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H-orizontes

H-orizontes

02
Mar24

“Sei porque canta o pássaro na gaiola” – Maya Angelou

Helena

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Sei porque canta o pássaro na gaiola é um memoir da autoria de Maya Angelou, no qual ela recua até à sua infância em Stamps e partilha a sua experiência de crescimento no sul dos Estados Unidos da América, enquanto menina negra entregue aos cuidados da sua avó.

Nas profundezas do Arkansas, a pequena Marguerite (Maya) familiariza-se desde cedo com a precariedade do trabalho da população negra nas plantações de algodão. Todas as manhãs, os trabalhadores chegavam à loja da sua avó para comprar o farnel do meio-dia e, todas as noites, regressavam de rastos, tanto por causa do trabalho pesado como pela certeza de que este nunca seria suficiente para cobrir as necessidades de uma vida digna.

A casa da avó, onde estão relativamente a salvo da dureza da vida lá fora, não pode proteger para sempre Marguerite e Bailey, o seu irmão mais velho e melhor amigo. À consciência crescente da irracionalidade do ódio que a população branca sente por eles aliar-se-á uma consciência aguda da ausência dos seus progenitores, especialmente depois de serem visitados pelo pai, em Stamps, e visitado a mãe, em St. Louis. Símbolos de uma vida diferente e livre fora dos limites de Stamps, os seus pais tornam-se também símbolos da ascensão social, da instabilidade e do trauma – de facto, é durante a sua estadia com a mãe que Marguerite é assediada e violada pelo seu padrasto, algo que a marca profundamente com um indelével sentimento de culpa.

A narrativa segue pelos anos de amadurecimento dos irmãos, e com ele a sua individualização. É a altura de Marguerite perceber em que medida aquilo em que se quer tornar é condicionado pelo seu passado, pela sua cor de pele e pelas suas decisões de todos os dias.

“As pessoas iam ficar tão espantadas no dia em que eu acordasse do meu sonho negro e feio, e em que o meu verdadeiro cabelo, que era comprido e louro, tomasse o lugar da carapinha que a Mãezinha não me deixava alisar!”

Sei porque canta o pássaro na gaiola provocou em mim aquilo que habitualmente me provoca o género literário do memoir: uma necessidade constante de me relembrar de que aquilo que estou a ler não é um produto de ficção. Tudo é real: o desconforto de Marguerite face aos comentários das crianças brancas sobre a sua avó; o seu amor por Bailey; a sua admiração por Mrs. Flowers, um ícone da emancipação feminina que se destacava no panorama conservador da sua vida em Stamps. Maya Angelou eterniza neste livro a violência da vida negra na América nos anos 30 e 40 do século passado, através do olhar límpido e inocente de uma criança que vai descobrindo o mundo em que vive.

Aquilo que mais me marcou nesta leitura foi a brutalidade da culpa que Marguerite carregou dentro de si durante o seu crescimento, fruto de um evento traumático que, enquanto criança, não tinha ferramentas para compreender nem processar. A tradição religiosa que dominou grande parte da sua infância, juntamente com a relação intermitente que mantinha com os pais, levaram Marguerite a interpretar a sua violação, e as consequências desta, como algo que a tornava indigna de afeto, abandonada pelo deus que venerava. O abuso da inocência de uma criança que ainda não conhece a barreira que separa o carinho do abuso é revoltante, e é-o mais ainda a chantagem emocional com que o abusador tenta silenciá-la.

Assim, Sei porque canta o pássaro na gaiola é uma leitura inspiradora, um testemunho de uma vida marcada por reviravoltas, altos e baixos, traumas e descobertas. Não deixa, no entanto, de ser um livro que aborda temas sensíveis, como a violação e o racismo, de uma forma bastante dura, pelo que não é um livro que recomende para quem procura beleza e conforto. Ainda assim, e porque só enfrentando um passado desagradável podemos construir um futuro mais justo, reitero a minha opinião de que esta é uma história de grande importância para aprendermos a ver a vida a partir dos olhos de outros.

