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H-orizontes

H-orizontes

26
Jun21

"O Canto de Aquiles" - Madeline Miller

Helena

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O primeiro romance de Madeline Miller tem por narrador o jovem Pátroclo, filho de Menécio, que vive sob o permanente desprezo do pai. Pátroclo é uma desilusão para o seu progenitor, e perde por completo a sua consideração quando, após matar o filho varão de outro homem por acidente, é condenado ao exílio.

O castigo, aparentemente terrível para o jovem, acaba por se revelar uma porta para um futuro mais luminoso. Pátroclo é recebido por Aquiles, o filho que Peleu gerara através da violação da nereide Tétis, em Ftia, o território governado pelo seu pai. Apesar de não ter sido a primeira vez que Pátroclo encontrava o semideus, é em Ftia que a sua paixão por Aquiles ganha forma, se avoluma e, finalmente, se revela correspondida.

Aquiles Pelida estava destinado a ser o melhor guerreiro da sua geração – Aristos Achaion, o melhor dos gregos. Ciente do seu futuro glorioso, Tétis envia-o para o Monte Pélion, onde, juntamente com o centauro Quíron e Pátroclo, seu therapon (irmão de armas), será treinado como os grandes heróis.

Durante esse período, Aquiles e Pátroclo aperfeiçoam os seus dotes na caça, na natação, na pesca, na medicina, e fortalecem o laço que os une. A harmonia aparentemente imperturbável do Monte é quebrada pela chegada da notícia do rapto de Helena de Esparta por Páris, o príncipe troiano. É na célebre Guerra de Troia que as capacidades sobrenaturais de Aquiles serão postas à prova, assim como a constância do amor entre Pátroclo e o semideus.

Este livro desiludiu-me imenso. Tinha grandes expectativas em relação a ele, já que todo o feedback que recebia de quem o tinha lido (amigos, booktubers, bookstagrammers) era muito positivo. No entanto, esta leitura revelou-se um fracasso desde o início.

Apesar da premissa promissora e do tema atraente (mitologia clássica é sempre um grande “sim”), o brilho desta história desapareceu juntamente com o caráter das suas personagens. Tanto os protagonistas como as personagens secundárias são muito fracas: falta-lhes densidade, uma personalidade completa, uma matriz marcante. Em vez disso, temos o frágil Pátroclo, o egocêntrico, superficial e perfeitíssimo Aquiles, a imperturbável e irredutível Tétis e o orgulhoso Agamémnon, sendo que todos eles são descritos através das mesmas características, de cada vez que surgem.

Para além disso, a relação que as personagens estabelecem entre si é extremamente irrealista, especialmente no que toca à relação amorosa entre os protagonistas. Aquiles e Pátroclo deparam-se com alguns obstáculos à concretização do seu amor, mas todos eles são externos. Depois de tantos anos juntos, ao longo do seu crescimento e em Troia, seria de esperar que surgisse entre eles algum conflito, como, por exemplo, uma explosão da parte de Pátroclo face à irracionalidade do orgulho de Aquiles e ao seu ego monumental. Contudo, isso não acontece. Pátroclo apela à sensatez de Aquiles apenas uma vez, e acaba invariavelmente por ter de ser ele a sacrificar-se pela cegueira do semideus.

Sendo que esta não foi a primeira vez que li uma adaptação de um mito clássico, não me surpreendeu que o enredo não se focasse na exploração das histórias dos heróis greco-latinos que encontramos nos dicionários de mitologia. Ainda assim, não estava à espera que a autora contornasse o que, a meu ver, é a pedra basilar do mito: o mergulho de Aquiles no Estige e a sua morte pela seta enterrada no seu calcanhar. Esta foi a “gota de água” para a minha impaciência em relação a este romance, cujo desfecho não ultrapassou o que era expectável.

A sensação de que teria sido mais prazeroso ler a obra no inglês original acompanhou-me ao longo de todo o livro. A tradução apresenta falhas óbvias, como a escolha do pronome “tu” para substituir o “you” em diálogos formais, e a musicalidade que a língua inglesa conferiria à história seria, certamente, muito diferente.

