Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

H-orizontes

H-orizontes

18
Jan24

“O Judeu” – Bernardo Santareno

Helena

Captura de ecrã 2024-01-14 103327.png

O Judeu é um texto dramático sobre a vida de António José da Silva, um descendente de judeus que se vê encurralado pelo ódio irracional de todos os que o rodeiam, no período áureo da Inquisição portuguesa. Preso e torturado pelos inquisidores duas vezes, assim como Lourença, a sua mãe, e Leonor, a sua esposa, António é um exemplo da crença na importância da liberdade de pensar e representar criticamente um regime que se sabe corrupto e arcaico. No coração de uma sociedade em que os espiões pululavam em cada esquina, António dedicar-se-á à produção de peças teatrais satíricas que lhe trarão o reconhecimento do público e, até, a atenção do rei.

Este, por seu lado, estará entretido na preparação dos casamentos dos infantes e nas visitas às suas numerosas amantes. A magnanimidade do monarca, apreciador da visão mordaz de António, não será suficiente para livrar o acusado de judaísmo da fogueira em que morrerá como mártir pela justiça que não conseguiu encontrar nos cárceres da Inquisição.

Esta peça insere-se no ciclo épico das produções de Bernardo Santareno e, como tal, privilegia o comentário político e social em detrimento da valorização de uma génese trágica que encontramos nas obras do seu ciclo trágico. Tendo lido três peças pertencentes a este último ciclo, penso que o prefiro ao épico. O Judeu não se deu a uma leitura tão rápida e cativante como O Pecado de João Agonia ou O Crime da Aldeia Velha, em muito devido à sua forma e estilo. O facto de muitas das réplicas serem muito longas, em linguagem adaptada à época, e de conteúdo mais complexo abranda o ritmo da leitura, Isto é o oposto do que acontecia nas réplicas perspicazes e concentradas dos outros textos que li.

Ainda assim, é justo que este seja um dos textos mais célebres de Santareno, pela importância dos temas principais da peça e pela inteligência envolvida nos mecanismos da sua construção. Entretecidas nas réplicas das personagens encontram-se excertos de documentos reais, referentes ao caso particular que serve de base a esta peça e à globalidade do funcionamento da Inquisição em Portugal. Para além disso, O Judeu é também uma espécie de “matrioska” teatral, já que são reproduzidos excertos das peças levadas a palco por António José da Silva, textos críticos dentro de um texto crítico, alertando o leitor para o perigo em que ele próprio incorreria se a sua leitura de O Judeu tivesse lugar no período retratado.

A minha experiência de leitura foi curiosa, já que me tenho dedicado a ler outras obras, de não-ficção, acerca da Inquisição. Senti uma diferença substancial entre o impacto que teve em mim a descrição não ficcionada dos acontecimentos e o que teve a leitura de uma história (semi)ficcionada. Apesar de a ficção ocultar ou apenas roçar aspetos muito problemáticos e chocantes que a não-ficção explora em profundidade, é a vivacidade da primeira que torna, paradoxalmente, tudo mais real, mais impactante, mais revoltante, mais próximo de quem lê.

Achei, ainda, relevante a representação da exceção ao comportamento fanático da maioria das personagens por parte do 1º Inquisidor. Num período obscuro que é mais confortável para a contemporaneidade não revisitar, o 1º Inquisidor relembra-nos de que, mesmo sendo fruto do seu tempo, havia quem reconhecesse a falta de sentido, de ética e de humanidade envolvidos nos processos em tudo corrompidos da máquina inquisitorial.

Em suma, O Judeu é uma peça fundamental na paisagem da dramaturgia portuguesa cuja leitura é, no geral, uma experiência agradável que recomendo. Fica em espera a minha vontade crescente de o ver representado em palco, dada a importância da configuração do cenário em algumas cenas que, acredito, teriam um impacto ainda maior quando corporizadas.