20
Ago23

“Recitatif” – Toni Morrison

Helena

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O único conto publicado pela Nobel da Literatura  de 1993 retrata o crescimento de duas meninas que se conheceram no orfanato de St. Bonny’s, depois de ambas terem sido retiradas às suas mães. Desde o início que sabemos que as meninas são diferentes, por uma ser branca e uma ser negra numa América onde isso implica uma série de considerações a nível identitário. No entanto, Morrison omite a informação sobre a cor de pele de cada uma das meninas. Em consequência, Recitatif é um puzzle, um labirinto de pistas contraditórias que faz do leitor o próprio alvo da experiência desta peça de literatura experimental.

À medida que crescem, Twyla e Roberta encontram-se esporadicamente em episódios que nos permitem tirar algumas ilações sobre a dinâmica de relacionamento entre pessoas de raças diferentes, nos Estados Unidos, por volta dos anos 50 do século passado: um encontro num hostel onde Twyla trabalha, no meio de um protesto contra a dessegregação nas escolas e num supermercado para as pessoas de classe alta.

No final de contas, Twyla e Roberta definem-se por aquilo que é comum ao ser humano: a busca pelo sentido de identidade, a permanência da memória e o desejo de libertação em relação a um passado traumatizante. Afinal, quem espancou a Maggie?

“Easy, I thought. Everything is so easy for them. They think they own the world.”

A forma como Toni Morrison consegue atingir tanto numa narrativa tão curta é genial. Ao remover da caracterização das personagens algo que, à época, seria extremamente importante para a sua definição enquanto indivíduos, Morrison deixa um espaço aberto que completa com apontamentos e situações que põem o leitor na berma da ambiguidade. Por essa razão, esta é uma experiência de leitura que leva o leitor a aprender mais sobre si próprio do que sobre as personagens cuja história de vida vai desvendando. Consoante a visão estereotipada do leitor da dualidade brancos/negros, a narrativa assume contornos consideravelmente diferentes. Assim, esta é uma história importantíssima para tomarmos consciência dos nossos próprios preconceitos raciais.

Para alcançar este efeito de ambiguidade, Morrison teve de adotar um registo de linguagem que não deixasse transparecer a herança linguística e cultural de nenhuma das personagens. Com efeito, o equilíbrio entre um registo de indivíduo americano branco e um de raízes afro-americanas é essencial para o funcionamento desta narrativa, e é alcançado na perfeição.

Esta edição de Recitatif (Knopf, 2022) é acompanhada por uma introdução de Zadie Smith que, tendo optado por lê-la depois de ler o texto principal, me apresentou o conto sob uma série de novas luzes. Aconselho vivamente os leitores a que se dediquem a leituras complementares a esta, nomeadamente artigos de análise da obra, já que põem em destaque aspetos que podem passar despercebidos e aprofundam o sentido de genialidade da bibliografia de Morrison.

Em suma, apesar de ainda não existir uma tradução portuguesa deste conto, penso que esta é uma leitura obrigatória para uma melhor compreensão do mundo que nos rodeia, do passado de que resultamos e daquilo que, inconscientemente, somos.

07
Mai23

“Europe & The Architect” – David Greig

Helena

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Nesta publicação da Methuen Drama, compilam-se duas peças de David Greig, Europe e The Architect, representadas pela primeira vez no Traverse Theatre, em Edimburgo, em 1994 e em 1996, respetivamente.

Em Europe, uma pequena povoação na fronteira de um país europeu não nomeado recebe a terrível notícia do encerramento da estação de caminhos de ferro, na qual já quase não paravam comboios. Ao mesmo tempo que se debatem com as consequências que isto implica, os habitantes desta pequena cidade veem-se a braços com o expediente das recentes vagas de refugiados: pai e filha fazem da estação o seu abrigo e encontram nos seus responsáveis algum apoio. No entanto, nem toda a povoação partilha deste sentimento de solidariedade. Numa peça simples e curta, David Greig concretiza uma representação da realidade europeia do presente – um continente unido de grande cidade em grande cidade, cuja resposta humanitária ao problema dos refugiados continua a deixar muito a desejar.

