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H-orizontes

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27
Mar21

"Por Quem os Sinos Dobram" – Ernest Hemingway

Helena

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Em plena Guerra Civil Espanhola, Robert Jordan, um dinamitista americano simpatizante dos republicanos, é encarregado de fazer explodir uma ponte nas linhas fascistas, na serra de Guadarrama. Para cumprir a sua missão, Jordan conta com a ajuda do “bando de Pablo”, um grupo de guerrilheiros que vive escondido na zona fascista. Entre eles contam-se Pablo, o chefe, cuja cobardia contrasta com a bravura do seu passado; Pilar, sua mulher e suporte da vida do grupo; Anselmo, um velho que não gosta de matar homens; e Maria, uma rapariga de cabelo rapado que foi resgatada das garras dos fascistas num ataque a um comboio, e por quem Robert se apaixona assim que a vê.

Apesar de o dinamitista desconhecer o propósito do ataque que deve levar a cabo, não duvida de que, de uma maneira ou de outra, será um contributo indispensável para a causa da República, uma pequena intervenção que se repercutirá no destino de muitos e pela qual vale a pena morrer. “Nenhum homem é uma Ilha isolada; cada homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra; se um Torrão é arrastado para o Mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um Promontório, como se fosse a Casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque faço parte do Género Humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” (John Donne – epígrafe)

Ler Hemingway era uma experiência que eu adiava indefinidamente, até descobrir que, por trás deste título, se encontrava uma das narrativas de referência sobre a Guerra Civil Espanhola. Decidi então aliar o primeiro contacto com este Nobel da Literatura e a pesquisa para o trabalho de História que terei de apresentar no terceiro período deste ano letivo.

Não costumo ler as sinopses dos livros, para evitar spoilers e me surpreender com o enredo. Neste caso, o enredo surpreendeu-me pela negativa, quando percebi que a destruição da ponte não seria apenas a primeira grande peripécia da obra, como também a única. A ação desenrola-se ao longo dos quatro dias que Robert Jordan leva a concluir a sua missão nas montanhas. O que preenche as páginas de um livro tão longo sobre um período tão breve são os pensamentos (por vezes repetitivos) do dinamitista, diálogos entre as personagens e relatos do passado de algumas delas – as partes mais interessantes e substanciais da história.

O estilo, que antecipava difícil e complexo, é, pelo contrário, muito simples. Há quem refira que essa simplicidade é o “bote salva-vidas” deste romance, uma vez que um estilo rebuscado o tornaria intragável, de tão aborrecido, e não posso deixar de concordar. Ao exigir menos esforço e permitir um ritmo de leitura mais rápido, torna o romance mais suportável.

Perturbou-me, no início, o facto de Hemingway se referir sempre ao americano como Robert Jordan, quando podia fazê-lo através de um dos nomes ou da alternância entre os dois. Acabei por me habituar e assumi-o como uma escolha de estilo consciente.

Apreciei particularmente a inclusão de expressões características da língua espanhola corrente.

As personagens não são particularmente marcantes, assim como as relações que estabelecem entre si. A relação amorosa de Robert Jordan e Maria, em especial, é muito pouco realista, até para uma história de amor à primeira vista. O passado traumático de Maria (vítima de abusos sexuais pelos fascistas), o papel de Pilar como sua “instrutora”, os seus diálogos com Robert, a sua submissão e o modo súbito como tudo acontece são os principais responsáveis pela condenação de um possível amor em tempos de guerra.

Aquilo que tornou esta leitura mais difícil para mim foi a referência frequente ao armamento e à hierarquia militar, aspetos que não domino, e a personalidades que desconheço.

Apesar de me ter permitido conhecer uma nova faceta da Guerra Civil Espanhola (a perspetiva dos guerrilheiros), penso que este livro é facilmente ultrapassado pelo Homenagem à Catalunha de Orwell, cuja leitura recomendo para uma melhor compreensão deste período.

“Nos que gostam de matar há sempre qualquer coisa de podre.”

“Ninguém pode provar a nacionalidade e a política de um corpo morto.”

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