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H-orizontes

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05
Jul22

“Never Let Me Go” – Kazuo Ishiguro

Helena

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Esta história é-nos narrada por Kathy H., de 31 anos, que, face à aproximação do fim da sua carreira de cuidadora, regressa mentalmente ao sítio onde tudo começou: Hailsham. Esta é uma escola especial inglesa onde as crianças crescem longe do resto do mundo, à medida que são impelidas a desenvolver as suas capacidades físicas e artísticas. O que os petizes não sabem é que não vão crescer para se tornarem pessoas como as outras. À medida que fazem o seu percurso, vão descobrindo a dura realidade do seu futuro há muito definido: uma vez prontos, serão notificados para iniciarem a sua jornada enquanto doadores de órgãos.

É na sombra desde destino incontornável que acompanhamos o crescimento de Kathy e dos seus melhores amigos: Ruth, uma rapariga perspicaz e versátil, e Tommy, algo desastrado e com pouca aptidão para a arte. Presos numa instituição que os instrui através de meias-palavras, os amigos vão descobrindo a complexidade das relações humanas e o poder da esperança num mundo que se nega a oferecer-lhes alternativas.

“Because somewhere underneath, a part of us stayed like that: fearful of the world around us, and – no matter how much we despised ourselves for it – unable quite to let each other go.”

Kazuo Ishiguro, vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2017, constrói uma história que gira em volta de amizades que parecem desafiar o destino. Afinal, na mais desesperante das situações, são as memórias dos que nos são queridos que nos ajudam a suportar as dificuldades da vida.

Este romance é um típico character-driven book: um livro cuja ação gravita em torno das personagens, dos seus pensamentos e das relações que estabelecem entre si. Apesar de, geralmente, preferir livros cujo foco é um enredo dinâmico e imprevisível, Never Let Me Go surpreendeu-me pela positiva. Mesmo não sendo uma leitura galopante, a ação não estagna enquanto Kathy H. regressa ao passado e o observa a partir de uma nova perspetiva. Do mesmo modo, agradou-me o facto de ser uma obra muito diferente de Despojos do Dia, do mesmo autor.

De uma maneira mais ou menos subtil, este romance encerra uma mensagem acerca da importância da arte e da cultura para o crescimento e a revelação de um indivíduo. A arte é considerada um meio para alcançar a alma das crianças, para ter um vislumbre dos seus interesses, dos seus pensamentos e, sobretudo, dos seus sentimentos.

Para além disso, este romance destaca o conflito interno de todas as crianças que, deparando-se com as mudanças constantes do mundo em que crescem, se veem na necessidade de tomar decisões me relação ao seu próprio caráter. Será melhor manterem-se fiel a si mesmas ou será preciso mudar quem são para serem aceites?

Em suma, Never Let Me Go é um drama existencial sobre vidas amputadas, sobre o valor da amizade através do tempo e sobre a injustiça de ter de se saber lidar com um futuro delineado muito antes de se vir ao mundo.

08
Abr21

"Os Despojos do Dia" - Kazuo Ishiguro

Helena

despojos.jpg

Mr Stevens, o velho mordomo de Darlington Hall, um casarão perto de Oxford, parte numa viagem até ao West Country, a fim de se encontrar com Miss Kenton, a antiga governanta da casa. Ao longo do caminho, o pensamento de Stevens regressa ao passado, aos longos anos que dedicou ao serviço de Lord Darlington e a recordações que ele e Miss Kenton têm em comum. É através destas reflexões que nos são dados a conhecer a lealdade desmedida e o caráter perfecionista do mordomo, obcecado com o conceito de “dignidade”, essencial para se ser um bom profissional no seu ramo.

Firme na sua dedicação ao seu senhor, Stevens parece não se aperceber do como os encontros que Darlington organizava na mansão afetariam o futuro do país – também nós, leitores, só no final do romance descobrimos o seu teor…

Mais um mês, mais um Nobel! Lancei-me ao Os Despojos do Dia sem saber o que esperar. Por isso, não é de estranhar que tenha ficado surpreendida com a história com que me deparei – e com o registo em que está escrita.

Stevens, enquanto narrador na primeira pessoa, mantém um discurso reverente, não apenas com as outras personagens, nos momentos de diálogo, como com o leitor, ao longo da narração. A construção frásica impecável e a formalidade do seu discurso encaixam perfeitamente na personagem que ele é, e tornam o livro mais interessante, do ponto de vista social, mas mais aborrecido, no ponto de vista do entretenimento.

A realidade que este romance retrata é-me muito distante, e nunca tinha lido nenhum livro que partisse desta perspetiva para a construção do enredo. Penso que foi essa distância que me separa das personagens, tanto por razões sociais e espácio-temporais como pela relação formal que Stevens parece estabelecer com o leitor, que levou a que não me tenha sentido muito atraída pelo livro.

Contudo, apesar de longas, reconheço que as reflexões de Stevens são de grande interesse em termos de espelho do seu íntimo e de retrato fidedigno de uma fatia da sociedade britânica do século passado. Aliás, todo o livro é uma crónica de costumes notável, com uma representação realista das classes sociais da época através dos pensamentos, das atitudes e das formas de expressão dos intervenientes da ação.

Aquilo que mais admiro neste livro é a inteligência da sua construção. Ishiguro conjuga o desenrolar da viagem e os avanços e recuos das recordações de Stevens de maneira a desvendar a essência da história muito subtil e gradualmente. Assim, apenas no fim do romance nos apercebemos da função desempenhada por Lord Darlington na política externa inglesa e da profundidade dos laços que unem Miss Kenton e o mordomo, apesar de todas as desavenças anteriormente relatadas.

Apesar de a frieza de Stevens ser quase exasperante, o livro chega ao fim com um toque de ironia e uma última reflexão que vale a pena recordar: “Talvez seja, de facto, altura de começar a encarar toda esta questão do gracejo mais entusiasticamente. No fim de contas, se pensarmos bem, comprazermo-nos dela não é uma coisa tão idiota como pode parecer – sobretudo se no gracejar reside a chave para alcançar o calor humano.”

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