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H-orizontes

H-orizontes

01
Out23

“Waiting For Godot” – Samuel Beckett

Helena

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Waiting for Godot, do Nobel da Literatura Samuel Beckett, é uma peça de teatro que põe no centro do palco Gogo e Didi, dois amigos que estão presos a um compromisso de contornos bastante vagos: um encontro com Godot, uma entidade desconhecida que lhes trará algo que também desconhecem. As únicas personagens que interrompem a monotonia da sua espera, ainda que temporariamente, são Pozzo e Lucky, uma estranha dupla de senhor e servo.

Mesmo quando lhes surge no espírito a ideia de abandonar a paisagem inóspita onde se encontram, Gogo e Didi não se movem. Não podem ir embora, Godot ainda não chegou. Enquanto esperam, o par de amigos tenta preencher o vácuo com hipóteses e reflexões sobre a vida nas circunstâncias hipotéticas de fim da humanidade em que se encontram.

“We always find something, eh Didi, to give us the impression we exist?”

Waiting for Godot é uma peça que se inclui no conceito de Teatro do Absurdo, produções teatrais que partem de ideias existencialistas para expressar a falta de propósito da vida humana.  Assim sendo, não é um texto cujo significado é entregue linear e diretamente ao leitor. Por detrás dos diálogos absurdos entre as personagens, vive o reconhecimento da inutilidade de tentar dar sentido à vida, a valorização da amizade e a prova da incapacidade da linguagem para expressar toda a complexidade da experiência humana. Não é uma peça muito entusiasmante, já que quase nada acontece, mas isso faz parte do seu objetivo: colocar sob os holofotes o que resta dos Homens quando a única coisa que têm é a esperança de encontrar o representante de uma metafísica que os mantém à tona.

Mais do que um par de amigos agarrados à esperança da vinda de um tal Godot, esta é uma peça sobre a esperança da humanidade nalguma espécie de libertação, uma salvação, um resgate milagroso da estagnação agonizante da vida. É uma peça sobre aquilo que nos move, e também sobre o que nos faz ficar.

20
Ago23

“Recitatif” – Toni Morrison

Helena

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O único conto publicado pela Nobel da Literatura  de 1993 retrata o crescimento de duas meninas que se conheceram no orfanato de St. Bonny’s, depois de ambas terem sido retiradas às suas mães. Desde o início que sabemos que as meninas são diferentes, por uma ser branca e uma ser negra numa América onde isso implica uma série de considerações a nível identitário. No entanto, Morrison omite a informação sobre a cor de pele de cada uma das meninas. Em consequência, Recitatif é um puzzle, um labirinto de pistas contraditórias que faz do leitor o próprio alvo da experiência desta peça de literatura experimental.

À medida que crescem, Twyla e Roberta encontram-se esporadicamente em episódios que nos permitem tirar algumas ilações sobre a dinâmica de relacionamento entre pessoas de raças diferentes, nos Estados Unidos, por volta dos anos 50 do século passado: um encontro num hostel onde Twyla trabalha, no meio de um protesto contra a dessegregação nas escolas e num supermercado para as pessoas de classe alta.

No final de contas, Twyla e Roberta definem-se por aquilo que é comum ao ser humano: a busca pelo sentido de identidade, a permanência da memória e o desejo de libertação em relação a um passado traumatizante. Afinal, quem espancou a Maggie?

“Easy, I thought. Everything is so easy for them. They think they own the world.”

A forma como Toni Morrison consegue atingir tanto numa narrativa tão curta é genial. Ao remover da caracterização das personagens algo que, à época, seria extremamente importante para a sua definição enquanto indivíduos, Morrison deixa um espaço aberto que completa com apontamentos e situações que põem o leitor na berma da ambiguidade. Por essa razão, esta é uma experiência de leitura que leva o leitor a aprender mais sobre si próprio do que sobre as personagens cuja história de vida vai desvendando. Consoante a visão estereotipada do leitor da dualidade brancos/negros, a narrativa assume contornos consideravelmente diferentes. Assim, esta é uma história importantíssima para tomarmos consciência dos nossos próprios preconceitos raciais.

