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H-orizontes

H-orizontes

24
Nov22

“The Pearl” – John Steinbeck

Helena

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La Paz é uma aldeia costeira orlada pelas cabanas de uma comunidade de pescadores pobre, sujeita ao poder dos que possuem a autoridade do alfabetismo. Nesta aldeia vivem Kino e a sua família, Juana e o bebé Coyotito, que sobrevivem à base da pesca e da apanha de pérolas no mar às suas portas.

Tudo muda quando, um dia, Kino encontra a chamada Pérola do Mundo – uma pérola gigante cujo brilho reflete uma infinidade de possibilidades. Kino começa a esboçar os destinos que daria ao dinheiro que ganharia com a venda daquela pérola: o seu casamento com Juana, a educação empoderadora do seu filho e o poder alucinante que poderia ter na aldeia se tivesse uma arma.

Contudo, nem tudo é tão belo e promissor como o brilho da pérola fazia prever. A notícia da descoberta de Kino espalha-se rapidamente pela comunidade, e não tardam a surgir tentativas de roubo da Pérola do Mundo. Em pouco tempo, a inveja e o oportunismo dos indivíduos alcança proporções inesperadas – roubos, simulações e tentativas de manipulação, consequências extremas da posse de uma oportunidade de emancipação.

« “I am man,” and that meant certain things to Juana. It meant that he was half insane and half god. »

The Pearl é uma novela bela na sua simplicidade. Esta história curta é mais intensa pela mensagem que lhe é implícita do que pelas palavras que Steinbeck escolheu para a contar.

“For it is said that humans are never satisfied, that you give them one thing and they want something more.” Esta célebre citação sintetiza o problema central desta novela: a crueldade materialista dos homens, cuja ambição desmedida os leva a cobiçar os bens alheios e as possibilidades mais remotas.

Gostei particularmente que o autor tenha dotado a personagem de Kino da herança familiar de associar os momentos e as sensações a melodias. Assim, enquanto, na cabeça de Kino, tocavam as canções da pérola, do inimigo ou da família, os leitores acompanham a narrativa como se esta fosse complementada por uma banda sonora, o que intensifica todas as suas sensações.

Em conclusão, The Pearl é um livro ideal para quem não tem muito tempo para ler e não gosta de construções narrativas muito complexas nem de linguagem rebuscada. Para quem tem muito tempo para ler e gosta de narrativas mais complexas e de um bom emprego da linguagem, é ideal também.

"A plan is a real thing, and things projected are experienced."

09
Nov22

“Que Importa a Fúria do Mar” – Ana Margarida de Carvalho

Helena

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Que Importa a Fúria do Mar, publicado pela primeira vez em 2013, foi obra finalista do Prémio LeYa em 2012 e venceu, por unanimidade, o Grande Prémio de Romance e Novela APE-DGLAB de 2013.

Eugénia, jornalista ambiciosa permanentemente remetida para os programas a que ninguém presta atenção, depara-se com mais um trabalho que não a fascina nem atrai: entrevistar um idoso sobrevivente do campo de concentração do Tarrafal. “Veio parar a túmulo bafiento. A um viveiro de ácaros, camadas geológicas de ácaros, moscas e cogumelos das infiltrações.” Aquilo que Eugénia não espera é que Joaquim da Cruz, um homem apanhado no lugar errado à hora errada, na revolta comunista da Marinha Grande de janeiro de 1934, desperte nela um fascínio que a fará regressar, uma e outra vez, à casa de Joaquim e às suas palavras esparsas e vagarosas.

Assim, de entre a repressão de um regime ditatorial, a jornalista vê surgir uma história de amor entre um homem condenado e uma mulher que lhe prometeu uma espera eterna. “O Tarrafal? Mas isso é uma história de amor…”

“Querida irmã, há tantas coisas bonitas que ainda não há.”

Neste romance, Ana Margarida de Carvalho dá voz às vítimas do regime salazarista que a repressão política e intelectual enviou para os horrores do campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. No entanto, Que Importa a Fúria do Mar ultrapassa os tormentos dos injustamente condenados à violência e à exploração, abrangendo também as consequências das infâncias atribuladas, o poder das paixões e o impacto que pequenos acasos podem ter numa vida inteira.

