-me tolhido, não só pelas inúmeras questões que se levantavam e eram deixadas sem respostas, mas também pela tradução que li, em que surgiam ocasionalmente gralhas e que não parecia transmitir fielmente a magia da escrita de Zafón.

Os pontos positivos que tenho a apontar são os momentos de suspense, as reviravoltas da trama, o facto de os capítulos serem curtos e a oportunidade que este volume nos proporciona de ficarmos a conhecer melhor uma das personagens mais importantes da saga através do seu próprio ponto de vista.

Em conclusão, este não é, de longe, o melhor e mais bem construído livro de Zafón, apesar de nos apresentar personagens essenciais para a tetralogia e de nos cativar pelo seu enredo misterioso.

“As pessoas normais trazem filhos ao mundo; nós, os romancistas, trazemos livros.”

Relacionados:

"A Sombra do Vento" - Carlos Ruiz Zafón

"El Prisionero del Cielo" - Carlos Ruiz Zafón

"O Labirinto dos Espíritos" - Carlos Ruiz Zafón

17
Jul18

"Marina" – Carlos Ruiz Zafón

Helena

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Este livro conta-nos a peculiar história de Óscar Drai, um rapaz que frequenta um internato nos arredores de Barcelona e que num dos seus passeios encontra uma casa aparentemente abandonada. Descobre pouco depois que a mansão é habitada por um homem e a sua filha Marina, uma rapariga misteriosa que não tarda a envolvê-lo numa enigmática aventura com início no cemitério de Sarriá. Recheada de personagens obscuras como uma dama vestida de negro, um velho médico, um antigo polícia e um refugiado da guerra que trabalhava numa fábrica de próteses, esta história transborda de suspense, com cenários sinistros desde o princípio. Tem um enredo cativante que se adensa a partir do momento em que Óscar e Marina decidem seguir a dama de negro após ela ter deixado o cemitério onde visitara uma campa com o símbolo de uma borboleta negra. A senhora leva-os até uma estufa suspeita na qual desvendam um panorama inquietante que os faz embarcar numa misteriosa jornada para desvendar todas as incógnitas que se lhes deparam. Um livro de suspense com um toque de terror e drama, que prende o leitor do início ao fim.

Adorei este livro! É o primeiro que leio deste autor, e não podia ter começado melhor, de modo que este se tornou um dos livros que nomeio como um dos meus preferidos. Pensava que ia ser uma leitura rápida que serviria de passagem entre o livro que tinha acabado de ler e o que tencionava ler depois, mas revelou-se muito mais do que isso. Ainda que possa parecer pequeno, encerra no seu interior uma história fantástica, cheia de mistério, que me fascinou desde o início, tanto pela maneira como está escrito, com vocabulário acessível e bem empregue, como pelo enredo que lentamente se adensava e me agarrava ao livro, desejosa de chegar ao fim. Sentimos emoções de todo o tipo, desde medo, tristeza e preocupação a alegria e excitação. Não há palavras para descrever o quão positivamente surpreendida fiquei com esta obra, é realmente maravilhosa a imensos níveis, com uma ação cativante e intrigante ao longo de todas as páginas que nos faz entrar na história e não querer sair. Sem sombra de dúvida, uma leitura que recomendo a toda a gente!

“Só recordamos o que nunca aconteceu”

“Às vezes, as coisas mais reais apenas acontecem na imaginação”

“Não se pode entender nada da vida enquanto não entendermos a morte”

https://youtu.be/hMyEUnzxiWI

 

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