Para alcançar este efeito de ambiguidade, Morrison teve de adotar um registo de linguagem que não deixasse transparecer a herança linguística e cultural de nenhuma das personagens. Com efeito, o equilíbrio entre um registo de indivíduo americano branco e um de raízes afro-americanas é essencial para o funcionamento desta narrativa, e é alcançado na perfeição.

Esta edição de Recitatif (Knopf, 2022) é acompanhada por uma introdução de Zadie Smith que, tendo optado por lê-la depois de ler o texto principal, me apresentou o conto sob uma série de novas luzes. Aconselho vivamente os leitores a que se dediquem a leituras complementares a esta, nomeadamente artigos de análise da obra, já que põem em destaque aspetos que podem passar despercebidos e aprofundam o sentido de genialidade da bibliografia de Morrison.

Em suma, apesar de ainda não existir uma tradução portuguesa deste conto, penso que esta é uma leitura obrigatória para uma melhor compreensão do mundo que nos rodeia, do passado de que resultamos e daquilo que, inconscientemente, somos.

27
Jun23

“Levantado do Chão” – José Saramago

Helena

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Com uma ação situada no seio do Alentejo, durante a ditadura salazarista, Levantado do Chão acompanha a jornada de quatro gerações de trabalhadores rurais e as suas lutas sucessivas pela conquista de direitos laborais.

Ao longo de 290 páginas, a família Mau-Tempo debate-se com os ciclos de miséria e exploração que parecem inexpugnáveis nos latifúndios alentejanos que assentam, tal como a ditadura em vigor, numa hierarquia rígida e impermeável a considerações de misericórdia em relação aos subordinados. Assim, os Mau-Tempo e os que os rodeiam lutam cada dia pela sobrevivência a mais um ano de escassez e de jornadas de trabalho desumanas. Abafadas as revoltas pela PIDE, pela guarda, pela influência da religião, resultando delas mortos, presos, feridos, o povo não desiste da esperança na madrugada que há de vir e dar a conhecer aos trabalhadores o significado da palavra liberdade.

“e todo o mais deste destino está explicado nas linhas de ir e voltar”

Este é um daqueles livros que terei de reler mais tarde, numa altura, quem sabe, mais propícia à apreciação de todas as suas potencialidades. Esta experiência de primeira leitura não foi muito boa, por uma série de razões.

Em primeiro lugar, fui interrompendo esta leitura com outros livros que precisava de ler para outros trabalhos, e isso afetou bastante a fluidez da narrativa. Como se trata de um romance sobre gerações, é fácil que o leitor se perca entre os nomes e as relações entre as personagens, principalmente se não fizer uma leitura consistente e atenta (como foi o meu caso).

Em segundo lugar, a história não me cativou muito, exceto pelo facto de remontar a um contexto espácio-temporal que me interessa particularmente. Os ciclos repetitivos, apesar de intencionais, pareceram-me demasiado repetitivos, ao ponto de tornar a narrativa aborrecida e previsível.

Para além disso, nenhuma personagem me marcou muito por ser muito diferente das outras. É de realçar o episódio da tortura de António Mau-Tempo enquanto testemunho dos mecanismos de repressão do regime salazarista, mas, ainda assim, o seu propósito de vida era o mesmo que o de todas as outras personagens, e a sua trajetória na narrativa bastante linear.

No entanto, reconheço que esta é uma obra fundamental para o aprofundamento da compreensão da vivência dos trabalhadores agrícolas do período salazarista, e para que se recordem as múltiplas e terríveis armadilhas do fascismo. É, ainda, o romance inaugural do estilo saramaguiano, pautado pela fluidez do discurso intercalado com reparos mais ou menos subjetivos por parte do narrador.

Em suma, este não é um romance célebre pelas suas personagens extraordinárias e reviravoltas na ação, mas pela maneira como captura, como que pelos olhos de muitas pequenas formigas, a forma como a soma do sofrimento das gerações que tentaram “levantar-se do chão” possibilitou que, eventualmente, uma delas pudesse usufruir do poder de trabalhar digna e livremente.

