"Can Socialists Be Happy?" – George Orwell
Este é o ensaio cujo título provocador dá nome à mais recente coletânea de textos de George Orwell editada pela Penguin Books. Nele, discute-se o problema do estabelecimento de regimes políticos cujas linhas de ação coincidem com aquilo que, antes, era apenas arquitetado pelos sonhadores, para a manutenção do conceito de utopia. O socialismo, quando eficazmente aplicado, coloca uma questão de peso ao imaginário utópico: como impedir que o patamar de progresso finalmente alcançado não redunde no seu oposto – como impedir que o aperfeiçoamento social se traduza numa obra de Aldous Huxley?
Se é sabido que, sem experienciar grandes tristezas, é impossível ter consciência do valimento das grandes alegrias, é também certo que uma projeção utópica só existe na medida em que supera a imperfeição da realidade vivida. Assim, uma utopia só existe enquanto tal se houver um elemento de contraste entre o real e o imaginário, o efetivo e o possível, o agora e o algures no tempo. Num universo hipotético em que os princípios da esquerda moderada encontram a sua concretização plena e temporalmente ilimitada, a utopia concretizada está destinada a esvair-se no ideal coletivo. Ou seja:
these pictures of 'eternal bliss' always failed because as soon as the bliss became eternal (eternity being thought of as endless time), the contrast ceased to operate.
Será, então, uma falácia a ilusão de que, uma vez atingido o ápice da civilização, as pessoas viverão mais harmoniosa e alegremente? Não será sensato esperar que a natureza humana abandone a sua característica insatisfação – mas isso é um risco para o projeto sociopolítico socialista alcançado a tanto custo. Constituirá um fim em si mesma a construção de uma realidade de acordo com as diretrizes de um determinado quadrante ideológico? Talvez, mas não é esta a principal preocupação de Orwell – é, em vez disso, a da dificuldade da manutenção do equilíbrio frágil entre a conquista da utopia e a racionalização extrema das potencialidades humanas. Retirando a insatisfação do quadro de possibilidades, resta-nos uma população estagnada no planalto da civilização: desenvolvida e igualitária, mas infeliz.
All 'favourable' Utopias seem to be alike in postulating perfection while being unable to suggest happiness.
Oitenta e dois anos depois da publicação de Can Socialists Be Happy?, no jornal Tribune, caminhamos no sentido oposto àquele que poderia assegurar-nos uma concretização harmoniosa e alegre de uma hipotética utopia: um desenvolvimento científico e tecnológico acompanhado de forma sustentada pelo fomento da componente humanística da formação do indivíduo. Em vez disso, aprofunda-se o desequilíbrio evidente entre o apoio ao raciocínio matemático e o incentivo à produção artística, filosófica e literária. Insiste-se num investimento voltado para o futuro, sem uma consciência consolidada do passado. O próprio futuro é arquitetado sobre alicerces utilitários, orgulho maior da sociedade digital, racional, mecanizada e automatizada em que o indivíduo ideal é uma unidade de produtividade.
Em suma, será que os socialistas podem ser felizes? Podem - se incluirmos na nossa utopia, paralelamente aos ideais de democracia, progresso científico e igualdade social, uma matriz cultural que permita às pessoas reconhecer em si mesmas o potencial para a criação de felicidade e plenitude.

