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H-orizontes

H-orizontes

05
Out22

"Ensaio sobre a Cegueira" - José Saramago

Helena

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Quando uma epidemia de “cegueira branca” começa a espalhar-se pela população de uma cidade fictícia, as autoridades apressam-se a tomar medidas para evitar o contágio generalizado. Os cegos e aqueles que com eles contactaram começam a ser enviados para um manicómio abandonado, situado na periferia, onde terão de viver de acordo com uma série de regras básicas: não podem sair, nem para enterrar os mortos, a comida será entregue à porta, ninguém intervirá em caso de acidente ou desastre… a partir deste momento, estão fora do mundo e fora do tempo.

Isolados neste edifício e presos na luz branca que lhes tomou os olhos, homens e mulheres iniciam uma descida em espiral na escala da dignidade humana, a uma velocidade alucinante que se agrava com a chegada de mais e mais cegos. Com a insuficiência da comida racionada, a falta de higiene e a discrepância entre a atitude dos cegos mais velhos e mais recentes, o egoísmo e a cobiça encontram facilmente o caminho para o controlo do comportamento humano – se é que se pode chamar humano àquele resquício de ser sem passado nem futuro que se arrasta pelos corredores fétidos de um manicómio controlado pela força por dentro e por fora.

Até que ponto podem chegar a brutalidade dos homens face aos mais debilitados e os comportamentos desesperados daqueles que tentam sobreviver?

O Ensaio sobre a Cegueira é uma das obras mais célebres de José Saramago, autor galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998.

Este não é um livro para leitores cuja sensibilidade os impede de suportarem cenas violentas e grotescas. Ao reduzir o homem ao seu reduto mais animalesco, O Ensaio sobre a Cegueira está repleto de passagens fortes, essenciais para a tradução fiel e intensa da crueldade, do egoísmo e da insensibilidade do homem fechado no seu desespero.

Para além de achar particularmente relevante o facto de nenhuma das personagens possuir um nome próprio, tendo o autor optado por designações como “o primeiro cego” ou “o médico”, pelo caráter universal que conferem à história, é impossível não mencionar a singularidade da mulher que, no auge da epidemia de cegueira branca, vê.  Semelhante a Blimunda pela forma como os seus olhos lhe conferem uma posição privilegiada nesta narrativa, a mulher do médico soma-se ao repertório de personagens femininas fortes da obra de Saramago. É a mulher do médico que, através daquilo que vê, orienta o leitor e os cegos pelas ruínas da humanidade em seu redor.  Ao ser capaz de ver num mundo de caos engolido pela cegueira, sofre duplamente os seus efeitos.

“Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem” este excerto de diálogo, juntamente com a epígrafe que precede a narrativa – “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” (Livro dos conselhos) – traduzem a mensagem fundamental desta distopia perturbadora: a humanidade peca por não saber observar verdadeiramente aquilo que a rodeia. Depois desta submersão num universo em que, uma vez perdendo a visão, o Homem perde tudo o que lhe permite ser designado como tal, percebemos que é essencial que se desenvolva a capacidade de atribuir valor às pequenas coisas, a gratidão pela posse de todos os sentidos, e a consciência dos outros e de nós mesmos.

“para poder chegar aonde se quer, tudo depende de onde se esteja.”

18
Jul21

“O ano da morte de Ricardo Reis” – José Saramago

Helena

mês de dezembro do ano de 1935 está a chegar ao fim, quando o Highland Brigade chega ao porto de Lisboa. Entre os viajantes do navio encontra-se Ricardo Reis, heterónimo pessoano regressado do Brasil por ocasião da morte de Fernando Pessoa.

Na capital, Ricardo Reis instala-se no Hotel Bragança, onde conhece Lídia, a criada, em tudo oposta à musa do poeta, sua homónima. Junto de Lídia, Reis reencontra o fervor de uma relação de amor físico, ocasional e desigual – a simplicidade humilde da criada contrasta fortemente com o estatuto elevado e o discurso do heterónimo. A este amor carnal opõe-se o amor platónico que Ricardo Reis vai nutrir por Marcenda Sampaio, uma rapariga de Coimbra que visita Lisboa todos os meses em busca de cura para a sua mão paralisada.

Mais do que uma história que faz de uma personagem pré-existente o seu protagonista, reinventando-a, O ano da morte de Ricardo Reis é um romance de crítica aos mais variados aspetos do período em que a ação se desenrola. O avanço do fascismo na Europa, a iminência da guerra civil espanhola, a miséria do país no tempo da ditadura, a cegueira do fanatismo religioso e a hipocrisia e dissimulação do regime salazarista são pontos-chave das suas reflexões e dos comentários que pontuam as suas conversas com o fantasma de Fernando Pessoa.

“o homem, claro está, é o labirinto de si mesmo”

Este não foi o primeiro livro de Saramago que li – e ainda bem.

Em primeiro lugar, O ano da morte de Ricardo Reis é, em comparação com o Memorial do Convento, muito mais complexo, não em termos de linhas narrativas, mas em termos de conteúdo. Este livro apresenta, paralelamente a uma linha de ação simples, reflexões de um teor e profundidade que podem ser pouco acessíveis às pessoas que não possuem uma bagagem intelectual considerável. Esses momentos da narrativa correspondem, geralmente, aos encontros de Ricardo Reis com o fantasma de Fernando Pessoa, durante os quais eles se dedicam a discutir os assuntos da atualidade e a debater problemas existenciais. Embora a maior parte das reflexões seja muito interessante, desenrolam-se, por vezes, raciocínios difíceis de compreender, para além de serem pontuados pelos aforismos saramaguianos que me deixam sempre com a sensação de que não entendi o seu sentido por completo.

