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H-orizontes

H-orizontes

20
Jan23

“Livros e cigarros” – George Orwell

Helena

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Livros e cigarros é uma coletânea de ensaios da autoria de George Orwell, publicados entre 1936 e 1947.

No primeiro ensaio, que dá nome ao livro, Orwell reflete acerca dos hábitos de despesas da população britânica, a fim de rebater o argumento de que o número reduzido de leitores se deve ao elevado custo dos livros. Segundo as suas contas, o dinheiro gasto em itens como maços de tabaco seria suficiente para um indivíduo enriquecer o seu conhecimento literário.

Em Memórias de um livreiro e Confissões de um crítico literário, desmistifica-se o ideal embelezado da vida dos livreiros e críticos literários. Estes vivem de tal maneira assoberbados pelos livros que os rodeiam que acabam por perder o prazer da leitura, lidando diariamente com clientes com um interesse livresco artificial e com enormes quantidades de livros que nunca leriam de livre vontade.

A prevenção da literatura é um ensaio sobre a forma como a liberdade de expressão e de imprensa é posta em causa sistemática e quase impercetivelmente pelas camadas mais esclarecidas da população, num processo mascarado por ideais sociais e políticos que potenciam a distorção da realidade e a restrição das liberdades individuais em nome de um bem maior.

Em Um, dois, esquerda ou direita – O meu país, Orwell debate a importância real dos acontecimentos da Grande Guerra, comparando o impacto que tiveram na sua infância com a importância que lhes é conferida pela sociedade. Para além disso, explora-se a dualidade do conceito de patriotismo, comummente associado aos ideais conservadores quando, na verdade, a geração de Orwell o vivia quase apoliticamente, como resultado da sua educação.

Por fim, Assim morrem os pobres e Ah, ledos, ledos dias são, respetivamente, ensaios sobre a experiência do autor numa ala popular de um hospital francês e no colégio que frequentou antes de ingressar em Wellington, ambas marcantes e catalisadoras de reflexões acerca das condições dos serviços de saúde da primeira metade do século XX e do impacto do ambiente educativo na formação intelectual e emocional de uma criança.

“A liberdade do intelecto implica a liberdade de relatar o que vimos, ouvimos e sentimos, e não sermos obrigados a forjar factos e sentimentos imaginários. As tiradas conhecidas contra a «fuga à realidade», o «individualismo», o «romantismo» e assim por diante não passam de um artifício retórico, cujo fito é conferir um verniz de respeitabilidade à perversão da história.”

Livros e cigarros é, simultaneamente, uma reflexão ponderada sobre temas que continuam a marcar a atualidade e uma oportunidade única de conhecer melhor a vida de Orwell, relatada pelo próprio.

Numa altura em que todos os anos são dados a conhecer os escassos hábitos de leitura dos portugueses, é oportuno perguntarmo-nos acerca do porquê de assim ser. Numa época em que o paradoxo da tolerância está a chegar à liberdade de expressão e de imprensa, em que opiniões individuais são bombardeadas e acusadas de pecados exagerados com uma facilidade espantosa, é importante que cada um de nós tome parte na luta pela defesa das liberdades individuais. Num tempo em que os direitos das crianças e as repercussões psicológicas da infância são cada vez mais valorizadas, é de especial interesse a leitura deste relato das vivências de Orwell, uma criança humilde da classe média, numa escola elitista, castradora e contraditória nos seus valores básicos. Para alguém que conheceu a essência da educação inglesa através de romances de Eça de Queiroz, chocaram-me particularmente as condições em que as crianças viviam, ao mesmo tempo sujeitas à intransigência dos superiores, aos tabus sociais e à discriminação, e entregues a si mesmas e aos poucos recursos de que dispõem para enfrentar as adversidades.

Assim, Livros e cigarros é mais uma coletânea de ensaios imperdível, que espicaça o espírito crítico e a curiosidade de quem a lê.