05
Out22

"Ensaio sobre a Cegueira" - José Saramago

Helena

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Quando uma epidemia de “cegueira branca” começa a espalhar-se pela população de uma cidade fictícia, as autoridades apressam-se a tomar medidas para evitar o contágio generalizado. Os cegos e aqueles que com eles contactaram começam a ser enviados para um manicómio abandonado, situado na periferia, onde terão de viver de acordo com uma série de regras básicas: não podem sair, nem para enterrar os mortos, a comida será entregue à porta, ninguém intervirá em caso de acidente ou desastre… a partir deste momento, estão fora do mundo e fora do tempo.

Isolados neste edifício e presos na luz branca que lhes tomou os olhos, homens e mulheres iniciam uma descida em espiral na escala da dignidade humana, a uma velocidade alucinante que se agrava com a chegada de mais e mais cegos. Com a insuficiência da comida racionada, a falta de higiene e a discrepância entre a atitude dos cegos mais velhos e mais recentes, o egoísmo e a cobiça encontram facilmente o caminho para o controlo do comportamento humano – se é que se pode chamar humano àquele resquício de ser sem passado nem futuro que se arrasta pelos corredores fétidos de um manicómio controlado pela força por dentro e por fora.

Até que ponto podem chegar a brutalidade dos homens face aos mais debilitados e os comportamentos desesperados daqueles que tentam sobreviver?

O Ensaio sobre a Cegueira é uma das obras mais célebres de José Saramago, autor galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998.

Este não é um livro para leitores cuja sensibilidade os impede de suportarem cenas violentas e grotescas. Ao reduzir o homem ao seu reduto mais animalesco, O Ensaio sobre a Cegueira está repleto de passagens fortes, essenciais para a tradução fiel e intensa da crueldade, do egoísmo e da insensibilidade do homem fechado no seu desespero.

Para além de achar particularmente relevante o facto de nenhuma das personagens possuir um nome próprio, tendo o autor optado por designações como “o primeiro cego” ou “o médico”, pelo caráter universal que conferem à história, é impossível não mencionar a singularidade da mulher que, no auge da epidemia de cegueira branca, vê.  Semelhante a Blimunda pela forma como os seus olhos lhe conferem uma posição privilegiada nesta narrativa, a mulher do médico soma-se ao repertório de personagens femininas fortes da obra de Saramago. É a mulher do médico que, através daquilo que vê, orienta o leitor e os cegos pelas ruínas da humanidade em seu redor.  Ao ser capaz de ver num mundo de caos engolido pela cegueira, sofre duplamente os seus efeitos.

“Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem” este excerto de diálogo, juntamente com a epígrafe que precede a narrativa – “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” (Livro dos conselhos) – traduzem a mensagem fundamental desta distopia perturbadora: a humanidade peca por não saber observar verdadeiramente aquilo que a rodeia. Depois desta submersão num universo em que, uma vez perdendo a visão, o Homem perde tudo o que lhe permite ser designado como tal, percebemos que é essencial que se desenvolva a capacidade de atribuir valor às pequenas coisas, a gratidão pela posse de todos os sentidos, e a consciência dos outros e de nós mesmos.

“para poder chegar aonde se quer, tudo depende de onde se esteja.”

05
Jul22

“Never Let Me Go” – Kazuo Ishiguro

Helena

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Esta história é-nos narrada por Kathy H., de 31 anos, que, face à aproximação do fim da sua carreira de cuidadora, regressa mentalmente ao sítio onde tudo começou: Hailsham. Esta é uma escola especial inglesa onde as crianças crescem longe do resto do mundo, à medida que são impelidas a desenvolver as suas capacidades físicas e artísticas. O que os petizes não sabem é que não vão crescer para se tornarem pessoas como as outras. À medida que fazem o seu percurso, vão descobrindo a dura realidade do seu futuro há muito definido: uma vez prontos, serão notificados para iniciarem a sua jornada enquanto doadores de órgãos.