The Architect traz para a ribalta os dramas de cada um dos elementos de uma família numa cidade do presente. Leo, um arquiteto, debate-se com uma proposta de demolição de um dos edifícios que projetou, que, entretanto, se tornara um antro de pobreza sem condições para alojar aqueles que precisavam. Paulina, a sua esposa, sente que o seu casamento já não faz sentido e que já nada no seu marido a fascina. Dorothy, a filha, trabalha com o pai, mas tem a necessidade de quebrar a monotonia da sua vida partindo à boleia de desconhecidos sem um destino definido, sem avisar ninguém. Martin exaspera o pai por se recusar a dedicar-se a um trabalho e pensa que fugir é a única forma de escapar à dinâmica familiar que o asfixia.

“You can’t build a thing high enough that if you fell off you wouldn’t hit the ground.”

Apesar de terem sido escritas na década de 90 do século passado, estas peças veiculam uma mensagem que ainda se adequa perfeitamente ao presente. Com novas vagas de refugiados a procurar asilo na Europa, a urbanização e terciarização crescente da sociedade e o agravamento da precariedade da habitação, os problemas destas personagens refletem comportamentos e preocupações dos europeus, trinta anos depois.

Apesar de não costumar gostar de ler textos dramáticos, o Europe conquistou-me pela forma como aborda tantos temas fraturantes sem parecer forçado. As personagens são verosímeis e as suas atitudes são plausíveis e adequadas ao espaço onde vivem. Já The Architect não me agradou tanto, não só pelo modo de encadeamento das cenas como pela falta de naturalidade no comportamento das personagens.

Assim, foi uma boa incursão na literatura dramática britânica contemporânea, que me deixou com vontade de ver as representações destas peças ao vivo.

“I’ll talk to you all night. That’s better than love.”

18
Mar23

“Não se pode morar nos olhos de um gato” – Ana Margarida de Carvalho

Helena

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Em finais do século XIX, já depois da abolição da escravatura, um navio que traficava escravos naufraga na sua travessia entre a Baía e o Rio de Janeiro. Após uma violenta disputa em pleno mar pelo mísero espaço disponível na jangada salva-vidas, sete pessoas dão à costa, numa praia rodeada por falésias altas, sem vestígios de presença humana. Apesar do desânimo geral, rapidamente estabelecem regras básicas e uma hierarquia de trabalho: o capataz regula o consumo na única fonte de água potável da praia, um olho de água que a maré tapa e descobre, enquanto os outros recolhem moluscos para comer.

Para surpresa de todos, mais um sobrevivente alcança a praia deserta: um dos escravos do porão do navio, maltratado e recebido com o horror e o ódio dos restantes náufragos. Todavia, as circunstâncias não dão margem para conflitos, e todos se juntam no único propósito de seres humanos numa situação limite: a sobrevivência.

Do trágico presente numa praia brasileira, viaja-se pelo espaço e pelo tempo para se dar a conhecer o passado dos náufragos infelizes: um jovem que vive desde sempre sob o peso da culpa; um clérigo cujo nascimento milagroso não chegou para melhorar a situação familiar precária; um criado que ainda sente nas narinas o cheiro do Mondego e esconde um grande segredo sob o seu otimismo; uma mulher criada por engordadores de escravos, a quem apenas restava tentar imitar os requintes de uma Europa que nunca conheceu; um negro que viveu a crueldade da exploração, que viu morrer os amigos e esvair-se a sua dignidade; uma menina a quem o destino foi esfarrapado por um pai de afetos abusivos; e um capataz cujo olhar seduzia por enquanto qualquer mulher. Como conseguirão sobreviver pessoas tão distintas, cada um consumido pelo seu próprio desespero?