As páginas deste romance transbordam de referências intertextuais, como a Fernando Pessoa, aos seus heterónimos e a Bob Dylan. Num fluxo de consciência entretecido com a narrativa, formas de expressão populares e eruditas formam uma teia rica de linguagem e estilo que fazem deste livro uma viagem pelas heranças cultural e literária portuguesas.

Esta narrativa contraria o sentido comum do mar para os artistas e os poetas: um meio de evasão e libertação, cheio de oportunidades e de vida. Que Importa a Fúria do Mar apresenta o mar como algo que reprime e aprisiona os homens. Uma sensação de claustrofobia atravessa a obra através do paralelo entre o mar que impossibilita a fuga dos prisioneiros no Tarrafal e o mar que atemoriza a infância da narradora, encerrada no quarto das traseiras da casa dos tios, onde a mãe a deixara antes de prosseguir a sua vida.

Que Importa a Fúria do Mar é um livro para ler e reler, um exemplo de como a literatura é o resultado da conjugação de influências antigas e técnicas narrativas novas, desafiando os leitores a voltar ao passado, ainda que com os pés bem assentes no presente.

“A mim, o não-sentido da poesia basta-me.”

30
Out22

“A casa do pó” – Fernando Campos

Helena

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Partindo do Itinerário de Terra Santa, publicado no século XVI, Fernando Campos reconstrói e ficciona a história de Frei Pantaleão de Aveiro, cujas origens incertas são aproveitadas para preencher as lacunas de um relato de viagem que sobreviveu aos séculos.

João, noviço franciscano de vocação frágil, é um jovem sem passado nem origens. Apesar disso, aceita ser ordenado e embarca numa viagem em busca da fé, da verdade e de si próprio. Durante a sua jornada até à Terra Santa, confissões pouco claras, encontros inesperados e assaltos perigosos trazem ao de cima a explicação do seu nome franciscano (Pantaleão de Aveiro), as revelações que ambicionava… um passado que já não pode reaver.

Apesar de as minhas experiências com romances históricos terem sido, até à data, bastante positivas, este não correspondeu às minhas expectativas. O cerne da intriga perde-se nas longas descrições do narrador sobre as terras por onde passa, os costumes com que se depara e os acontecimentos no seio da igreja católica. Embora a inclusão destas observações seja compreensível, por respeito ao Itinerário que despoletou o conceito deste livro, penso que podia ter sido feito de um modo menos pesado e aborrecido, articulando-as com o enredo em vez de as condensar em parágrafos massudos.

Consequentemente, aquilo que podia ter sido um romance cativante sobre a descendência oculta da realeza portuguesa e as peripécias de uma jornada repleta de perigos acabou por se revelar um manual para os aficionados do catolicismo e de retratos bastante exaustivos das paisagens e matizes culturais que compunham a bacia mediterrânica do século XVI.

Assim, tratando-se de um livro que apenas me despertou interesse no início e no final, A casa do pó não se encontra entre os livros que recomendaria aos meus amigos leitores.

05
Out22

"Ensaio sobre a Cegueira" - José Saramago

Helena

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Quando uma epidemia de “cegueira branca” começa a espalhar-se pela população de uma cidade fictícia, as autoridades apressam-se a tomar medidas para evitar o contágio generalizado. Os cegos e aqueles que com eles contactaram começam a ser enviados para um manicómio abandonado, situado na periferia, onde terão de viver de acordo com uma série de regras básicas: não podem sair, nem para enterrar os mortos, a comida será entregue à porta, ninguém intervirá em caso de acidente ou desastre… a partir deste momento, estão fora do mundo e fora do tempo.

Isolados neste edifício e presos na luz branca que lhes tomou os olhos, homens e mulheres iniciam uma descida em espiral na escala da dignidade humana, a uma velocidade alucinante que se agrava com a chegada de mais e mais cegos. Com a insuficiência da comida racionada, a falta de higiene e a discrepância entre a atitude dos cegos mais velhos e mais recentes, o egoísmo e a cobiça encontram facilmente o caminho para o controlo do comportamento humano – se é que se pode chamar humano àquele resquício de ser sem passado nem futuro que se arrasta pelos corredores fétidos de um manicómio controlado pela força por dentro e por fora.