É na sombra desde destino incontornável que acompanhamos o crescimento de Kathy e dos seus melhores amigos: Ruth, uma rapariga perspicaz e versátil, e Tommy, algo desastrado e com pouca aptidão para a arte. Presos numa instituição que os instrui através de meias-palavras, os amigos vão descobrindo a complexidade das relações humanas e o poder da esperança num mundo que se nega a oferecer-lhes alternativas.

“Because somewhere underneath, a part of us stayed like that: fearful of the world around us, and – no matter how much we despised ourselves for it – unable quite to let each other go.”

Kazuo Ishiguro, vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2017, constrói uma história que gira em volta de amizades que parecem desafiar o destino. Afinal, na mais desesperante das situações, são as memórias dos que nos são queridos que nos ajudam a suportar as dificuldades da vida.

Este romance é um típico character-driven book: um livro cuja ação gravita em torno das personagens, dos seus pensamentos e das relações que estabelecem entre si. Apesar de, geralmente, preferir livros cujo foco é um enredo dinâmico e imprevisível, Never Let Me Go surpreendeu-me pela positiva. Mesmo não sendo uma leitura galopante, a ação não estagna enquanto Kathy H. regressa ao passado e o observa a partir de uma nova perspetiva. Do mesmo modo, agradou-me o facto de ser uma obra muito diferente de Despojos do Dia, do mesmo autor.

De uma maneira mais ou menos subtil, este romance encerra uma mensagem acerca da importância da arte e da cultura para o crescimento e a revelação de um indivíduo. A arte é considerada um meio para alcançar a alma das crianças, para ter um vislumbre dos seus interesses, dos seus pensamentos e, sobretudo, dos seus sentimentos.

Para além disso, este romance destaca o conflito interno de todas as crianças que, deparando-se com as mudanças constantes do mundo em que crescem, se veem na necessidade de tomar decisões me relação ao seu próprio caráter. Será melhor manterem-se fiel a si mesmas ou será preciso mudar quem são para serem aceites?

Em suma, Never Let Me Go é um drama existencial sobre vidas amputadas, sobre o valor da amizade através do tempo e sobre a injustiça de ter de se saber lidar com um futuro delineado muito antes de se vir ao mundo.

04
Mai22

“O Deus das Moscas” – William Golding

Helena

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Um grupo de meninos que sobreviveram à queda de um avião veem-se reunidos numa ilha deserta, sem quaisquer adultos que os supervisionem ou orientem. À partida, este seria o sonho de qualquer criança: um período indefinido de liberdade ilimitada. Com efeito, as crianças começam de imediato a construir a sua própria sociedade: elegem um líder, definem o método para a convocação de assembleias e atribuem funções. No entanto, a ilusão de um mundo ideal rapidamente se desmorona.

À medida que a ação se desenrola e as prioridades das crianças na ilha começam a divergir, o instinto selvagem de cada uma começa a vir ao de cima e a lei da sobrevivência a todo o custo acaba por se sobrepor a todas as outras. Afinal, as crianças podem ser cruéis e egoístas, e nada melhor para despertar a sua natureza mais profunda do que um terror irracional em relação a algo que desconhecem – e a possibilidade da presença de um monstro na ilha paira permanentemente sobre as mentes de todos os rapazes.

“Ralph chorou pelo fim da inocência, pelas trevas do coração do homem”

O Deus das Moscas é uma distopia escrita por William Golding em 1954. Esta história é considerada por muitos um testemunho chocante da crueldade humana, mas não consegui envolver-me o suficiente na narrativa para me sentir verdadeiramente horrificada por ela.

Este livro pode ser interpretado como uma alegoria que foi mudando de significado ao longo do tempo. Este grupo de crianças é um retrato cru do poder dos instintos primitivos do homem, e da influência que a ambição pode ter no caráter e nas ações do indivíduo. O conflito que divide os rapazes e os leva a perder por completo os seus escrúpulos pode remeter para a irracionalidade da guerra. Até as personagens podem ser vistas como representações de tipos sociais: Ralph desempenha o papel das expectativas sociais, Piggy é uma espécie de consciência e Jack personifica a natureza mais violenta e primitiva do Homem.