“Não são os deuses que dormem, nós é que os sonhamos.”

O segundo livro de Ana Margarida de Carvalho, publicado em 2016 pela Teorema, conjuga com mestria a representação da violência na época histórica retratada e do sofrimento intemporal inerente à condição humana. Aos horrores da escravatura e do tráfico humano somam-se questões de identidade, de culpa, de problemas de família e do grande desespero que acompanha o instinto de sobrevivência.

Apesar de, aparentemente, a principal linha narrativa do romance ser essencialmente estática, o fator mais impactante desta história é o conteúdo das analepses que revelam o passado de cada uma das personagens, o maior ou menor fardo que cada um deles carrega na sua consciência. Ainda que todos provenham de origens drasticamente distintas, é numa situação-limite que as suas diferenças se esbatem e é possível que se percecionem como seres humanos dominados pela necessidade de sobreviver. É essa a mensagem mais poderosa do romance: por mais diferentes, falíveis e imperfeitos que sejamos, une-nos a nossa condição humana e o nosso destino inexorável.

Esta é mais uma leitura desafiante, principalmente devido ao estilo característico de Ana Margarida de Carvalho, que defende que não se deve simplificar algo que pode ser apresentado de forma complexa, e que é nitidamente influenciado por Saramago e António Lobo Antunes.

02
Mar23

“Born a Crime – Stories from a South African Childhood” – Trevor Noah

Helena

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África do Sul, anos 80 do século XX. A libertação de Nelson Mandela e o fim do Apartheid alteram o status quo da sociedade sul-africana, derrubando os ideais de supremacia branca consolidados em décadas de estruturas governativas colonialistas. É durante este atribulado período de transição que se desenrola a infância de Trevor Noah, atual comediante e apresentador de televisão, filho de uma mulher sul-africana e de um homem germano-suíço – o resultado de uma união punida pelas leis segregacionistas do pré-Apartheid.

Através de 18 capítulos, que correspondem a 18 histórias da infância de Trevor, ficamos um bocadinho mais perto de entender a experiência de uma criança que, sem poder incluir-se no grupo dos meninos negros nem no dos meninos brancos, foi trilhando o seu caminho, simultaneamente único, mas de alguma forma comum às crianças mulatas sul-africanas nos anos 80.

“Before that day, I had never seen people being together and yet not together, occupying the same space yet choosing not to associate with each other in any way.”

Este livro surpreendeu-me imenso pela positiva, por ser tão bem conseguido em todos os aspetos: por sensibilizar os leitores para as condições de vida sob o regime de repressão do Apartheid, por reproduzir tão vivamente a história de uma infância fascinante e por retratar um povo cujos costumes e cicatrizes ainda hoje são passados herdados de geração em geração.

Ao mesmo tempo que se trata de um livro coeso e bem construído, Trevor varia o seu registo narrativo e despreza a cronologia no que toca ao relato dos acontecimentos. Assim sendo, Born a Crime conjuga discursos sóbrios e solenes e registos informais e divertidos que faz com que os leitores sintam que estão a assistir a um dos seus espetáculos de stand-up comedy. Quanto à organização temporal, mesmo que os relatos não correspondam à ordem cronológica dos acontecimentos (afinal, esta não é uma biografia, mas sim um memoir), isso em nada impede que, no final, o leitor consiga visualizar o quadro da infância de Trevor com todas as suas nuances e pormenores.

A dedicatória de Born a Crime é dirigida a Patricia Noah, a mãe de Trevor, uma personagem omnipresente na sua narrativa de Trevor e que influenciou em grande medida, direta e indiretamente, o adulto em que ele se veio a tornar. Sem recorrer a longos agradecimentos ou a discursos laudatórios, Trevor faz desta obra um monumento à força de vontade da sua mãe, uma mulher inspiradora na sua resiliência. Para além disso, ao ter sido vítima de violência doméstica, cuja desvalorização por parte das autoridades conduziu a consequências extremas, a sua história é particularmente relevante para sublinhar a importância do reconhecimento e da condenação de comportamentos abusivos no seu estado mais precoce.

