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H-orizontes

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07
Mai23

“Europe & The Architect” – David Greig

Helena

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Nesta publicação da Methuen Drama, compilam-se duas peças de David Greig, Europe e The Architect, representadas pela primeira vez no Traverse Theatre, em Edimburgo, em 1994 e em 1996, respetivamente.

Em Europe, uma pequena povoação na fronteira de um país europeu não nomeado recebe a terrível notícia do encerramento da estação de caminhos de ferro, na qual já quase não paravam comboios. Ao mesmo tempo que se debatem com as consequências que isto implica, os habitantes desta pequena cidade veem-se a braços com o expediente das recentes vagas de refugiados: pai e filha fazem da estação o seu abrigo e encontram nos seus responsáveis algum apoio. No entanto, nem toda a povoação partilha deste sentimento de solidariedade. Numa peça simples e curta, David Greig concretiza uma representação da realidade europeia do presente – um continente unido de grande cidade em grande cidade, cuja resposta humanitária ao problema dos refugiados continua a deixar muito a desejar.

The Architect traz para a ribalta os dramas de cada um dos elementos de uma família numa cidade do presente. Leo, um arquiteto, debate-se com uma proposta de demolição de um dos edifícios que projetou, que, entretanto, se tornara um antro de pobreza sem condições para alojar aqueles que precisavam. Paulina, a sua esposa, sente que o seu casamento já não faz sentido e que já nada no seu marido a fascina. Dorothy, a filha, trabalha com o pai, mas tem a necessidade de quebrar a monotonia da sua vida partindo à boleia de desconhecidos sem um destino definido, sem avisar ninguém. Martin exaspera o pai por se recusar a dedicar-se a um trabalho e pensa que fugir é a única forma de escapar à dinâmica familiar que o asfixia.

“You can’t build a thing high enough that if you fell off you wouldn’t hit the ground.”

Apesar de terem sido escritas na década de 90 do século passado, estas peças veiculam uma mensagem que ainda se adequa perfeitamente ao presente. Com novas vagas de refugiados a procurar asilo na Europa, a urbanização e terciarização crescente da sociedade e o agravamento da precariedade da habitação, os problemas destas personagens refletem comportamentos e preocupações dos europeus, trinta anos depois.

Apesar de não costumar gostar de ler textos dramáticos, o Europe conquistou-me pela forma como aborda tantos temas fraturantes sem parecer forçado. As personagens são verosímeis e as suas atitudes são plausíveis e adequadas ao espaço onde vivem. Já The Architect não me agradou tanto, não só pelo modo de encadeamento das cenas como pela falta de naturalidade no comportamento das personagens.

Assim, foi uma boa incursão na literatura dramática britânica contemporânea, que me deixou com vontade de ver as representações destas peças ao vivo.

“I’ll talk to you all night. That’s better than love.”

17
Out21

"Montanhas Douradas" - C Pam Zhang

Helena

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A corrida ao ouro domina o Oeste dos Estados Unidos da América quando Lucy e Sam, irmãs separadas por um ano e duas maneiras de ser totalmente distintas, se veem sozinhas após a morte do seu pai. Ba, como lhe chamavam, era um prospetor cuja vida se resumia a transportar a sua família de origens orientais através do território americano à procura de filões de ouro que, invariavelmente, já tinham sido esgotados por outros. Em consequência, a família via-se obrigada a sobreviver no seio das dificuldades e da escassez de recursos, trabalhando nas minas de carvão e alimentando-se parcamente.

Lucy era a mais inteligente das irmãs e, por isso, foi a que frequentou a escola durante mais tempo. Era a mais velha e também a que conseguia fazer uma análise mais racional das situações com que se deparava. Já Sam, bela, forte e andrógina, era fruto da influência do pai e deixava-se dominar pela impulsividade e irreverência.

Após a morte de Ba, Lucy e Sam têm nas mãos o seu próprio futuro, e embarcam numa longa viagem que as levará através do espaço e do tempo, nas tórridas planícies americanas onde já não se avistam tigres.

“O que faz um fantasma ser um fantasma? Pode uma pessoa ser assombrada por si própria?”

Montanhas Douradas foi um dos livros do ano de 2020 escolhidos por Barack Obama. Ao que parece, o nosso gosto literário não é muito similar.

O primeiro aspeto que me marcou no romance de estreia de C Pam Zhang foi a crueza do seu estilo. Numa escrita austera e pouco adornada, a autora aproxima-se da aridez da paisagem que descreve e do modo de vida parco em recursos das personagens principais.

Apesar de o início não me ter cativado, o avançar da ação vai envolvendo o leitor na narrativa, através de analepses que vão revelando o passado das personagens e, em consequência disso, vão revelando o seu caráter. Assim, a personagem odiada ganha uma oportunidade de redenção, a figura admirável revela os seus matizes mais escuros e o presente narrativo é iluminado por uma nova luz.

Penso que o principal motivo que me levou a não gostar tanto deste livro como esperava foi o facto de retratar uma realidade com que nunca tinha contactado e com que, por isso, não conseguia identificar-me de forma nenhuma. No entanto, a mesma razão permitiu-me sair da minha zona de conforto e ser, por algumas horas, transportada para o coração da América em plena era da corrida ao ouro.

Montanhas Douradas é um livro sobre a família, a emigração e a xenofobia. Um livro sobre o sentido de pertença, o sentido do dever e o sentido da vida. É um livro sobre escolhas e sacrifícios. Uma viagem longa, mas compensadora.

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