Apesar de considerar que esta história parte de um argumento com muito potencial e é suscetível de uma análise simbólica que lhe acrescenta profundidade, não consegui desfrutar da forma como foi concretizada. A ação perde-se entre descrições desnecessárias da ilha, diálogos vagos e debates repetitivos que aborrecem o leitor. A maior parte do livro prende-se com discussões acerca da necessidade de manter uma fogueira, da vontade de caçar, da ameaça do monstro e de quem tem o búzio cuja posse lhe dá permissão para falar. Se a narração estivesse focada noutros pontos da vida dos rapazes na ilha, seria certamente mais cativante.

No geral, fiquei com a sensação de que todo o livro é vago: as conversas, os acontecimentos, as reações aos acontecimentos, tudo é concretizado por meias palavras e frases incompletas que me impediram de perceber a ação que estava a decorrer. Para além disso, há demasiadas pontas soltas: como surgiu o cadáver que oscilava no cimo da montanha? O que aconteceu no episódio de alucinação de Simon? Para onde foi o menino da mancha na cara? Em vez disso, somos repetidamente informados acerca da extensão do areal da praia.

Em conclusão, penso que este é um livro que parte de um conceito promissor e que encerra uma alegoria de elevada importância, mas que peca pela concretização imperfeita.

“Parou de remexer no dente e ficou quieto, a assimilar as possibilidades da autoridade irresponsável.”

16
Mar22

“O meu nome é Vermelho” – Orhan Pamuk

Helena

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Do fundo de um poço, algures nos arredores da Istambul do século XVI, chega-nos a voz de um cadáver, cuja falta de um enterro digno impede o descanso da sua alma. Desesperado e dominado pela sede de vingança, o morto exalta a urgência da descoberta do seu assassino. A partir daí, abrem-se as portas para o mundo em que o mistério nos será dado a desvendar.

Corria o boato de que o Sultão teria feito uma encomenda a um velho pintor, e que este o teria convencido a incluir na obra encomendada algumas características que chocavam os pintores conservadores pelo seu caráter herético. Perspetiva, sombras, planos, retratos? Tudo isso era uma clara afronta ao poder absoluto de Deus, cuja visão do mundo, plana e sem distinção entre a relevância dos seres, era a única que devia ser representada. A nuvem da influência do renascimento ocidental parecia pairar sobre a turbulenta Istambul, criando uma cisão entre aqueles que defendiam a tradição com unhas e dentes e aqueles que reconheciam a necessidade de expandir a pintura a novas realidades. É no centro deste conflito que tem lugar o assassinato do Senhor Delicado, o cadáver que nos falou do fundo do poço, cujo assassino temia que o conservadorismo religioso traísse o segredo da encomenda do Sultão.

Alguns dias depois, o velho responsável pela organização da encomenda é assassinado pela mesma mão que matara o miniaturista Delicado. Assumindo a responsabilidade de dar continuidade àquele projeto e almejando mostrar-se merecedor da mão da sobrinha do ancião, o senhor Negro, regressado da guerra, lança-se em busca do assassino que não só põe em risco a segurança dos pintores, como também a conclusão do grande projeto.

Confesso que este livro foi uma grande desilusão para mim. Estava muito entusiasmada com a ideia de ler um livro sobre um mistério contado a partir dos pontos de vista de várias personagens, principalmente tendo em conta que Orhan Pamuk foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura de 2006, mas o interesse esvaiu-se depressa. Isto deveu-se principalmente à forma como o autor decidiu abordar o mistério principal. Tratando-se este de um assassinato motivado pelos conflitos ideológicos existentes entre grupos de pintores, Pamuk direciona o escopo da narrativa para reflexões acerca dessas divergências. Assim, o mistério central acaba por se perder entre as considerações artísticas das personagens.

Como consequência desse desvio do foco da narração, não me pareceu que houvesse nada de particularmente relevante para a construção de uma suspeita quanto ao assassino. Por isso, não senti que a revelação do responsável pelos crimes tivesse um impacto tão forte como seria de esperar, já que não se tinha criado uma relação especial com nenhuma das personagens, nem formado uma ideia acerca do possível responsável.

