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H-orizontes

H-orizontes

29
Abr23

“Admirável Mundo Novo” – Aldous Huxley

Helena

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No ano de 2540 (que corresponde ao ano 632 depois de Ford no universo da narrativa), a sociedade inglesa vive num estado de estabilidade perpétua garantido pelo condicionamento de todos os indivíduos à nascença. Num universo sem os conceitos de mãe e pai, os bebés são gerados e desenvolvidos em provetas, sendo condicionados para desempenharem um determinado papel no futuro que os espera: tornar-se-ão alfas, betas, deltas, gamas ou épsilones, as cinco classes da sociedade rigidamente hierarquizada.

Apesar de todos os procedimentos químicos durante a gestação e das lições a que são sujeitos enquanto dormem, ao longo do crescimento, em alguns alfas, os indivíduos psicologicamente mais autónomos, podem florescer ideais comprometedores para a estabilidade, sensações de vazio que podem levá-los a tomar atitudes indevidas. É o caso de Bernard Marx, um alfa cujo comportamento provocava estranheza entre os seus pares e, consequentemente, o isolava na sua esfera de perplexidade. Bernard não era como as outras pessoas: incomodava-o a presença permanente dos outros, não apreciava os desportos populares, tinha um profundo interesse pelas populações intocadas pela civilização e não era atraído pelo estímulo à manutenção simultânea de múltiplas relações sexuais que todos praticavam.

Apesar de ter sido advertido sobre a possibilidade de ser expulso da civilização no caso de insistir nos seus comportamentos perigosos, Bernard decide levar Lenina, uma delta conhecida por ser especialmente pneumática, a uma reserva de Selvagens, indivíduos alheios aos progressos da civilização. Uma vez aí, são surpreendidos por uma cerimónia religiosa de autoflagelação e conhecem Linda e John, cujo aspeto e ausência de civilidade chocam Lenina profundamente. O plano de Bernard estava em marcha: regressaria a Inglaterra com os dois Selvagens e provaria a todos que existiam outras formas de pensar e de viver. Mas como reagirão os Selvagens à vida em civilização? E estará a sociedade inglesa pronta para lidar corretamente com a chegada de alguém diferente?

“Mas eu não quero o conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o autêntico perigo, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.”

Agora que acrescentei o Admirável Mundo Novo ao meu repertório de distopias, posso concluir que, em comparação com 1984 e Fahrenheit 451, esta é a menos assustadora. Não é preciso esforçar muito a imaginação para conceber um universo em que a engenharia genética determina o futuro dos indivíduos  e em que o espírito crítico é abafado em nome da estabilidade e do conforto.

Contrariamente ao que acontece em “1984”, a sociedade do Admirável Mundo Novo não está sujeita à vigilância permanente dos órgãos estatais, nem pode ser levada para esconderijos de tortura medonhos por contrariar o regime. Enquanto o sistema totalitário de 1984 sobrevive à base da adulteração da verdade, no Admirável Mundo Novo cultiva-se a indiferença face à verdade, uma vez que o conhecimento, a ciência e a crítica constituiriam uma ameaça à estabilidade social. Para além disso, estas distopias opõem-se quanto à opinião social vigente em relação à liberdade sexual. Enquanto os indivíduos de 1984 estavam proibidos de qualquer atividade sexual, com o objetivo de canalizar a energia reprimida para o serviço ao regime, o Admirável Mundo Novo incita a prática de uma atividade sexual intensa, com mais do que um parceiro, e estimulada por suplementos e experiências de cinema sensoriais, para dar aos habitantes uma sensação de permanente prazer e felicidade.

Tendo sido publicado em 1932, Admirável Mundo Novo possui um forte pendor profético no que toca à emergência de regimes totalitários em solo europeu, nomeadamente o fascismo e o estalinismo. Também os regimes fascistas baseavam a sua noção de sociedade na manutenção de uma hierarquia social rígida e inquestionável, sedimentada pela discriminação.

O universo criado por Huxley ecoa nos nossos dias em aspetos como a abundância de medicamentos, suplementos e drogas que elevam o espírito dos doentes ou consumidores, produzindo efeitos semelhantes à soma do universo distópico. Também a completa abominação da solidão é algo que ganha raízes na sociedade dos nossos dias: mesmo que estejamos sozinhos, as novas tecnologias mantêm-nos conectados a um número infinito de pessoas e lugares, de maneira que se torna difícil para alguém ficar completamente só consigo e os seus pensamentos.

Em suma, o Admirável Mundo Novo conta com uma construção de um universo distópico excelente, assim como com discussões de pendor moral e sociológico que despoletam reflexões de interesse e pertinência atuais. Apreciei particularmente a forma como o autor modela a personagem de Bernard, em oposição à personagem plana de John, que, aliás, é apontado como o elemento-chave que está em falta em 1984 – o outsider que tem a capacidade de criticar o universo distópico à luz dos seus preceitos sociais. Apesar de o próprio Huxley admitir que este livro conta com algumas falhas (tais como a bipolaridade demasiado radical dos destinos das personagens), esta é uma leitura essencial para a compreensão da sociedade dos nossos dias e para a prevenção de um futuro sem arte, sem ciência, sem religião, sem literatura e sem o espírito crítico que faz de nós humanos.

02
Jan23

“Brief Answers to the Big Questions” – Stephen Hawking

Helena

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Será que Deus existe? Como começou tudo isto? Haverá mais formas de vida inteligente no universo? Podemos prever o futuro? O que há dentro de um buraco negro? É possível viajar no tempo? Sobreviveremos na Terra? Devemos colonizar o espaço? Seremos ultrapassados pela Inteligência Artificial? Como delineamos o nosso futuro? Estas são as perguntas a que Stephen Hawking se propõe responder em Brief Answers to the Big Questions, um livro que nos leva das origens do universo ao próximo milénio em meia dúzia de páginas. Com um otimismo que não deixa de ter raízes na realidade científica do Universo, Hawking parte do seu génio incomparável (ainda que nunca o reconheça) e não só nos deixa uma explicação, como também conselhos e alertas para o que está por vir. Preparado durante a sua vida e publicado postumamente Brief Answers to the Big Questions cumpre aquilo que o título promete e eterniza, paralelamente a A Brief History of Time,  o imenso legado que Hawking deixou à espécie humana.

“This creativity can take many forms, from physical achievement to theoretical physics.”

Se eu achava que a minha admiração por Stephen Hawking não podia ser maior, não podia estar mais errada. Para além da sua inteligência fora de série, o cientista que transpôs os limites expectáveis da medicina e chegou aos confins do Universo recorrendo apenas à sua mente era ainda dotado de um grande sentido de humor e de uma abrangente cultura geral e popular. Só assim conseguiria construir um livro tão próximo do público nas referências que utiliza para fazer comparações simples e eficazes.

Stephen Hawking revela uma capacidade incrível de simplificação de conceitos e raciocínios complexos, de forma a que este livro possa ser compreendido por um público muito vasto. Assim, buracos negros, ondas magnéticas e a evolução da inteligência artificial tornam-se noções mais tangíveis para aqueles que nunca foram confrontados com textos científicos.

Se eu, que não domino quaisquer conceitos de física e teoria quântica, me senti tão cativada pelos raciocínios de Hawking, deduzo que alguém que possua bases sólidas nesta matéria poderá encontrar em Brief Answers to the Big Questions uma pequena obra verdadeiramente fascinante.

“behind every exceptional person there is an exceptional teacher.”

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