Até que ponto podem chegar a brutalidade dos homens face aos mais debilitados e os comportamentos desesperados daqueles que tentam sobreviver?

O Ensaio sobre a Cegueira é uma das obras mais célebres de José Saramago, autor galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998.

Este não é um livro para leitores cuja sensibilidade os impede de suportarem cenas violentas e grotescas. Ao reduzir o homem ao seu reduto mais animalesco, O Ensaio sobre a Cegueira está repleto de passagens fortes, essenciais para a tradução fiel e intensa da crueldade, do egoísmo e da insensibilidade do homem fechado no seu desespero.

Para além de achar particularmente relevante o facto de nenhuma das personagens possuir um nome próprio, tendo o autor optado por designações como “o primeiro cego” ou “o médico”, pelo caráter universal que conferem à história, é impossível não mencionar a singularidade da mulher que, no auge da epidemia de cegueira branca, vê.  Semelhante a Blimunda pela forma como os seus olhos lhe conferem uma posição privilegiada nesta narrativa, a mulher do médico soma-se ao repertório de personagens femininas fortes da obra de Saramago. É a mulher do médico que, através daquilo que vê, orienta o leitor e os cegos pelas ruínas da humanidade em seu redor.  Ao ser capaz de ver num mundo de caos engolido pela cegueira, sofre duplamente os seus efeitos.

“Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem” este excerto de diálogo, juntamente com a epígrafe que precede a narrativa – “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” (Livro dos conselhos) – traduzem a mensagem fundamental desta distopia perturbadora: a humanidade peca por não saber observar verdadeiramente aquilo que a rodeia. Depois desta submersão num universo em que, uma vez perdendo a visão, o Homem perde tudo o que lhe permite ser designado como tal, percebemos que é essencial que se desenvolva a capacidade de atribuir valor às pequenas coisas, a gratidão pela posse de todos os sentidos, e a consciência dos outros e de nós mesmos.

“para poder chegar aonde se quer, tudo depende de onde se esteja.”

13
Set22

“Persépolis” – Marjane Satrapi

Helena

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Através desta novela gráfica autobiográfica, acompanhamos o crescimento de Marjane, uma criança sonhadora cuja infância foi profundamente marcada pelo radicalismo e pela guerra.

Quando era pequena, Marji queria ser profeta e transformar todo o mal do mundo em prosperidade e amor. À medida que o tempo passa, contudo, a protagonista desta história apercebe-se de que os seus sonhos são uma utopia e de que não há revoluções nem golpes de estado que ponham fim à avidez humana de riqueza e de poder.

Pouco depois de a deposição do Xá permitir aos iranianos sonhar com a liberdade, a revolução islâmica volta a mergulhar o país no tradicionalismo e na repressão, agravados pelo início da guerra com o Iraque.  Desejosos de permitir à sua filha uma juventude longe da guerra, dos lenços na cabeça e do isolamento face à cultura ocidental, os pais de Marjane encaminham-na para uma escola francesa em Viena. Uma vez na Europa, e apesar dos conselhos da família que prometera não esquecer, Marji dá por si num torvelinho de escolhas, mudanças e emoções, que leva à diluição das suas convicções e à sensação de que o controlo da sua vida lhe escapava.

Como criança no Irão, estudante na Europa e mulher de volta à sua terra natal, Marjane leva-nos consigo numa longa e conturbada busca pela sua verdadeira identidade e pelos valores que acredita ser preciso defender.

“Nesse dia, aprendi uma coisa essencial: só conseguimos sentir pena de nós mesmos quando as nossas desgraças ainda são suportáveis. Quando se ultrapassa esse limite, a única maneira de suportar o insuportável é rirmo-nos dele.”

Marjane Satrapi construiu uma novela gráfica a preto e branco e conseguiu que fosse tanto ou mais expressiva do que uma história contada ao vivo e a cores. A expressividade de cada vinheta transmite, por si só, uma mensagem que, para além de a complementar, ultrapassa a mensagem transmitida pelas falas das personagens.