Aquilo que mais me fascinou nesta história foi o facto de retratar os cânones artísticos que vigoravam no Oriente enquanto o Renascimento florescia no território europeu. Como os programas dos ensinos básico e secundário se focam apenas no movimento cultural do Renascimento, nunca me tinha ocorrido que, nessa época, os princípios artísticos fora das fronteiras europeias fossem outros, e que a influência renascentista fosse vista como uma ameaça para a tradição da pintura oriental.

Assim, apesar de se tratar de um livro interessante do ponto de vista artístico e filosófico, “O meu nome é Vermelho” revelou-se um romance pouco aliciante, cujo ritmo lento e o teor reflexivo não se adequam à violência e ao mistério do assassinato por deslindar.

“É o amor que torna as pessoas idiotas, ou só os cretinos se apaixonam?”

“(...) se a imagem do ser amado continuar viva no nosso coração, o mundo inteiro é a nossa casa.”

18
Jul21

“O ano da morte de Ricardo Reis” – José Saramago

Helena

mês de dezembro do ano de 1935 está a chegar ao fim, quando o Highland Brigade chega ao porto de Lisboa. Entre os viajantes do navio encontra-se Ricardo Reis, heterónimo pessoano regressado do Brasil por ocasião da morte de Fernando Pessoa.

Na capital, Ricardo Reis instala-se no Hotel Bragança, onde conhece Lídia, a criada, em tudo oposta à musa do poeta, sua homónima. Junto de Lídia, Reis reencontra o fervor de uma relação de amor físico, ocasional e desigual – a simplicidade humilde da criada contrasta fortemente com o estatuto elevado e o discurso do heterónimo. A este amor carnal opõe-se o amor platónico que Ricardo Reis vai nutrir por Marcenda Sampaio, uma rapariga de Coimbra que visita Lisboa todos os meses em busca de cura para a sua mão paralisada.

Mais do que uma história que faz de uma personagem pré-existente o seu protagonista, reinventando-a, O ano da morte de Ricardo Reis é um romance de crítica aos mais variados aspetos do período em que a ação se desenrola. O avanço do fascismo na Europa, a iminência da guerra civil espanhola, a miséria do país no tempo da ditadura, a cegueira do fanatismo religioso e a hipocrisia e dissimulação do regime salazarista são pontos-chave das suas reflexões e dos comentários que pontuam as suas conversas com o fantasma de Fernando Pessoa.

“o homem, claro está, é o labirinto de si mesmo”

Este não foi o primeiro livro de Saramago que li – e ainda bem.

Em primeiro lugar, O ano da morte de Ricardo Reis é, em comparação com o Memorial do Convento, muito mais complexo, não em termos de linhas narrativas, mas em termos de conteúdo. Este livro apresenta, paralelamente a uma linha de ação simples, reflexões de um teor e profundidade que podem ser pouco acessíveis às pessoas que não possuem uma bagagem intelectual considerável. Esses momentos da narrativa correspondem, geralmente, aos encontros de Ricardo Reis com o fantasma de Fernando Pessoa, durante os quais eles se dedicam a discutir os assuntos da atualidade e a debater problemas existenciais. Embora a maior parte das reflexões seja muito interessante, desenrolam-se, por vezes, raciocínios difíceis de compreender, para além de serem pontuados pelos aforismos saramaguianos que me deixam sempre com a sensação de que não entendi o seu sentido por completo.

O ano da morte de Ricardo Reis exige, como seria de esperar, um conhecimento relativamente aprofundado acerca do heterónimo, da sua poesia e da sua filosofia de vida. Caso contrário, a verdadeira magia deste romance passar-nos-á ao lado. Certos comportamentos de Reis, a sua relação com Pessoa e os outros heterónimos e as suas reflexões são baseados nos princípios pelos quais Ricardo Reis se rege – a renúncia ao compromisso e à perturbação, a consciência aguda da mortalidade e a convicção de que “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”.

