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H-orizontes

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22
Out23

“O Pecado de João Agonia” – Bernardo Santareno

Helena

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Em meados dos anos sessenta do século passado, a família Agonia aguarda em casa o regresso de João, filho que partira para Lisboa para cumprir o serviço militar obrigatório. João regressa, mas vem diferente: mais sombrio e fechado em si próprio, sente repúdio pela capital que deixou e deseja recolher-se à pacatez em que cresceu.

Em casa, Fernando, irmão mais velho, tenciona agendar um casamento com Maria Giesta, e Teresa, a irmã mais nova, tenta ignorar o interesse que Tóino, irmão de Maria Giesta, tem vindo a demonstrar por ela, rapariga quase demasiado crescida para continuar solteira. Em vez de partilhar e contribuir para esta alegria, João Agonia virá perturbá-la: a sua afeição crescente por Tóino e as notícias de Lisboa trazidas por Manuel alteram profundamente o ambiente da casa e a perceção que as personagens têm umas das outras.

No canto da sala, os agouros da avó Rosa recrudescem intermitentemente…

Esta peça de teatro, de leitura obrigatória para o meu terceiro semestre de Literatura Portuguesa, surpreendeu-me pela positiva. Nunca tinha lido peças da autoria de Bernardo Santareno e a verosimilhança que ele confere às réplicas das personagens contribui grandemente para uma boa experiência de leitura (já que ela nunca se equipara ao assistir a uma representação ao vivo).

O Pecado de João Agonia pode ser visto como uma obra problemática nos tempos que correm, tendo em conta alguma da linguagem a que se recorre relativamente ao tratamento de membros da comunidade LGBTQ+. Contudo, inserindo a peça no seu tempo e tendo em atenção o facto de se tratar de uma obra que tem como centro a injustiça e a irracionalidade na discriminação e maltrato dos homossexuais, penso que é perfeitamente legítimo.

Mesmo sabendo que se tratava de uma tragédia inserida no século XX, não estava à espera de um final tão drástico, mas que, simultaneamente, fez sentido. O Pecado de João Agonia é um grito de alerta que nos chega de há meio século e nos confronta cruamente com comportamentos que mudaram menos do que seria necessário.

01
Out23

“Waiting For Godot” – Samuel Beckett

Helena

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Waiting for Godot, do Nobel da Literatura Samuel Beckett, é uma peça de teatro que põe no centro do palco Gogo e Didi, dois amigos que estão presos a um compromisso de contornos bastante vagos: um encontro com Godot, uma entidade desconhecida que lhes trará algo que também desconhecem. As únicas personagens que interrompem a monotonia da sua espera, ainda que temporariamente, são Pozzo e Lucky, uma estranha dupla de senhor e servo.

Mesmo quando lhes surge no espírito a ideia de abandonar a paisagem inóspita onde se encontram, Gogo e Didi não se movem. Não podem ir embora, Godot ainda não chegou. Enquanto esperam, o par de amigos tenta preencher o vácuo com hipóteses e reflexões sobre a vida nas circunstâncias hipotéticas de fim da humanidade em que se encontram.

“We always find something, eh Didi, to give us the impression we exist?”

Waiting for Godot é uma peça que se inclui no conceito de Teatro do Absurdo, produções teatrais que partem de ideias existencialistas para expressar a falta de propósito da vida humana.  Assim sendo, não é um texto cujo significado é entregue linear e diretamente ao leitor. Por detrás dos diálogos absurdos entre as personagens, vive o reconhecimento da inutilidade de tentar dar sentido à vida, a valorização da amizade e a prova da incapacidade da linguagem para expressar toda a complexidade da experiência humana. Não é uma peça muito entusiasmante, já que quase nada acontece, mas isso faz parte do seu objetivo: colocar sob os holofotes o que resta dos Homens quando a única coisa que têm é a esperança de encontrar o representante de uma metafísica que os mantém à tona.

Mais do que um par de amigos agarrados à esperança da vinda de um tal Godot, esta é uma peça sobre a esperança da humanidade nalguma espécie de libertação, uma salvação, um resgate milagroso da estagnação agonizante da vida. É uma peça sobre aquilo que nos move, e também sobre o que nos faz ficar.

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