Através deste livro, o leitor tem a oportunidade de se informar acerca da história do Irão, de uma forma simples, didática e cativante. Optando por retratar a sociedade iraniana do ponto de vista de uma criança, Satrapi reduziu ao essencial a complexidade do passado de um povo e dos valores sobre os quais a sua cultura foi erigida.

Acompanhando as reviravoltas da vida de Marji, desde a sua infância até ao início da sua vida adulta, constatamos que, quer no Ocidente, quer no Oriente, a vida é fundamentalmente imprevisível, e que os erros são parte fundamental do crescimento.

Assim, Persépolis é uma obra singular que retrata as consequências da guerra e da repressão no quotidiano do povo iraniano no passado recente e a importância dos valores individuais para a defesa de uma sociedade mais livre e mais justa.

08
Set22

“O Primo Bazilio” – Eça de Queiroz

Helena

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O segundo volume da série queirosiana que constitui um retrato crítico da sociedade portuguesa do século XIX foi publicado pela primeira vez em Portugal em 1887, tendo sido reeditado no mesmo ano por se terem vendido todos os exemplares.

O Primo Bazilio insere-nos no seio da vida doméstica da burguesia lisboeta novecentista. Luiza, dona de casa e mulher de Jorge, vê-se sozinha na capital devido a uma viagem de negócios do seu marido ao Alentejo. A solidão de Luiza não tarda a ser preenchida pelas visitas do seu primo Bazilio, chegado do Brasil, onde fizera fortuna. Apesar da sua consciência de esposa responsável, Luiza não consegue resistir aos encantos do primo que já quando eram mais jovens a tinha conquistado, antes de partir para o Novo Mundo.

O movimento na casa de Luiza não passa despercebido à curiosidade da vizinhança, ávida de novos escândalos e boatos. Entretanto, Jorge, longe de casa, não sabe de nada do que se passa entre a sua esposa e o querido primo, e Luiza descobre os prazeres libidinosos do adultério. Atraída para um estratagema amoroso do qual não tem forças para sair, Luiza entrega-se a uma relação sigilosa que se poderia ter prolongado por muito tempo, não fosse uma carta comprometedora ter aterrado no cesto dos papéis que a criada tinha a função de despejar…

"Assim um iate que aparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar, ao partir, nos lodaçais do rio baixo; e o mestre aventureiro que sonhava com os incensos e os almíscares das florestas aromáticas, imóvel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz ao cheiro dos esgotos."

Eça volta a presentear-nos com a sua ironia numa representação satírica da sociedade da época constitucionalista. A crítica queirosiana atinge não só o atraso lisboeta em relação ao mundo moderno e o caráter fraco da sua população, mas também os novos-ricos levianos e interesseiros, a quem o poder e riqueza que detêm dão a sensação de poderem beneficiar da simplicidade daqueles que os rodeiam.

Esta narrativa está povoada de personagens que, interferindo ou não na ação principal, têm um papel essencial na construção do cenário social do enredo. Os vizinhos coscuvilheiros, o conselheiro ambicioso ou o médico quase rendido à corrupção do sistema não influenciam nem alteram a trajetória da narrativa, mas conferem verosimilhança ao ambiente em que se desenrola esta história de adultério.

O Primo Bazilio é mais um monumento do realismo português, sendo que, desta vez, Eça elevou a objetividade do relato a um ponto que roça o erotismo. Esta é uma narrativa de luxúria, desejo, impulsividade e consequente arrependimento, enriquecida por personagens que podiam perfeitamente ser de carne e osso, tal é a forma como o leitor acaba por se relacionar com elas e por nutrir por elas sentimentos indizivelmente intensos. Assim, trata-se de uma obra que recomendaria tanto como porta de entrada para a literatura queirosiana, como para dar sequência ao maravilhamento de um leitor que se tenha apaixonado pela obra-prima que é Os Maias.

"É que o amor é essencialmente perecível, e na hora em que nasce começa a morrer."