“Não digamos, Amanhã farei, porque o mais certo é estarmos cansados amanhã, digamos antes, Depois de amanhã, sempre teremos um dia de intervalo para mudar de opinião e projeto, porém ainda mais prudente seria dizer, Um dia decidirei quando será o dia de dizer depois de amanhã, e talvez nem seja preciso, se a morte definidora vier antes desobrigar-me do compromisso, que essa, sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos.”

Outro motivo que me leva a preferir o Memorial do Convento ao O ano da morte de Ricardo Reis é o período histórico em que a ação se desenrola. No Memorial, a ação remonta ao século XVIII, ao período de construção do convento de Mafra. Já O ano da morte de Ricardo Reis insere-se no período do regime salazarista e do avanço dos fascismos em território europeu. Apesar de considerar muito relevante esta altura da História e de ter desfrutado da forte crítica do autor à conjuntura portuguesa da época, principalmente através da ironia, este não me atrai tanto como os períodos históricos anteriores – no final de contas, nunca fui grande fã da História do pós-século XIX.

Apesar de tudo, a genialidade de Saramago volta a transparecer, inegável, através das páginas do romance. O seu estilo particular acrescenta riqueza a uma obra já de si engrandecida pela incrível capacidade criativa do autor Nobel da Literatura.

Em conclusão, penso que este é um livro de leitura obrigatória para os fãs de Saramago, constituindo em simultâneo um exemplar do seu poder inventivo e um compêndio da essência da portugalidade.

08
Abr21

"Os Despojos do Dia" - Kazuo Ishiguro

Helena

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Mr Stevens, o velho mordomo de Darlington Hall, um casarão perto de Oxford, parte numa viagem até ao West Country, a fim de se encontrar com Miss Kenton, a antiga governanta da casa. Ao longo do caminho, o pensamento de Stevens regressa ao passado, aos longos anos que dedicou ao serviço de Lord Darlington e a recordações que ele e Miss Kenton têm em comum. É através destas reflexões que nos são dados a conhecer a lealdade desmedida e o caráter perfecionista do mordomo, obcecado com o conceito de “dignidade”, essencial para se ser um bom profissional no seu ramo.

Firme na sua dedicação ao seu senhor, Stevens parece não se aperceber do como os encontros que Darlington organizava na mansão afetariam o futuro do país – também nós, leitores, só no final do romance descobrimos o seu teor…

Mais um mês, mais um Nobel! Lancei-me ao Os Despojos do Dia sem saber o que esperar. Por isso, não é de estranhar que tenha ficado surpreendida com a história com que me deparei – e com o registo em que está escrita.

Stevens, enquanto narrador na primeira pessoa, mantém um discurso reverente, não apenas com as outras personagens, nos momentos de diálogo, como com o leitor, ao longo da narração. A construção frásica impecável e a formalidade do seu discurso encaixam perfeitamente na personagem que ele é, e tornam o livro mais interessante, do ponto de vista social, mas mais aborrecido, no ponto de vista do entretenimento.

A realidade que este romance retrata é-me muito distante, e nunca tinha lido nenhum livro que partisse desta perspetiva para a construção do enredo. Penso que foi essa distância que me separa das personagens, tanto por razões sociais e espácio-temporais como pela relação formal que Stevens parece estabelecer com o leitor, que levou a que não me tenha sentido muito atraída pelo livro.

Contudo, apesar de longas, reconheço que as reflexões de Stevens são de grande interesse em termos de espelho do seu íntimo e de retrato fidedigno de uma fatia da sociedade britânica do século passado. Aliás, todo o livro é uma crónica de costumes notável, com uma representação realista das classes sociais da época através dos pensamentos, das atitudes e das formas de expressão dos intervenientes da ação.

Aquilo que mais admiro neste livro é a inteligência da sua construção. Ishiguro conjuga o desenrolar da viagem e os avanços e recuos das recordações de Stevens de maneira a desvendar a essência da história muito subtil e gradualmente. Assim, apenas no fim do romance nos apercebemos da função desempenhada por Lord Darlington na política externa inglesa e da profundidade dos laços que unem Miss Kenton e o mordomo, apesar de todas as desavenças anteriormente relatadas.