 

14
Jan24

“A Inquisição – O Reino do Medo” – Toby Green

Helena

A-Inquisicao.jpg

Em A Inquisição – O Reino do Medo, Toby Green abarca os três séculos de atividade da Santa Inquisição na Península Ibérica e nos seus territórios coloniais em África, na América e na Ásia. Através da explicação das áreas de influência da Inquisição ao longo do tempo, juntamente com a exemplificação de casos particulares de perseguição ou perversão, Green propõe-se deixar para o futuro um lembrete do que o domínio do medo e da paranoia pode causar numa sociedade. Este fenómeno de fachada religiosa, cujos objetivos eram, na verdade, políticos e económicos, utilizava retóricas de fácil desconstrução para apelar a comportamentos diametralmente opostos àqueles que são pregados pela própria religião: a discriminação, a desconfiança e o ódio pelo próximo.

O foco primário de Green são os acontecimentos relativos à Inquisição Espanhola, já que se fundou primeiro e foi abolida mais tarde do que a portuguesa, e que registou um maior leque de alvos de perseguição do que a portuguesa. Judeus, cristãos-novos, feiticeiras, sodomitas, bígamos, mouriscos e maçons são alguns dos rótulos atribuídos às vítimas de uma necessidade coletiva de culpabilização externa e de união face a um inimigo comum, numa Espanha de território recém-unificado.

Ao longo de 300 páginas, assistimos à queda em cadeia de gerações no precipício do preconceito e do conservadorismo, aos resultados pouco ortodoxos da repressão de instintos básicos da população e à evolução e aprofundamento de uma mentalidade que levou, em última instância, ao derrubamento dos impérios ibéricos e da própria instituição.

“A atitude genérica em relação ao acusado era resumida por Eymeric ao declarar a morte na câmara de tortura uma forma de bruxaria rancorosa destinada a frustrar o inquisidor”

Este livro cumpriu com aquilo que eu esperava dele. Pude não só aprofundar os meus conhecimentos acerca do processo de instalação da Inquisição em Portugal e em Espanha e das motivações socioeconómicas da perseguição aos judeus, mas também aprender que os acusados mortos ou fugidos eram queimados em efígie, que existiam casos bizarros de beatas e exorcistas, e que não era preciso uma justificação fundamentada para todo um novo bode expiatório começar a ser perseguido (fossem mouriscos, bígamos, feiticeiras ou maçons).

Mais do que um livro que descreve a forma como as raízes da Inquisição grassaram em solo peninsular enquanto instituição persecutória de minorias em nome da pureza, segurança ou sacralidade de um povo, este é um livro sobre a sede de poder. Desde a afirmação do poder através do medo irracional e permanente aos abusos de poder por parte de inquisidores, familiares da Inquisição e confessores, este corruptor da sociedade encontrava-se na base do estabelecimento de relações sociais em solo ibérico e colonial. O que me pareceu mais interessante e de maior relevo em relação a este fenómeno foi a forma como o comportamento dos judeus fugidos para as colónias se alterava no seu destino: chegados a uma terra em que os alvos da perseguição eram outros (os escravos e os indígenas), os anteriores oprimidos assumiam rapidamente o papel de opressores. A crueza de caráter que atravessa as histórias compiladas neste volume põem à prova a fé do leitor na bondade humana.

Os únicos aspetos negativos que tenho a apontar a este livro são o facto de partir de um projeto tão ambicioso que impede que se siga uma linha cronológica sem avanços e recuos, e a qualidade da tradução, que apresenta algumas gralhas e erros, questões que podem interferir com uma leitura fluida.

Em suma, apesar dos ziguezagues da linha temporal (necessários para abarcar todas as facetas da instituição que o autor se propôs explorar), este é um livro que recomendaria aos interessados por História europeia, particularmente pelo período (demasiado longo) em que a Inquisição vigorou na Península Ibérica. Não é uma leitura reconfortante, mas apenas sendo confrontados com a realidade mais desagradável do nosso passado podemos compreender o presente e preparar o futuro.

30
Out22

“A casa do pó” – Fernando Campos

Helena

A-Casa-do-Po.jpg

Partindo do Itinerário de Terra Santa, publicado no século XVI, Fernando Campos reconstrói e ficciona a história de Frei Pantaleão de Aveiro, cujas origens incertas são aproveitadas para preencher as lacunas de um relato de viagem que sobreviveu aos séculos.

