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H-orizontes

H-orizontes

30
Jan22

“How to Spot a Fascist” – Umberto Eco

Helena

fascist.jpg

Este livro reúne três ensaios da autoria de Umberto Eco que versam um tema comum: a ameaça permanente do fascismo na sociedade dos nossos dias. Quase oitenta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o fantasma do fascismo está longe de deixar de assombrar a sociedade ocidental, pelo que devemos manter-nos alerta a alguns sinais de que uma nova era de totalitarismo se aproxima, mesmo que ainda num estado embrionário. São estes os sinais que Eco se dedica a enumerar no seu primeiro ensaio, intitulado Ur-Fascism.

O culto da tradução, a rejeição do modernismo, a ausência de sentido crítico, a ação irrefletida, o medo da diferença, o apelo à frustração da população, a exaltação da guerra, o elitismo popular, o culto do heroísmo aliado ao culto da morte, o desprezo pelas mulheres e pelos “hábitos sexuais não-conformistas”, e o recurso a um líder como intérprete da vontade do povo são alguns dos indícios da ascensão de um regime fascista. Aliás, nas palavras de Eco, “é possível eliminar um ou mais aspetos de um regime fascista e ele vai sempre ser reconhecivelmente fascista”.

Assim, aliando a este ensaio outros que sublinham a importância da luta contra a tendência intolerante da sociedade atual e que alertam para o perigo da “censura através do ruído”, How to spot a fascist recapitula sucintamente as características dos regimes totalitários e faz-nos um apelo: “Do not forget”.

“Thinking is a form of emasculation”

Em apenas 64 páginas, este livro encerra uma mensagem poderosa. Apesar de, na maior parte dos casos, não nos apercebermos, florescem à nossa volta indícios mais ou menos gritantes de uma ameaça nunca extinta.

Como a maior parte das compilações de ensaios deste género, How to spot a fascist suscita uma reflexão sobre a sociedade em que vivemos e sobre o papel de cada um na luta contra o totalitarismo nas suas várias formas. Os sistemas de repressão renovam-se e reinventam-se. É fácil deixarmo-nos levar por promessas grandiosas e perdermo-nos nesta ditadura do ruído. Mais do que nunca, nesta era de desinformação e de opiniões polarizadas, é essencial conservar o espírito crítico e saber analisar objetivamente a informação com que nos deparamos.

Fascismo nunca mais!

“distinguishing is a form of modernity”

“poor vocabulary and elementary syntax (…) limit the instruments available to complex and critical reasoning”

21
Dez20

"O Nome da Rosa" - Umberto Eco

Helena

Nesta viagem no tempo até ao século XIV, acompanhamos a história de Adso de Melk, um noviço beneditino, escrivão e discípulo do douto franciscano Guilherme de Baskerville, numa abadia italiana atingida por desgraças sórdidas.

O mês de novembro chegava ao fim quando, numa madrugada, o cadáver de Adelmo de Otranto, um jovem monge miniaturista, foi encontrado no fundo das escarpas que rodeavam a abadia. Guilherme de Baskerville foi encarregado da resolução do mistério da morte de Adelmo, que se complexificava à medida que outros cadáveres apareciam nas circunstâncias mais invulgares.

Todas as mortes se relacionavam com um livro misterioso, outrora cuidadosamente guardado no Finis Africae, o compartimento mais recôndito da biblioteca labiríntica da abadia.

O Apocalipse de João parecia ditar a sequência de assassinatos que agravavam o período conturbado que a comunidade religiosa atravessava, com a proliferação de companhias de frades menores e de seitas heréticas, com a cisão entre o Papa João XXII e a ordem franciscana e com a iminência da chegada do tão temido Anticristo.

Este é, sem dúvida, o livro mais denso que alguma vez li. Eco emprega (de forma deliberada, como nos explicará no apêndice) um vocabulário rebuscado, conjugado em frases extremamente longas e complexas. Apesar de constituir uma espécie de teste à persistência do leitor e de se aproximar do estilo literário da época, este registo sugou a maior parte do meu entusiasmo em relação a uma narrativa que podia ser muito mais aliciante.

Para esta quebra de fascínio contribuiu também a constante interrupção da intriga por extensas reflexões e discussões de teor filosófico e teológico, nomeadamente sobre a legitimidade do riso, a pobreza de Cristo, as seitas de frades menores e heréticos (de entre os quais se destaca Frei Dolcino) e a profecia do Anticristo. Não considero que estas intrusões eruditas devessem ser retiradas, na medida em que são decisivas para compreender o passado de algumas personagens e o desenrolar de determinadas peripécias, para além de enriquecerem o leitor através de informações com que nunca se tinha deparado. No entanto, penso que, se fossem ligeiramente simplificadas e menos reiteradas, o livro se tornaria mais leve e indefinidamente menos exaustivo.

O verdadeiro prazer deste romance reside em relê-lo, identificando as pistas e detalhes que tinham passado despercebidos numa primeira leitura e analisando as reflexões a uma nova luz. Esta revisão do enredo foi-me necessária, uma vez que o estilo complexo do autor e os acontecimentos e reflexões paralelas ao mistério basilar do romance me fizeram perder “o fio à meada” por variadas vezes. O facto de os capítulos serem introduzidos por uma pequena síntese do seu conteúdo facilita imenso o processo de recapitulação dos principais pontos de progresso da ação.

O apêndice de que o romance se faz acompanhar é especialmente relevante em termos de análise do processo de escrita e de compreensão do ponto de vista de Eco em relação à sua obra e aos seus leitores.

São inegáveis a qualidade da trama urdida, a profundidade do caráter de todas as personagens e a deliberação cuidada do autor relativamente a todos os aspetos que compõem este romance.

Este ícone da literatura erudita ocupa um lugar de destaque no género de romance histórico e exige uma leitura demorada e atenta por parte de um leitor com uma maturidade e uma bagagem intelectual extraordinárias.

“(…) e ele respondeu que gostava de ficar fascinado com as coisas que lhe agradavam e não com aquelas que os outros lhe aconselhavam.”

“Para que haja um espelho do mundo é necessário que o mundo tenha uma forma.”

Nome da Rosa.jpg

 

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