12
Ago22

“A mãe de Frankenstein” – Almudena Grandes

Helena

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Em 1954, Germán Velásquez Martín regressa a Madrid depois do exílio na Suíça a que a vitória de Franco o obrigara. Psiquiatra de renome nas clínicas suíças, Germán troca a estabilidade de um país neutro pela rudeza da sua terra natal, para onde pretendia levar a descoberta que o celebrizara no estrangeiro: a cloropromazina, uma substância que se provara eficaz na cura de sintomas graves de esquizofrenia. O que Gérman não sabe é que, em Ciempozuelos, no manicómio feminino onde aceitara trabalhar, encontrará uma mulher que não esquecera desde a sua infância: Aurora Rodriguez Carballeira, a célebre eugenista que assassinara a própria filha por se considerar no direito de destruir a obra imperfeita que ela própria criara.

A descoberta inesperada da mulher cuja perturbação psíquica o fascinara tanto que o levara a escolher uma carreira na psiquiatria não só lhe permite recuperar e revitalizar o processo clínico de Aurora, que tinha caído no esquecimento dos médicos, mas também o leva a conhecer pessoas que influenciarão profundamente o seu regresso a Madrid. É o caso de Maria Castéjon, a filha do antigo jardineiro do manicómio que aproveitava o seu pouco tempo livre para ler em voz alta para Aurora, torna-se a sua melhor amiga.

Assim, cada uma à sua maneira, todas as personagens vão revelando a Germán aquilo que, até aqui, ele se recusava a entender: a Espanha não é a Suíça, e a arbitrariedade autoritária do estado nacional-católico destrói tudo aquilo em que toca.

“Las ilusiones son más venenosas que los pesticidas, pero cuando se comparten, mejoran mucho.”

Este foi o último livro publicado por Almudena Grandes antes da sua morte, em 2021. O quinto volume da série Episódios de uma Guerra Interminável volta a levar-nos aos tempos atribulados do pós-guerra civil espanhola e aos meandros da vida quotidiana daqueles a quem o franquismo virou o mundo do avesso. Desta vez, Almudena escolhe para palco da narrativa o manicómio feminino de Ciempozuelos, nos arredores de Madrid. Apesar de ser um edifício isolado, povoado por pessoas repudiadas e esquecidas pelo resto do mundo, o manicómio apresenta-se como uma miniatura da sociedade espanhola sob o controlo de Franco. Para além de ter por base uma hierarquia rígida que determinava os aposentos, o tratamento e as refeições das pacientes, o manicómio também estava sujeito aos caprichos e jogos de poder dos responsáveis do Estado.

Noutra face deste retrato da opressão encontramos as personagens femininas, todas elas figuras fortes a quem o estado nacional-católico impingira uma vida que não deixava espaço para o livre-arbítrio.

A genialidade deste livro está na forma como Almudena tece um enredo que se desdobra em muitos enredos paralelos. Esta não é apenas a história da mulher louca que matou a filha por achar que não era perfeita o suficiente para salvar a Humanidade, e que depois tentou dar vida a bonecos de pano a fim de poder cumprir a mesma função – qual doutor Frankenstein com a sua criação. Esta também é a história de uma menina a quem os avós nunca contaram que os pais faleceram porque o amor que os unia nada interessava aos assassinos em massa comandados por Franco. A história de uma família alemã judia que se viu obrigada a fugir para a Suíça para evitar o destino que condenou tantos como eles. A história de um psiquiatra que nunca teve jeito para mulheres e que descobre no meio da escuridão da ditadura uma luz de sinceridade e compaixão. As linhas entrelaçadas de uma teia de histórias narradas a três vozes dão forma a uma imagem única e inolvidável das vidas perdidas e renovadas da década de 1950.

O único defeito deste livro é não se prolongar infinitamente para que não tenhamos de nos despedir das personagens cujas vidas partilhamos durante esta viagem ao século passado.

“todos vivimos en un cementerio, pero algunos estamos vivos todavía.”

“un fracaso compartido une más que una victoria común.”