João, noviço franciscano de vocação frágil, é um jovem sem passado nem origens. Apesar disso, aceita ser ordenado e embarca numa viagem em busca da fé, da verdade e de si próprio. Durante a sua jornada até à Terra Santa, confissões pouco claras, encontros inesperados e assaltos perigosos trazem ao de cima a explicação do seu nome franciscano (Pantaleão de Aveiro), as revelações que ambicionava… um passado que já não pode reaver.

Apesar de as minhas experiências com romances históricos terem sido, até à data, bastante positivas, este não correspondeu às minhas expectativas. O cerne da intriga perde-se nas longas descrições do narrador sobre as terras por onde passa, os costumes com que se depara e os acontecimentos no seio da igreja católica. Embora a inclusão destas observações seja compreensível, por respeito ao Itinerário que despoletou o conceito deste livro, penso que podia ter sido feito de um modo menos pesado e aborrecido, articulando-as com o enredo em vez de as condensar em parágrafos massudos.

Consequentemente, aquilo que podia ter sido um romance cativante sobre a descendência oculta da realeza portuguesa e as peripécias de uma jornada repleta de perigos acabou por se revelar um manual para os aficionados do catolicismo e de retratos bastante exaustivos das paisagens e matizes culturais que compunham a bacia mediterrânica do século XVI.

Assim, tratando-se de um livro que apenas me despertou interesse no início e no final, A casa do pó não se encontra entre os livros que recomendaria aos meus amigos leitores.

31
Dez21

“O último cabalista de Lisboa” – Richard Zimler

Helena

cabalista de lisboa.jpg.crdownload

Berequias Zarco, um judeu português residente em Constantinopla, é surpreendido pela visita de um antigo vizinho que lhe traz a chave da sua casa em Lisboa. Deparando-se assim com um regresso vívido dos seus últimos anos na capital portuguesa, Berequias decide registar para a posteridade os eventos da sua vida que até ali guardara na sua memória.

Recuamos, assim, até ao ano de 1506, ano em que os cristãos-novos de Lisboa foram vítimas de um imenso massacre despoletado pelas incitações de clérigos que culpavam os judeus da terrível seca. Milhares de judeus e cristãos-novos morreram no pogrom da Páscoa fatídica desse ano, que serve de pano de fundo ao enredo de “O último cabalista de Lisboa”. É no dia do massacre que Berequias regressa a casa e encontra o seu tio e mestre espiritual morto na cave em que realizava os seus rituais cabalísticos e judaicos. Junto dele está o cadáver de uma rapariga. Ambos apresentam um longo corte no pescoço, que só poderia ter sido executado por alguém que dominasse as artes do shohet.

Por entre as ruas de Lisboa, a intolerância religiosa da sociedade e o fraquejar da sua fé, Berequias deixa-se guiar pela sua sede de vingança e enceta todos os seus esforços na procura do assassino do seu tio. Tudo indica que se tratará de um membro do seu círculo de iniciados, que roubara a Haggada em que o mestre cabalista o usara para representar a personagem do traidor…

Para a última leitura do ano, escolhi um livro que sabia que me serviria de máquina do tempo. Com efeito, recuei cinco séculos e fui transportada para as ruas de Lisboa num dos períodos mais deploráveis da história da capital. Por mais que nos ensinem nas aulas de História que os judeus foram perseguidos incansavelmente durante décadas, nunca estamos preparados para as descrições das atrocidades que foram cometidas nestes anos de intolerância cega. Os capítulos referentes ao pogrom foram os mais intensos e chocantes e, por isso mesmo, os meus preferidos.

O enredo, para além de original, é um autêntico novelo de personagens, histórias, percalços e suspeitas, que se enrodilham num turbilhão de mistério até ao desenlace final. Acompanhar o ritmo dos acontecimentos e o surgimento de novas personagens foi o maior desafio desta leitura, porque, ao contrário do narrador, não possuo uma “memória de Tora” capaz de articular a grande quantidade de intervenientes na resolução deste mistério, o seu passado e as suas ações. Felizmente, no final do romance, o narrador faz uma recapitulação dos destinos de cada uma das personagens, pelo que pude recordar o seu papel na ação e compreender o desenlace como a um puzzle em que se encaixaram as últimas peças.