Ao nível do estilo, incomodaram-me dois aspetos: os recursos expressivos e a extensão das frases. Os primeiros, porque as comparações se intrometem constantemente na narração e nas descrições, sendo que, por vezes, eram dispensáveis, e porque a autora parece ter uma necessidade doentia de adjetivar: um pulso não pode ser apenas um pulso, mas um pulso flexível. O emprego exagerado de comparações e adjetivos torna-se saturante. As frases, por seu lado, pecam por ser tão curtas. Muitas vezes, as frases curtas contribuem para o ritmo trepidante do livro, para colar o leitor às páginas e o fazer avançar rapidamente de peripécia em peripécia. Neste romance, senti que o seu efeito era o contrário: as frases curtas travavam constantemente a fluidez da ação. Isto acontece, provavelmente porque não há peripécias suficientes para nos fazer saltitar avidamente de frase em frase, ou porque a narração se prende muito com descrições que não resultam em combinação com períodos tão curtos.

Por último, ainda do ponto de vista formal, achei que os tempos verbais estavam mal articulados, alternando entre o passado e o presente quando tudo se passava por ordem cronológica, na mesma linha temporal.

Em conclusão, apesar de cumprir o objetivo enunciado por Pátroclo de eternizar Aquiles por mais do que o que foram os seus feitos em batalha, penso que este herói merecia uma história melhor, que não o limitasse a um conjunto de músculos definidos, olhos verdes e um ego insustentável.

30
Jul20

"A Odisseia de Penélope" - Margaret Atwood

Helena

penelopiad (3).jpg

Vinte e nove séculos depois da célebre Odisseia de Homero, com o relato das incríveis façanhas de Odisseu, chega-nos dos Campos de Asfódelo o testemunho de Penélope, a fiel e paciente esposa do guerreiro ítaco. Penélope, num relato na primeira pessoa, põe em evidência o caráter matreiro de Ulisses, a vaidade da sua prima Helena, a cobiça e a hipocrisia dos pretendentes e, principalmente, o seu papel como responsável pelo governo da casa na ausência do marido.

Paralelamente às preocupações e estratagemas de Penélope, numa homenagem às sátiras gregas, um coro de criadas comenta a ação principal, satirizando-a ou acrescentando-lhe a perspetiva dos mais desfavorecidos da história. Mostram, também, a sua revolta pelo enforcamento de doze criadas, a mando de Odisseu, após o seu regresso, algo a que os leitores não dão crédito e que não é, de longe, tão cantado como as aventuras do herói grego.

Deste modo, Atwood sintetiza, com um toque de modernidade, a faceta mais realista dos relatos mitológicos que rodeiam a viagem de Odisseu e revela a perspetiva de Penélope enquanto mulher cuja resistência e perspicácia são desvalorizadas nos relatos homéricos.

Este livro parte do facto de a vida que Penélope e as suas criadas levavam durante a ausência de Odisseu não ser narrada de uma forma relevante na Odisseia. Na minha opinião, constitui uma ilustração do porquê de assim ter sido. De facto, não há muito a relatar em relação às peripécias vividas por Penélope: debatia-se com a presença dos pretendentes, que consumiam os seus bens e queriam assumir o lugar de Odisseu o mais depressa possível, ansiava por notícias de Odisseu e engendrava esquemas com o objetivo de tramar os pretendentes e adiar o dia da escolha do seu futuro marido. Assim, é natural que a narração épica se foque no guerreiro que partiu para a guerra de Troia e enfrentou inúmeros perigos na jornada de regresso a Ítaca.

Para além disso, Odisseu é retratado em A Odisseia de Penélope como traiçoeiro e um mentiroso nato, e é despojado de todas as façanhas relacionadas com a esfera mitológicas que marcam a Odisseia. Por exemplo, à luta de Odisseu com um ciclope de um só olho é apresentada a alternativa de uma luta com um taberneiro de um só olho por causa de uma conta por pagar.

O registo é informal e faz lembrar um diário, o que me agradou pelo facto de constituir uma leitura fácil, mas que contribuiu para a minha fraca impressão do livro, uma vez que não se trata de um relato cativante ou “As potent as a curse”, como a crítica do Sunday Times anuncia na capa desta edição (The Canons, 2018).

As referências da Penélope à atualidade pareceram-me desnecessárias e destoantes em relação ao conteúdo da obra.

Por outro lado, A Odisseia de Penélope permite ao leitor tomar conhecimento de algumas tradições da Grécia Antiga e contactar com uma versão light da Odisseia através de uma nova perspetiva. Atwood investigou, inclusive, os antepassados dos protagonistas da história, pelo que os leitores serão capazes de construir uma pequena árvore genealógica das personagens.

Assim, considero que este não é um livro especialmente marcante e que não atinge por completo o objetivo de apresentar Penélope como uma mulher forte. No entanto, enquanto desafio de abordagem da Odisseia através de outra perspetiva, não está de todo mal conseguido.

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