27
Jul22

“The Body” – Stephen King

Helena

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No verão de 1959, Gordon Lachance e o seu grupo de amigos decidem partir numa expedição à procura do corpo de um rapaz que tinha desaparecido alguns dias antes. Vern, um dos amigos de Gordon, tinha ouvido uma conversa do seu irmão em que ele se mostrara aflito por ter encontrado o cadáver da criança desaparecida perto dos carris na floresta de Castle Rock. Como a descoberta se deu enquanto conduzia um carro roubado, o irmão de Vern não pudera reportar o caso às autoridades. Assim, imaginando antecipadamente a fama e a glória que ganhariam por descobrirem e entregarem o corpo do desaparecido, Gordon, Vern, Chris e Teddy partem de mochila às costas, com um cantil e algumas moedas, para uma aventura mais perigosa do que esperavam, que trará ao de cima o verdadeiro caráter de cada um.

“Friends come in and out of your life like busboys in a restaurant, did you ever notice that?”

Este livro, publicado em 1982 como parte da saga Quatro Estações, é surpreendentemente diferente do género que celebrizou Stephen King. Em The Body, somos confrontados com a jornada inocente de um grupo de amigos que se transforma num momento de passagem entre a inconsciência da infância e o início da maturidade. Assim, as personagens desta “coming-of-age story” deparam-se pela primeira vez com a realidade da morte, com os desafios da sobrevivência e com escolhas que têm de fazer independentemente das dos seus amigos.

Para além de ser uma narrativa curta sobre o crescimento e o processo de autodescoberta de crianças com passados conturbados, The Body abarca ainda a visão do mundo na perspetiva de um jovem escritor. Gordon, o narrador que constrói esta espécie de “memoir”, reflete não só acerca das duas faces do fluxo permanente da imaginação de um escritor, mas também sobre as expectativas a que é submetido por parte do público e dos editores.

Esta história conta com a adaptação cinematográfica de 1986 Stand by me, um filme fiel ao original que marcou a identidade de uma geração.

“because the rite of passage is a magic corridor and so we always provide an aisle – it’s what you walk down when you get married, what they carry you down when you get buried.”

25
Jul22

“os meus sentimentos” – Dulce Maria Cardoso

Helena

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Violeta (“um nome de flor que também é uma cor”) avança pela estrada numa noite particularmente especial: depois de ter vendido a casa em que vivera durante toda a sua infância, deparava-se com a oportunidade de mudar a sua vida para sempre. Contudo, na escuridão de uma noite de chuva, Violeta sofre um acidente e dá consigo de cabeça para baixo, de olhos vidrados numa gota de água que se recusa a escorrer pelo vidro.

Presa num carro entre a vida e a morte, permite-se voltar atrás no tempo, revisitando momentos do passado mais próximo e mais distante que, de uma forma ou de outra, moldaram a sua identidade. Filha de apoiantes de Salazar condenados ao desprezo depois da revolução, dotada de uma personalidade invulgarmente ordinária que chocava todos os que a rodeavam, mãe solteira da Dora, que a despreza e se recusa a aceitar que é impossível para um filho odiar verdadeiramente os seus progenitores. Numa torrente contínua de pensamentos, Violeta dá voz a uma mulher incompreendida, menosprezada e posta de parte que não conseguiu escapar às repercussões de um crescimento no seio de uma família em frágil equilíbrio afetivo e social.

“o passado não tem sítio, a única vantagem do passado é não existir em lado algum”

Este não é um livro recomendável para os leitores que procuram personagens com que podem estabelecer uma relação de empatia. As personagens de “os meus sentimentos” estão repletas de falhas, assim como as relações que estabelecem entre si. Os protagonistas desta história sofrem não só com problemas da esfera pessoal, como a sua realização profissional e as suas relações familiares, como com problemas da esfera social, fruto da forma como são vistas e tratadas por uma sociedade com modelos físicos e éticos rigidamente definidos. A narradora acaba por demonstrar que, de facto, “as pessoas têm existências intermitentes”, sendo que a mesma pessoa é definida de formas completamente diferentes consoante o ponto de vista de alguém com quem partilhou um fragmento de existência.