Encerramos, assim, as leituras de 2021 com uma experiência positiva, surpreendente e desafiante que, sem sombra de dúvida, merece um regresso mais vagaroso e atento.

16
Mai20

"Tempo de Fogo" - Amadeu Ferreira

Helena

16151454._UY630_SR1200,630_.jpg

Assim como todos os caminhos vão dar a Roma, também o enredo deste livro tem vários pontos de partida: os primeiros capítulos apresentam-nos as personagens cujas histórias acabarão por se cruzar com o avançar da narrativa. Assim, através de planos paralelos, ficamos a conhecer Frei António da Santíssima Trindade, António Gonçalves (mais conhecido por António Tolês, uma vez que a sua avó judia tinha sido queimada em Toledo), Henrique Peres, o seu cunhado Manuel Miguel (marido de Baltasara, cuja filha endoidecera após a atroz morte do marido), Ludovina, Diego de Leão e José Peres (pai de Henrique Peres).

Frei António caminha em direção a Miranda do Douro, onde se reunirá com o bispo, e, durante o seu percurso, reflete em relação ao presente e ao seu passado. António Tolês dirige-se à feira do Naso, a fim de vender renovos. Henrique Peres e Manuel Miguel fazem parte do grupo de dezoito sapateiros que caminham para a feira de Mogadouro. Mais tarde, Henrique partirá para Fermoselhe com o objetivo de se reunir com a mulher e a filha, e Manuel dirigir-se-á a Vilarinho dos Galegos, onde se reunirá com o seu compadre. Inteiramo-nos do suicídio de Ludovina, uma das paixões do passado de Frei António, que se lançou da muralha depois de descobrir que estava grávida de um sendinês, e da morte de José Peres, após a partida do seu filho para Espanha.

Neste ponto, parece-nos improvável que todas estas personagens vão acabar por se juntar na teia do destino. Mas a verdade é que, de uma maneira ou de outra, todas elas fizeram parte da vida umas das outras, o que vamos descobrindo à medida que avançamos no romance, através de analepses, ou virão a fazê-lo, nas nefastas circunstâncias da travessia de uma leva da Inquisição. Não é por acaso que o título do romance em português é “Tempo de Fogo”, pois é sob a permanente ameaça das fogueiras da Inquisição do século XVII que as personagens deste livro levam a sua vida nas Terras de Miranda.

“Ainda bem que já não ardem as fogueiras. Ou será que continuam à espera de quem as volte a acender?”

Apesar de todas as críticas positivas que me tinham sido transmitidas em relação a este livro, demorei a ficar interessada por ele. Não estava à espera de uma escrita deste género, a e inserção de reflexões pelo meio dos relatos da narração deixou-me algo aborrecida.

Ainda assim, o interesse começou a crescer a partir da altura em que me apercebi de que todas as personagens (tantas e com tantas relações entre elas, que é fácil perder o fio da meada se não se tomar notas) estavam relacionadas umas com as outras.

O facto de a ação se desenrolar nas Terras de Miranda fez com que o cenário me fosse familiar e me sentisse como que “em casa” enquanto lia.

Tratando-se de um romance histórico, mostra-nos um pouco da realidade da época, em especial os rituais da Inquisição, cujos relatos impressionam e perturbam o leitor. Essas passagens em que se retrata a realidade das perseguições e o apêndice final (a reflexão de Frei António em relação ao poder das palavras) foram as minhas partes preferidas.

Por ter sido editado tanto em português como em mirandês, com o título “La Bouba de la Tenerie”, este romance é ainda mais especial.

“muito dificilmente escolhemos um caminho que outros não tenham já escolhido”

“A maldade não está nas coisas, mas em quem olha para elas.”

Mais sobre mim

Arquivo

    1. 2024
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2023
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Pesquisar

Bem vindo

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.