Assim, recomendo vivamente a todos que deem uma oportunidade a este livro, uma história brutal e hilariantemente real que vos fará rir à gargalhada, franzir o sobrolho e ferver de revolta, no espaço de um par de capítulos.

“language, even more than color, defines who you are to people.”

14
Jan23

“De noite todo o sangue é negro” – David Diop

Helena

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Em plena Primeira Guerra Mundial, Alfa Ndiaye, um soldado senegalês, acompanha as últimas horas de vida do seu amigo Mademba, o seu “mais do que irmão”, com “o lado de dentro do lado de fora”, na terra de ninguém. Por três vezes, Mademba pede a Alfa que o mate e acabe com o seu sofrimento, mas por três vezes Alfa recusa. Só depois de o seu “mais do que irmão” morrer, com as entranhas espalhadas pelo chão, é que Alfa se apercebe do que poderia ter feito e não fez, e de como seguir as regras nem sempre é o mais adequado.

Desperto para a consciência da arbitrariedade da guerra e da total ausência de sentido nas ordens a que, durante tanto tempo, obedeceu, Alfa começa a descer numa espiral de sentimentos de culpa que lhe exigem uma redenção. Depois da morte de Mademba, Alfa começa a voltar para a trincheira depois dos outros soldados. Fica no campo de batalha, à espera de uma vítima, de um inimigo de olhos azuis que possa esventrar e, contrariamente ao que fez com Mademba, matar à sua primeira súplica. De volta à trincheira, trazia a espingarda e a mão do inimigo que matara, algo que os seus companheiros começaram por louvar, mas rapidamente começaram a associar a uma loucura que não era igual àquela que lhes era pedida quando se lançavam para o campo de batalha. E se o soldado senegalês for um feiticeiro? Corre o rumor de que ele é um demm, um devorador de almas…

“Creio ter compreendido que aquilo que está escrito lá em cima não é senão uma cópia daquilo que o homem escreve cá em baixo.”

Deparando-se com a abundância de cartas tocantes de soldados nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial nos arquivos europeus, David Diop lançou-se numa busca por cartas do mesmo género enviadas pelos soldados senegaleses na frente de batalha. Face à natureza puramente burocrática dos documentos que encontrou, Diop propôs-se produzir uma obra que colmatasse essa lacuna nos testemunhos de um povo. Assim nasceu De noite todo o sangue é negro, vencedor do Booker Prize de 2021.

Neste livro curto, mas intenso, David Diop apresenta uma face da guerra que raramente se vê retratada nos romances que a tomam como pano de fundo: o contingente negro de soldados vindos das colónias para combater ao lado das tropas dos seus colonizadores. Alfa e Mademba são dois dos senegaleses que abandonaram o seu país em direção a uma realidade completamente diferente, a uma trincheira onde era esperado que os soldados não pensassem, apenas obedecessem com uma loucura irracional ao apito que os enviava para o campo de batalha. Assim, Diop posiciona os holofotes sobre a estereótipo de que os soldados africanos eram vítimas, permanentemente associados à selvajaria e à brutalidade, com a finalidade de aterrorizarem o inimigo.

Apesar de um cenário de guerra ser uma realidade dura e dramática por si só, o autor adota uma perspetiva que lhe permite fazer uma análise da mente humana face a uma situação limite: a morte lenta de um “mais do que irmão”, prolongada pela incapacidade humana de pensar de forma objetiva numa situação tão inesperada e tão cruel. A partir daí, Diop usa as palavras de Alfa para explorar o paradoxo absurdo da guerra: era correto e desejável matar indiscriminadamente qualquer pessoa que ocupasse o lado oposto da terra de ninguém, mas mutilar as mãos do inimigo e recolhê-las como troféu era, nas palavras do comandante, contra as regras da “guerra civilizada”. Num universo em que o apelo à violência é arbitrário e o espírito crítico desencorajado, o sentimento de revolta de Alfa cresce e agrava a sua necessidade de vingança.

