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H-orizontes

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23
Mar24

“O Processo” – Franz Kafka

Helena

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Joseph K., gerente de um banco, acorda numa manhã da sua vida pacata para se deparar com a visita de membros do aparelho judicial, que lhe comunicam que se encontra envolvido num novo e complexo processo. Apesar de não o prenderem, deixam K. num estado psicológico de prisão perpétua, já que não conhece a natureza do seu processo, nem os seus responsáveis na Justiça, nem o motivo de estar envolvido nele.

Ao longo de 190 páginas, Joseph K. tenta em vão clarificar o seu processo judicial e provar a sua inocência – algo praticamente impossível, dado não se conhecer aquilo de que o consideram culpado. Quase “atirado” de um lado para o outro pelas exigências da irracional Justiça, K. vai-se movimentando naquele que se revela o universo corrupto, incompreensível e contraditório dos processos judiciais. No final de contas, lutar contra a sua sentença ou aceitá-la passivamente parecem levá-lo ao mesmo resultado desolador de uma condenação sem fundamento.

«Mas eu não sou culpado», respondeu K., «é um erro. E, por falarmos nisso, como é que um homem pode ser considerado culpado? Somos todos homens, tanto uns como outros.»

Através da história bizarra de Joseph K, Kafka leva-nos a refletir acerca do funcionamento das instituições fundamentais da sociedade ocidental – especialmente, acerca da completa ausência de sentido prático que as caracteriza. Apesar de as autoridades comunicarem a K., no início do seu processo, que ele não vai ser preso, o que efetivamente acontece é uma prisão alargada a toda a existência do arguido. O processo entranha-se na vida de K., tanto pela incógnita em que consiste a acusação que o envolveu, como pela ininteligibilidade do seu desenrolar. Por mais que K. tente intervir para acelerar o decorrer dos acontecimentos, tudo o que ele se dispõe a fazer é irrelevante ou nocivo para o seu estatuto de acusado. A impossibilidade de se sair vitorioso de uma batalha com as instituições é resumida pelo pintor com que K. se encontra para tentar encontrar uma solução: um caso só pode ser resolvido através de uma absolvição definitiva, de uma absolvição aparente ou de um adiamento indefinido. A primeira nunca ocorre, a segunda conta com uma absolvição ratificada pelo juiz, mas não pelo Supremo Tribunal (o que leva a que seja possível que o processo seja recuperado e recomeçado a qualquer momento), e o terceiro, que consiste em evitar que o processo passe das primeiras fases, exige visitas constantes ao juiz e uma vigilância permanente da situação do acusado. Em suma, um acusado está inevitavelmente condenado a uma vida de instabilidade e preocupação, afundado em burocracia que não consegue entender.

O próprio recurso aos conhecimentos do pintor constitui parte da crítica à rede de influências que permeia o funcionamento das instituições. Só com o recurso a pessoas com ligações mais ou menos lícitas ao sistema judicial consegue fazer algum progresso (ainda que apenas aparente e insatisfatório) no decorrer do seu processo.

Um aspeto que captou particularmente a minha atenção foi a ubiquidade do sistema judicial, materializada pela existência de escritórios do tribunal em sótãos de zonas residenciais. Assim como as vidas dos residentes se encontram permanentemente debaixo de extensões do aparelho judicial, literalmente, também as vidas dos cidadãos estão condenadas a desenrolar-se sob a inexorável burocracia segundo a qual, bem ou mal, nos regemos.

A minha experiência de leitura d’O Processo foi surpreendentemente positiva. Acabei por gostar muito mais deste livro do que do célebre A Metamorfose, talvez por tê-lo lido numa fase da vida em que consigo compreender melhor o que realmente está em causa numa história aparentemente sem sentido, ou por ter uma mensagem crítica mais fácil de destrinçar. Este pode ser, no fundo, um livro sobre a falta de sentido da vida, e sobre como não importa o que façamos para tentar compreendê-la ou combater o seu rumo. Recomendo esta leitura a toda a gente.

14
Mar21

"A Metamorfose" – Franz Kafka

Helena

kafka.jpg

“Quando Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso inseto.”

Tendo acordado dentro do corpo de um grande escaravelho, Gregor leva algum tempo a assimilar o que aconteceu e as consequências que a transformação acarretará para ele e para os que o rodeiam – pois como poderá viver a sua família, sabendo que um escaravelho gigante ocupa o quarto ao lado?

Com o passar do tempo, Gregor acostuma-se à sua nova forma e às alterações que ela implica: a repulsa pela comida fresca, o incómodo da luz ou a capacidade de trepar pelas paredes e pelo teto.

Por outro lado, a sua relação com a sua família degrada-se drasticamente. De facto, só Grete, a sua irmã, se dispõe a alimentá-lo e a limpar-lhe o quarto, com um zelo cada vez menor. O pai, rude e insensível, chega a atacá-lo com maçãs, e a mãe mal aguenta ser confrontada com o seu novo aspeto.

Através do retrato grotesco de uma vítima de um total isolamento social causado pela sua aparência, A Metamorfose ataca o caráter superficial e materialista da sociedade do início do século XX, que não difere muito da dos nossos dias.

“Tocante” é o adjetivo que me parece mais apropriado para caracterizar esta narrativa. Apesar da sua transformação grotesca e do desprezo a que é votado por todos, Gregor conserva a sua índole humana por muito tempo, preocupando-se com o bem-estar da família, com a felicidade da irmã e com a magnitude do incómodo que ele provoca na casa. Ao transformar a personagem principal num inseto, Kafka realça o contraste entre a sua pureza e o caráter medíocre e materialista dos que o rodeiam, os verdadeiros parasitas.

Esta edição (Relógio D’Água, 2005) inclui um prefácio de Vladimir Nabokov, cuja leitura me permitiu não só prestar atenção a certos pormenores (como o abrir e fechar das portas e a repetição do número três), como também ver mais além do que aquilo que parece uma história muito simples.

“Prestemos atenção ao estilo de Kafka. Na sua claridade, no seu tom preciso e formal, em agudo contraste com o assunto tenebroso do conto. Não há metáforas poéticas a adornar esta severa história a preto-e-branco. A nitidez do seu estilo sublinha a riqueza perversa da sua fantasia.” (Vladimir Nabokov) Reconhecendo-se em Kafka uma forte influência de Flaubert, “que odiava a prosa bonita”, não é de espantar que a sua própria escrita seja simples e despojada de artifícios, mas também rica em ironia e nuances de sentido.

Ler A Metamorfose é ter nas mãos um ícone da literatura existencialista do século XX, uma crítica à mediocridade e mesquinhez humanas que tira proveito do absurdo para fortalecer o seu impacto.

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