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H-orizontes

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08
Set22

“O Primo Bazilio” – Eça de Queiroz

Helena

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O segundo volume da série queirosiana que constitui um retrato crítico da sociedade portuguesa do século XIX foi publicado pela primeira vez em Portugal em 1887, tendo sido reeditado no mesmo ano por se terem vendido todos os exemplares.

O Primo Bazilio insere-nos no seio da vida doméstica da burguesia lisboeta novecentista. Luiza, dona de casa e mulher de Jorge, vê-se sozinha na capital devido a uma viagem de negócios do seu marido ao Alentejo. A solidão de Luiza não tarda a ser preenchida pelas visitas do seu primo Bazilio, chegado do Brasil, onde fizera fortuna. Apesar da sua consciência de esposa responsável, Luiza não consegue resistir aos encantos do primo que já quando eram mais jovens a tinha conquistado, antes de partir para o Novo Mundo.

O movimento na casa de Luiza não passa despercebido à curiosidade da vizinhança, ávida de novos escândalos e boatos. Entretanto, Jorge, longe de casa, não sabe de nada do que se passa entre a sua esposa e o querido primo, e Luiza descobre os prazeres libidinosos do adultério. Atraída para um estratagema amoroso do qual não tem forças para sair, Luiza entrega-se a uma relação sigilosa que se poderia ter prolongado por muito tempo, não fosse uma carta comprometedora ter aterrado no cesto dos papéis que a criada tinha a função de despejar…

"Assim um iate que aparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar, ao partir, nos lodaçais do rio baixo; e o mestre aventureiro que sonhava com os incensos e os almíscares das florestas aromáticas, imóvel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz ao cheiro dos esgotos."

Eça volta a presentear-nos com a sua ironia numa representação satírica da sociedade da época constitucionalista. A crítica queirosiana atinge não só o atraso lisboeta em relação ao mundo moderno e o caráter fraco da sua população, mas também os novos-ricos levianos e interesseiros, a quem o poder e riqueza que detêm dão a sensação de poderem beneficiar da simplicidade daqueles que os rodeiam.

Esta narrativa está povoada de personagens que, interferindo ou não na ação principal, têm um papel essencial na construção do cenário social do enredo. Os vizinhos coscuvilheiros, o conselheiro ambicioso ou o médico quase rendido à corrupção do sistema não influenciam nem alteram a trajetória da narrativa, mas conferem verosimilhança ao ambiente em que se desenrola esta história de adultério.

O Primo Bazilio é mais um monumento do realismo português, sendo que, desta vez, Eça elevou a objetividade do relato a um ponto que roça o erotismo. Esta é uma narrativa de luxúria, desejo, impulsividade e consequente arrependimento, enriquecida por personagens que podiam perfeitamente ser de carne e osso, tal é a forma como o leitor acaba por se relacionar com elas e por nutrir por elas sentimentos indizivelmente intensos. Assim, trata-se de uma obra que recomendaria tanto como porta de entrada para a literatura queirosiana, como para dar sequência ao maravilhamento de um leitor que se tenha apaixonado pela obra-prima que é Os Maias.

"É que o amor é essencialmente perecível, e na hora em que nasce começa a morrer."

27
Jul21

“1984” – George Orwell

Helena

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No ano de 1984, no superestado da Oceânia, nada resta do mundo como hoje o conhecemos – pelo menos, nada do que nos pareceria importante para o bem-estar de qualquer sociedade. Em cada canto, um telecrã a vigiar todos os movimentos de todos os cidadãos. Em cada casa, a total ausência de lealdade familiar, com as crianças a serem educadas para denunciarem os próprios pais à mínima suspeita. No cinema, filmes baseados na violência gratuita e na propaganda. Na conjuntura internacional, uma guerra permanente e infrutífera. Em todos os muros, a imagem do Grande Irmão, a encarnação do Partido, infalível, imortal.

É neste mundo que vive Winston Smith, um membro do Partido Externo que trabalha no Ministério da Verdade, no Departamento dos Arquivos. A sua função é alterar os documentos antigos que põem em causa a infalibilidade do Partido. Por exemplo, se tinha sido previsto um aumento de 50% na produção de botas e esta só tivesse crescido 30%, o Departamento dos Arquivos devia alterar todos os registos da antiga declaração do Partido para que os resultados superassem o que tinha sido previsto.

Ao contrário da esmagadora maioria da população, Winston tem consciência de como a classe dirigente altera o passado e da cegueira dos populares, tão embrenhados no duplopensar que não se apercebem da manipulação de que são vítimas.

Apesar de saber que a sua atitude se encaixa perfeitamente no conceito de pensarcrime, o que, mais tarde ou mais cedo, lhe custará a vida, Winston está decidido a fazer a diferença e a contribuir para o restabelecimento de um Estado livre, objetivo e igualitário. Mas será possível escapar às garras da Polícia do Pensamento? Serão as suas convicções firmes o suficiente para não se deixarem abalar pela influência omnipresente e esmagadora do Partido?

A última e mais célebre obra de Orwell leva-nos numa viagem ao futuro distópico que aguarda a civilização moderna. No seu típico registo lúcido e fascinante, Orwell constrói aquilo que ele próprio denominou uma “sátira”, que funciona como um sinal de alerta: “olhem o que vos acontecerá se não fizerem nada para o evitar”. Num mundo em que é tão fácil difundir um ideal pelas massas, em que somos escrutinados pelos algoritmos das redes sociais, em que se assiste ao aumento dos adeptos de extremismos, a leitura de 1984 é especialmente pertinente.

A minha primeira impressão deste livro não foi muito positiva. Para além de considerar que a voz de Orwell é mais cativante nos seus ensaios, sendo menos adequada a narrativas, achei que a personagem principal era muito fraca. Winston, apesar de idealista, não tem força suficiente para se afirmar e para assumir uma posição clara face ao dilema com que é confrontado. No entanto, com o avançar da leitura, fui percebendo que não poderia ser de outra maneira, uma vez que Winston é o fruto do meio em que está inserido – um meio opressivo, repressivo, intolerante e em vigilância permanente. Assim, numa narrativa focada na experiência de Winston, partilhamos as suas sensações, quase sentindo na pele o efeito esmagador de um Estado regido pela manutenção da desigualdade, pela adulteração dos factos e pelo controlo total dos cidadãos arregimentados.

Em 1984, o típico discurso anti totalitarista do autor alia-se à sua considerável capacidade criativa. Orwell não se limitou apenas a profetizar o futuro de uma sociedade consumida pelo autoritarismo e por valores desumanos, como também construiu integralmente elementos sobre os quais esse futuro se alicerça. Este é o caso da novilíngua, a única língua cujo vocabulário se reduz ao longo do tempo, a fim de limitar os meios de expressão dos cidadãos e a sua capacidade de formularem pensamentos críticos. Orwell redige também excertos do livro de Goldstein, o líder da conspiração contra o regime, e é nele que assume a sua faceta de ensaísta e elabora uma análise social coerente de um mundo ainda por vir.

Em conclusão, o objetivo do 1984 encontra-se muito além da crítica ao regime estalinista em vigor aquando da data da sua publicação. 1984 é um futuro possível, uma hipótese aterradora que nos cabe evitar que se torne realidade.

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