Para além de expressar claramente a quebra cultural que os soldados africanos sofriam na sua vinda para solo europeu, David Diop equacionou a questão de muitos deles não falarem mais do que a sua língua nativa. Assim, recorrendo a repetições e formulações típicas da língua indígena, alterou a cadência e o ritmo da narrativa para os aproximar aos do fluxo de consciência autêntico de Alfa Ndiaye. Esta escolha confere, ainda, um tom poético e místico ao texto traduzido.

Em conclusão, De noite todo o sangue é negro é um livro imperdível, violento, marcante, com um final surpreendente, e que, a meu ver, deve ser complementado pela visualização de entrevistas dadas pelo autor sobre a sua inspiração e processo de escrita.

“A guerra é isso: é quando Deus está atrasado em relação à música dos homens”

16
Jun22

“Os Rapazes de Nickel” – Colson Whitehead

Helena

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Na Florida da década de 1960, Elwood Curtis, um rapaz negro, dá os primeiros passos numa vida destinada a algo maior. Inspirado pelos discursos de Martin Luther King Jr, Elwood sonha com o dia em que pessoas como ele vão poder fazer tudo aquilo a que os brancos têm direito: ir a parques de diversões, sentar-se em qualquer restaurante, frequentar qualquer estabelecimento de ensino.

No dia em que iniciaria o seu percurso na universidade que o tinha aceitado como estudante de literatura, a vida de Elwood sofre uma reviravolta. O condutor a quem ele tinha pedido boleia é parado pela polícia por ter roubado o carro que conduzia. Acidentalmente envolvido num crime que não podia ter previsto, Elwood é encaminhado para o reformatório Nickel.

Quando chega ao reformatório, o rapaz sente um certo alívio ao constatar que os rumores sobre a realidade terrível na Nickel não passavam de boatos: tudo parecia ordeiro e pacífico. Contudo, Elwood não tarda a descobrir que, sob a fachada de eficácia, se estende uma rede de violência e abusos sistemáticos. Na companhia de Turner, Elwood suporta o dia a dia no reformatório, lutando entre a obediência relutante que lhe concederia uma redução da pena e a consciência de que baixar a cabeça era uma traição à luta pela igualdade. Seria possível que as palavras do reverendo King acerca da força do amor sobre a violência não passassem de uma utopia?

“Cresci com rapazes como vocês, brancos e de cor, e sei que vocês são como eu, mas tiveram azar.”

Os Rapazes de Nickel foi vencedor do Pulitzer Prize de ficção em 2020. Baseado numa história verídica, este livro transporta-nos para a realidade do sul dos Estados Unidos numa altura em que, ainda que ilegal, a segregação e a discriminação continuavam a marcar o convívio entre raças. Através de um relato simples, mas extremamente impactante, este romance tem o poder de desencadear no leitor um forte sentimento de revolta. A sua força reside nas palavras não ditas, nas descrições por fazer, no mundo que se esconde no silêncio onde ecoam as vozes daqueles que não puderam ser ouvidos.

Para além de abordar a questão do racismo, tão relevante no passado como nos nossos dias, Os Rapazes de Nickel é um registo do impacto da segregação a longo prazo. Dos atos de violência arbitrária e humilhação sistémica resultaram milhares de vidas arruinadas, marcadas pela dor e pelo medo, perdidas nos meandros de um sentimento de inferioridade que lhes tinha sido impingido como um dever. Esta não é só uma história sobre a América sulista e a comunidade negra durante o movimento dos Direitos Civis, é também uma história sobre a herança racista e as tradições conservadoras que se mantêm até hoje.