O ano da morte de Ricardo Reis exige, como seria de esperar, um conhecimento relativamente aprofundado acerca do heterónimo, da sua poesia e da sua filosofia de vida. Caso contrário, a verdadeira magia deste romance passar-nos-á ao lado. Certos comportamentos de Reis, a sua relação com Pessoa e os outros heterónimos e as suas reflexões são baseados nos princípios pelos quais Ricardo Reis se rege – a renúncia ao compromisso e à perturbação, a consciência aguda da mortalidade e a convicção de que “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”.

“Não digamos, Amanhã farei, porque o mais certo é estarmos cansados amanhã, digamos antes, Depois de amanhã, sempre teremos um dia de intervalo para mudar de opinião e projeto, porém ainda mais prudente seria dizer, Um dia decidirei quando será o dia de dizer depois de amanhã, e talvez nem seja preciso, se a morte definidora vier antes desobrigar-me do compromisso, que essa, sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos.”

Outro motivo que me leva a preferir o Memorial do Convento ao O ano da morte de Ricardo Reis é o período histórico em que a ação se desenrola. No Memorial, a ação remonta ao século XVIII, ao período de construção do convento de Mafra. Já O ano da morte de Ricardo Reis insere-se no período do regime salazarista e do avanço dos fascismos em território europeu. Apesar de considerar muito relevante esta altura da História e de ter desfrutado da forte crítica do autor à conjuntura portuguesa da época, principalmente através da ironia, este não me atrai tanto como os períodos históricos anteriores – no final de contas, nunca fui grande fã da História do pós-século XIX.

Apesar de tudo, a genialidade de Saramago volta a transparecer, inegável, através das páginas do romance. O seu estilo particular acrescenta riqueza a uma obra já de si engrandecida pela incrível capacidade criativa do autor Nobel da Literatura.

Em conclusão, penso que este é um livro de leitura obrigatória para os fãs de Saramago, constituindo em simultâneo um exemplar do seu poder inventivo e um compêndio da essência da portugalidade.

25
Ago20

"Memorial do Convento" - José Saramago

Helena

memorial.jpg

O “Memorial do Convento” tem como principais linhas narrativas aquelas que são apresentadas na contracapa do livro: “Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez.”.

Assim, este romance histórico começa por retratar o problema com que a família real portuguesa se deparava no dealbar do século XVIII: as dificuldades na conceção de um herdeiro para a coroa. A preocupação do rei leva-o a aceder à sugestão de um frade franciscano e a prometer a edificação de um convento caso Deus o abençoasse com descendência. Como, depois disso, a rainha consegue engravidar, iniciam-se os preparativos para a construção de um convento em Mafra. Nesta construção virão a trabalhar milhares de homens, entre os quais Baltasar Sete-Sóis, um antigo soldado que tinha perdido a mão esquerda na guerra. Contudo, antes do seu regresso a Mafra, a sua terra natal, Baltasar passa algum tempo em Lisboa, onde conhece o padre Bartolomeu Lourenço, também conhecido por “Voador”, pelos seus projetos de máquinas que permitiriam ao Homem voar, e Blimunda Sete-Luas, que consegue ver as pessoas por dentro.

Conjugando habilmente uma história de amor puro, um retrato da época pormenorizado, uma crítica social mordaz, uma perspetiva popular de um dos períodos mais marcantes da História portuguesa e uma passarola voadora movida a vontades, Saramago constrói um romance magnífico, que é de leitura obrigatória para os alunos do 12º ano de escolaridade.

Confesso que, antes de iniciar esta leitura, a receava. Isto devia-se à consciência de que José Saramago escrevia de uma maneira bastante peculiar, usando vírgulas no lugar de pontos finais e travessões. Contrariamente ao que receava, o registo de Saramago não dificultou a leitura, antes ajudou a torná-la especial. A colocação perfeita das vírgulas permite que as frases fluam pelas páginas, embalando o leitor na sua jornada pelo reinado de D. João V.

Esta época histórica é retratada fiel e detalhadamente pelo autor, desde a vida da família real e da corte às procissões religiosas e às condições de vida do povo. Algumas descrições, de tão ricas em pormenores, são um pouco aborrecidas, como é o caso das procissões e das deslocações da família real.

A inserção de provérbios e expressões populares no discurso proporcionam uma aproximação entre o leitor e o narrador, para além de realçar a sua perspetiva popular ou assinalar uma certa ironia. Esta está, aliás, muito presente no discurso saramaguiano, sublinhando a crítica que a ele está subjacente, que tem como alvos a Inquisição, a Igreja e os autos de fé, as convenções sociais, os protocolos da corte, as touradas e os gastos exorbitantes e irresponsáveis da Coroa.

O contraste das relações entre o rei e a rainha e entre Baltasar e Blimunda realça a diferença entre uma história de amor por conveniência e uma de amor verdadeiro, constituindo um panegírico da simplicidade dos amores genuínos.

O desfecho inesperado e comovente encerra com chave de ouro um romance simultaneamente emocionante e enriquecedor. Um ícone da literatura portuguesa.

“a diferença que há entre tijolo e homem é a diferença que se julga não haver entre quinhentos e quinhentos, quem isto não entender à primeira não merece que lho expliquem segunda.”

“são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita”

“a grande, interminável conversa das mulheres (…), nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fosse falarem as mulheres umas com as outras, já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta”

“e circulavam burros à nora, de olhos tapados para terem a ilusão de caminhar a direito, não sabendo, como não sabiam os donos, que andando realmente a direito também acabariam por vir parar ao mesmo lugar, porque o mundo é ele uma nora e são os homens que, andando em cima dele, o puxam e fazem andar.”

"Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas."

"(...) todo o homem sabe o que tem, mas não sabe o que isso vale."

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