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H-orizontes

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08
Out25

O Prazer da Leitura - Marcel Proust

Proust começa por traçar um retrato de dias de férias passados a ler que podem encontrar ressonâncias nas memórias de infância de leitores que se iniciaram nas jornadas pelas páginas dos livros em tenra idade. A urgência em retomar a leitura depois de esta ser interrompida por uma obrigação da rotina ou por uma interação inoportuna é uma marca fundamental desses tempos que, anos volvidos, são definidos pelo memento dessa mesma rotina leitora.

Depois desta partilha, inicia-se a reflexão sobre a leitura propriamente dita - essa atividade que não pode ser dada como equivalente a uma conversa, pois nada tem de dialogal. Esta é, para Proust, a característica fundamental do processo de leitura: o facto de ser realizada no silêncio, e de só nele poder prolongar os seus efeitos no sujeito leitor, sozinho consigo próprio. Aí reside a verdadeira riqueza do contacto com os livros, para aqueles que sabem relacionar-se com eles de uma forma que extravase a mera memorização do seu conteúdo. O bom leitor não lê para saber citar os autores mais célebres, mas sim para refletir acerca daquilo que identifica como mais relevante no pensamento de quem escreveu. Afinal, a leitura não é uma atividade do leitor para com os outros, mas do leitor para consigo mesmo.

Por fim, fundamenta-se a tendência dos autores de grandes obras para a leitura dos clássicos. Mesmo que a obra produzida na contemporaneidade difira deles, é neles que os escritores mergulham para encontrarem o maravilhamento face à língua, à vida e ao mundo. Afinal, os clássicos são artefactos de outras sintaxes, de outros espaços e de outros modos de viver, relíquias do que era a realidade numa vida que não a nossa.

Reflitamos, então.

20
Jan23

“Livros e Cigarros” – George Orwell

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Livros e Cigarros é uma coletânea de ensaios da autoria de George Orwell, publicados entre 1936 e 1947.

No primeiro ensaio, que dá nome ao livro, Orwell reflete acerca dos hábitos de despesas da população britânica, a fim de rebater o argumento de que o número reduzido de leitores se deve ao elevado custo dos livros. Segundo as suas contas, o dinheiro gasto em itens como maços de tabaco seria suficiente para um indivíduo enriquecer o seu conhecimento literário.

Em Memórias de um livreiro e Confissões de um crítico literário, desmistifica-se o ideal embelezado da vida dos livreiros e críticos literários. Estes vivem de tal maneira assoberbados pelos livros que os rodeiam que acabam por perder o prazer da leitura, lidando diariamente com clientes com um interesse livresco artificial e com enormes quantidades de livros que nunca leriam de livre vontade.

A prevenção da literatura é um ensaio sobre a forma como a liberdade de expressão e de imprensa é posta em causa sistemática e quase impercetivelmente pelas camadas mais esclarecidas da população, num processo mascarado por ideais sociais e políticos que potenciam a distorção da realidade e a restrição das liberdades individuais em nome de um bem maior.

Em Um, dois, esquerda ou direita – O meu país, Orwell debate a importância real dos acontecimentos da Grande Guerra, comparando o impacto que tiveram na sua infância com a importância que lhes é conferida pela sociedade. Para além disso, explora-se a dualidade do conceito de patriotismo, comummente associado aos ideais conservadores quando, na verdade, a geração de Orwell o vivia quase apoliticamente, como resultado da sua educação.

Por fim, Assim morrem os pobres e Ah, ledos, ledos dias são, respetivamente, ensaios sobre a experiência do autor numa ala popular de um hospital francês e no colégio que frequentou antes de ingressar em Wellington, ambas marcantes e catalisadoras de reflexões acerca das condições dos serviços de saúde da primeira metade do século XX e do impacto do ambiente educativo na formação intelectual e emocional de uma criança.

A liberdade do intelecto implica a liberdade de relatar o que vimos, ouvimos e sentimos, e não sermos obrigados a forjar factos e sentimentos imaginários. As tiradas conhecidas contra a «fuga à realidade», o «individualismo», o «romantismo» e assim por diante não passam de um artifício retórico, cujo fito é conferir um verniz de respeitabilidade à perversão da história.

Livros e Cigarros é, simultaneamente, uma reflexão ponderada sobre temas que continuam a marcar a atualidade e uma oportunidade única de conhecer melhor a vida de Orwell, relatada pelo próprio.

Numa altura em que todos os anos são dados a conhecer os escassos hábitos de leitura dos portugueses, é oportuno perguntarmo-nos acerca do porquê de assim ser. Numa época em que o paradoxo da tolerância está a chegar à liberdade de expressão e de imprensa, em que opiniões individuais são bombardeadas e acusadas de pecados exagerados com uma facilidade espantosa, é importante que cada um de nós tome parte na luta pela defesa das liberdades individuais. Num tempo em que os direitos das crianças e as repercussões psicológicas da infância são cada vez mais valorizadas, é de especial interesse a leitura deste relato das vivências de Orwell, uma criança humilde da classe média, numa escola elitista, castradora e contraditória nos seus valores básicos. Para alguém que conheceu a essência da educação inglesa através de romances de Eça de Queiroz, chocaram-me particularmente as condições em que as crianças viviam, ao mesmo tempo sujeitas à intransigência dos superiores, aos tabus sociais e à discriminação, e entregues a si mesmas e aos poucos recursos de que dispõem para enfrentar as adversidades.

Assim, Livros e Cigarros é mais uma coletânea de ensaios imperdível, que espicaça o espírito crítico e a curiosidade de quem a lê.

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