Por último, mas não menos importante, este romance é rematado por um plot twist fenomenal que me deixou boquiaberta.

Assim, Os Rapazes de Nickel soma-se à lista de livros que recomendaria a toda a gente, tanto pela genialidade da sua construção narrativa como pela importância cada vez maior de aprendermos com as nódoas da História.

24
Jan22

“The Color Purple” – Alice Walker

Helena

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Início do século XX. Das profundezas do Sul dos Estados Unidos da América, surge-nos a história de Celie, uma rapariga negra que, após a morte da sua mãe, se vê encurralada entre a obrigação de cuidar dos irmãos e as violações sistemáticas de que é vítima por parte do pai.

Quando o pai de Celie decide dá-la em casamento ao homem que cortejava a sua irmã, Celie entra num novo ciclo de discriminação e violência. No entanto, surge uma luz ao fundo do túnel quando Shug Avery, uma célebre cantora negra de blues que outrora tivera uma relação com o marido de Celie, adoece e é acolhida em casa do ex-companheiro. Passados os primeiros tempos de arrogância e rudeza, Shug abre-se à amizade de Celie e percorre com ela os primeiros passos de uma inesperada jornada de autoconhecimento e emancipação.

Um romance epistolar sobre o amor, a esperança, a persistência e a dignidade, contada em primeira mão pelas vozes de um passado de opressão e racismo cujos ecos podemos ouvir ainda hoje.

“I think it pisses God off if you walk by the color purple in a field somewhere and don’t notice it.”

Este livro conquistou-me desde as primeiras páginas. Em primeiro lugar, pelo modo como foi estruturado: as cartas de Celie a Deus, numa primeira instância, e, mais tarde, à sua irmã Nettie, são um testemunho pungente dos pensamentos de uma mulher negra no centro do conservadorismo sulista. Para além de este registo estabelecer, à partida, uma relação de intimidade muito forte entre o leitor e a personagem principal, acrescenta-se à experiência de leitura um carinho especial por esta mulher oprimida que se esforça por aplicar a pouca educação que recebeu à expressão da sua perceção da vida e do mundo.

Em segundo lugar, quase todas as personagens são dotadas de uma evolução psicológica marcante, desde o marido violento “amolecido” pela perda, à rapariga ingénua e submissa que deixou tudo para seguir o seu sonho de se tornar cantora. Isso dota o livro de um dinamismo próprio e resgata-o da previsibilidade em que poderia cair um enredo com um fim do género “e tudo está bem quando acaba bem”.

Por fim, e principalmente, este romance fascinou-me pela maneira como retrata a situação da mulher enquanto vítima de uma multiplicidade de opressões em simultâneo. Celie, a personagem principal, não só é uma mulher, como também é negra, pobre e pouco letrada. Espelha-se nas suas cartas a evidência esmagadora de uma sociedade branca racista aliada a uma sociedade negra sexista, e a posição de vulnerabilidade das mulheres negras neste contexto. Apesar disso, as personagens femininas deste romance insurgem-se contra a ordem estabelecida e partilham connosco a sua jornada em direção a uma vida mais feliz, mais justa e mais livre.

The Color Purple é, assim, um livro ideal para refletir acerca da condição da mulher negra enquanto foco de discriminação múltipla, sem deixar de ser uma experiência deliciosa que nos deixa de coração quentinho.

“loving people makes them look like you”

13
Jan22

“Girl, Woman, Other” – Bernardine Evaristo

Helena

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Girl, Woman, Other é um conjunto de histórias de doze mulheres, de origens variadas e idades diversas, cujo denominador comum é o fardo da discriminação que carregam.

Amma é uma diretora de teatro excêntrica que teve de mostrar ao mundo que a cor da sua pele não a limitava ao papel de escrava que lhe atribuíam em peças teatrais.

Yazz, filha de Amma, é uma rapariga de dezanove anos com uma consciência aguda da diversidade que a rodeia e da incompreensão das gerações mais velhas face ao racismo e ao sexismo sistémicos.