Dulce Maria Cardoso volta a construir um romance em torno das vítimas da revolução do 25 de abril, desta vez a partir do ponto de vista dos derrotados. A mãe de Violeta, conservadora e inabalável defensora do “chic”, recusa-se a aceitar a vitória dos revolucionários, afirmando que, mais tarde ou mais cedo, voltaria “chacun à sa place”. No entanto, as mudanças na sociedade desenrolam-se rapidamente, e os insultos e conspirações contra os apoiantes de Salazar não podem ser ignorados para sempre. Afinal, “as revoluções nada mais fazem do que substituir as vítimas”.

Apesar da originalidade do conceito de se construir um livro completamente desprovido de pontos finais, cheguei a sentir-me algo aborrecida pelo seu caráter repetitivo. Ainda assim, esta opção da autora concretiza a ideia de que todo o livro nada mais é do que uma torrente contínua dos pensamentos da narradora, pelo que as interligações quase aleatórias e as repetições na história são intencionais e parte da especificidade da narrativa.

Em resumo, este é um livro diferente de todos os que já li, tanto pela forma como foi escrito como pela densidade da frustração das suas personagens, presas em círculos concêntricos de relações tóxicas e sonhos falhados que se repetem, de formas diferentes, de geração em geração.

“a minha vida um sobressalto no sono continuado do universo”

05
Jul22

“Never let me go” – Kazuo Ishiguro

Helena

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Esta história é-nos narrada por Kathy H., de 31 anos, que, face à aproximação do fim da sua carreira de cuidadora, regressa mentalmente ao sítio onde tudo começou: Hailsham. Esta é uma escola especial inglesa onde as crianças crescem longe do resto do mundo, à medida que são impelidas a desenvolver as suas capacidades físicas e artísticas. O que os petizes não sabem é que não vão crescer para se tornarem pessoas como as outras. À medida que fazem o seu percurso, vão descobrindo a dura realidade do seu futuro há muito definido: uma vez prontos, serão notificados para iniciarem a sua jornada enquanto doadores de órgãos.

É na sombra desde destino incontornável que acompanhamos o crescimento de Kathy e dos seus melhores amigos: Ruth, uma rapariga perspicaz e versátil, e Tommy, algo desastrado e com pouca aptidão para a arte. Presos numa instituição que os instrui através de meias-palavras, os amigos vão descobrindo a complexidade das relações humanas e o poder da esperança num mundo que se nega a oferecer-lhes alternativas.

“Because somewhere underneath, a part of us stayed like that: fearful of the world around us, and – no matter how much we despised ourselves for it – unable quite to let each other go.”

Kazuo Ishiguro, vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2017, constrói uma história que gira em volta de amizades que parecem desafiar o destino. Afinal, na mais desesperante das situações, são as memórias dos que nos são queridos que nos ajudam a suportar as dificuldades da vida.

Este romance é um típico character-driven book: um livro cuja ação gravita em torno das personagens, dos seus pensamentos e das relações que estabelecem entre si. Apesar de, geralmente, preferir livros cujo foco é um enredo dinâmico e imprevisível, Never let me go surpreendeu-me pela positiva. Mesmo não sendo uma leitura galopante, a ação não estagna enquanto Kathy H. regressa ao passado e o observa a partir de uma nova perspetiva. Do mesmo modo, agradou-me o facto de ser uma obra muito diferente de Despojos do Dia, do mesmo autor.

De uma maneira mais ou menos subtil, este romance encerra uma mensagem acerca da importância da arte e da cultura para o crescimento e a revelação de um indivíduo. A arte é considerada um meio para alcançar a alma das crianças, para ter um vislumbre dos seus interesses, dos seus pensamentos e, sobretudo, dos seus sentimentos.

Para além disso, este romance destaca o conflito interno de todas as crianças que, deparando-se com as mudanças constantes do mundo em que crescem, se veem na necessidade de tomar decisões me relação ao seu próprio caráter. Será melhor manterem-se fiel a si mesmas ou será preciso mudar quem são para serem aceites?

Em suma, Never let me go é um drama existencial sobre vidas amputadas, sobre o valor da amizade através do tempo e sobre a injustiça de ter de se saber lidar com um futuro delineado muito antes de se vir ao mundo.

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