Apesar de a frieza de Stevens ser quase exasperante, o livro chega ao fim com um toque de ironia e uma última reflexão que vale a pena recordar: “Talvez seja, de facto, altura de começar a encarar toda esta questão do gracejo mais entusiasticamente. No fim de contas, se pensarmos bem, comprazermo-nos dela não é uma coisa tão idiota como pode parecer – sobretudo se no gracejar reside a chave para alcançar o calor humano.”

17
Fev21

"O Estrangeiro" - Albert Camus

Helena

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“Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: «Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.» Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.”

É nestas circunstâncias que encontramos o Sr. Meursault, um homem de trinta anos particularmente avesso à propensão moralista e sentimental da sociedade. Depois de se ter servido de uma chávena de café com leite e fumado no velório da sua mãe e de não ter derramado uma única lágrima no seu funeral, Meursault retoma a sua vida perfeitamente banal. Entre o seu trabalho, o restaurante de Céleste, a praia onde se encontra com Marie e o andar do seu prédio, que partilha com um homem de ocupação duvidosa e um velho a quem só resta a companhia do cão, acompanhamos a personagem principal no seu quotidiano. Como um Estrangeiro entre os seus e no mundo, Meursault parece contemplar as futilidades humanas e os pequenos contratempos da vida à distância.

É numa ida à praia num tórrido domingo que, contra todas as expectativas, o pacato argelino comete um crime que mudará por completo o rumo do romance…

O Estrangeiro parece dividir opiniões: por um lado, há quem o considere um clássico imperdível da literatura, enquanto outros não conseguem compreender o porquê de este ser um romance tão aclamado pela crítica. A minha opinião encontra-se algures entre os extremos.

Esta história, cuja narração me fez lembrar um conto ou um texto diarístico, deve ser encarada como uma reflexão acerca da existência humana. Através da indiferença extremada e quase absurda do Sr. Meursault, captamos uma perspetiva diferente da vida, alheia a sobressaltos, à importância das decisões, a questões filosóficas e a figuras transcendentes. Meursault limita-se a viver consoante o que lhe calha na sina, sem se entregar à extravagância das emoções ou à indignação contra o destino. Em vez disso, permanece apático e ultrapassa as reviravoltas da vida através do hábito.

Se há uma sensação que predomina, implacável, nesta obra, essa sensação é o calor. Um calor asfixiante, insuportável, captada pelo autor com tanta autenticidade e intensidade que o leitor se sente tentado a tirar o casaco. Essa impressão prolonga-se pela capa do livro, de um cor de laranja forte que me faz pensar nele como um deserto tórrido comprimido em menos de uma centena de folhas de papel.

Camus transporta para as suas páginas a crueza e a frontalidade da vida real, sem rodeios nem artifícios. As frases curtas, elementares e, por vezes, irónicas, começaram por fascinar-me, pois não tinha memória de alguma vez ter lido um livro tão simples e imponente ao mesmo tempo. Apesar de não ter deixado de o considerar agradavelmente peculiar (ao ponto de, por vezes, me arrancar uma gargalhada), comecei, aos poucos, a aperceber-me de que este estilo era automaticamente assumido pelo meu cérebro como algo banal. Por este motivo, tinha alguma dificuldade em lembrar-me daquilo que tinha lido no dia anterior, ou, até, duas páginas atrás. De entre o relato, na primeira pessoa, de uma relação pacata e resignada com a vida, os momentos mais marcantes foram aqueles que se referem a abalos de maior ou menor profundidade na vida de Meursault ou a personagens dominadas pelas suas emoções – o que penso que será o oposto daquilo que é pretendido por este romance.

Em conclusão, este livro surpreendeu-me, tanto pela positiva como pela negativa. Contudo, a impressão que prevalece é a do contacto com um ser humano que transmite uma lição por entre a sua indiferença crónica: a vida não é assim tão dramática e as nossas escolhas não são, afinal, assim tão importantes – o tempo não para e todos temos um fim, pelo que mais vale gozarmos aquilo que temos, sem pensar muito nem sentir demasiado.

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