Dominique é a filha de um nigeriano e de uma mulher de meia-casta que se apaixonou por uma feminista radical e se viu encurralada numa relação tóxica longe de casa.

Carole é uma trabalhadora de um banco que esconde o trauma de uma violação coletiva que sofreu quando tinha apenas treze anos.

Bummi, a mãe de Carol, é uma mulher das limpezas que carrega o peso da desconsideração daqueles que a veem apenas como tal, e não como a licenciada em matemática com uma determinação de ferro que ela realmente é. 

LaTisha é uma trabalhadora de supermercado que viu a sua liberdade estreitar-se pelo nascimento dos seus três filhos quando tinha ainda menos de vinte anos.

Shirley é uma professora na Peckham School for Boys and Girls, cuja ambição e entusiasmo vão esmorecendo à medida que o sistema de ensino muda, o comportamento dos alunos se degrada e a violência racista e o assédio sexual aumentam sem remédio.

Winsome, a mãe de Shirley, é uma camionista reformada que largou tudo para ajudar o seu marido a perseguir o sonho de ser um pescador.

Penelope, colega de Shirley, é uma mulher firme que se vê a braços com um casamento infeliz com um homem chauvinista que se recusa a deixá-la voltar ao trabalho, pois uma mulher não devia obedecer a mais do que um homem.

Morgan é um indivíduo não-binário negro criado por pais que lhe exigiam que agisse de acordo com os convencionais papéis de género, que descobriu através de pesquisas e fóruns online o vasto leque de géneros e orientações sexuais e que se tornou um ativista.

Hattie, a avó de Morgan, é uma senhora viúva que conheceu o seu falecido marido num baile para os regimentos de negros americanos, mobilizados para Inglaterra na Primeira Guerra Mundial, e que entristece ao ver o comportamento vergonhoso dos seus descendentes no jantar de Natal.

Grace, por fim, a mãe de Hattie, nasceu quando a sua mãe tinha dezasseis anos e nunca descobriu quem era o seu pai.

Este livro é fabuloso em todos os seus aspetos. Em primeiro lugar, a plasticidade do ponto de vista da autora é incrível. Cada mulher retratada nestas histórias enfrenta dilemas distintos, sendo que cada um deles é retratado de uma forma extraordinariamente autêntica. Através destas histórias, é apresentada ao leitor a verdadeira realidade da interseccionalidade, isto é, o facto de que, apesar de a discriminação ser um problema geral, algumas pessoas são mais discriminadas pelo facto de a sua identidade congregar várias características sujeitas ao desprezo sistémico da sociedade. Uma das personagens, por exemplo, é simultaneamente mulher, muçulmana, negra, africana e usa um hijab.

Apesar de cada personagem pertencer a um tempo e a uma história diferentes, todas elas se interligam numa teia de eventos, encontros e relações familiares. No final, compreendemos que a discriminação é uma realidade vivida tanto por aqueles que nos são mais próximos como por um estranho que vemos a atravessar a rua. Por essa razão, devemos sempre pensar duas vezes antes de julgar alguém pelo que as normas da sociedade estabelecem. Como se uma lição de moral não bastasse, há ainda um plot twist!

Também o estilo adotado pela autora eleva este livro a algo especial: uma subversão das regras de pontuação com a supressão de pontos finais, de exclamação e de interrogação, o semear de parágrafos que conferem ritmo à leitura e um destaque particular a determinadas palavras e expressões.

Em conclusão, penso que a leitura deste livro é essencial para compreendermos melhor o mundo e para semear a tolerância numa sociedade tão diversa, mas tão egoísta e intolerante, como a dos nossos dias.

“how on earth can you be a Professor of Modern Life when your terms of reference are all male, and actually all white”

“privilege is about context and circumstance”

“gender’s a social construction, most of us are born male or female but the concepts of masculinity and femininity are society’s inventions”

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