30
Jan22

“How to Spot a Fascist” – Umberto Eco

Helena

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Este livro reúne três ensaios da autoria de Umberto Eco que versam um tema comum: a ameaça permanente do fascismo na sociedade dos nossos dias. Quase oitenta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o fantasma do fascismo está longe de deixar de assombrar a sociedade ocidental, pelo que devemos manter-nos alerta a alguns sinais de que uma nova era de totalitarismo se aproxima, mesmo que ainda num estado embrionário. São estes os sinais que Eco se dedica a enumerar no seu primeiro ensaio, intitulado Ur-Fascism.

O culto da tradução, a rejeição do modernismo, a ausência de sentido crítico, a ação irrefletida, o medo da diferença, o apelo à frustração da população, a exaltação da guerra, o elitismo popular, o culto do heroísmo aliado ao culto da morte, o desprezo pelas mulheres e pelos “hábitos sexuais não-conformistas”, e o recurso a um líder como intérprete da vontade do povo são alguns dos indícios da ascensão de um regime fascista. Aliás, nas palavras de Eco, “é possível eliminar um ou mais aspetos de um regime fascista e ele vai sempre ser reconhecivelmente fascista”.

Assim, aliando a este ensaio outros que sublinham a importância da luta contra a tendência intolerante da sociedade atual e que alertam para o perigo da “censura através do ruído”, How to spot a fascist recapitula sucintamente as características dos regimes totalitários e faz-nos um apelo: “Do not forget”.

“Thinking is a form of emasculation”

Em apenas 64 páginas, este livro encerra uma mensagem poderosa. Apesar de, na maior parte dos casos, não nos apercebermos, florescem à nossa volta indícios mais ou menos gritantes de uma ameaça nunca extinta.

Como a maior parte das compilações de ensaios deste género, How to spot a fascist suscita uma reflexão sobre a sociedade em que vivemos e sobre o papel de cada um na luta contra o totalitarismo nas suas várias formas. Os sistemas de repressão renovam-se e reinventam-se. É fácil deixarmo-nos levar por promessas grandiosas e perdermo-nos nesta ditadura do ruído. Mais do que nunca, nesta era de desinformação e de opiniões polarizadas, é essencial conservar o espírito crítico e saber analisar objetivamente a informação com que nos deparamos.

Fascismo nunca mais!

“distinguishing is a form of modernity”

“poor vocabulary and elementary syntax (…) limit the instruments available to complex and critical reasoning”

04
Jun21

"porque escrevo e outros ensaios" - George Orwell

Helena

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Nesta coletânea de ensaios de George Orwell (pseudónimo de Eric A. Blair), é reunida uma série de textos que abordam alguns dos temas mais presentes na atividade crítica do autor: a escrita, os totalitarismos, a manipulação da verdade e o estado do socialismo na antiquada sociedade britânica. Passo a resumir os meus preferidos:

Em Porque Escrevo, Orwell perceciona a produção escrita como o resultado de quatro motivos, conjugados nas mais diversas proporções: o egoísmo do escritor, o entusiasmo estético, o impulso histórico e o propósito político. Do ponto de vista de Orwell, são as obras dotadas de um propósito mais profundo, com uma mensagem verdadeiramente crítica, as de maior valor no universo literário: “E, olhando para o meu trabalho, vejo que foi, invariavelmente, quando não tive um propósito político, que escrevi livros sem vida, caindo em passagens empoladas, frases sem significado, adjetivos decorativos e treta em geral.”

Em Verdade Histórica, o autor sublinha a parcialidade da História, que a liberdade de expressão não consegue alterar. Permanentemente preocupado com a tendência humana para distorcer a verdade, Orwell questiona-se acerca da noção da História que teríamos, se os vencedores tivessem sido outros e tivessem sido ouvidas mais versões dos mesmos acontecimentos.

Firme na sua oposição ao totalitarismo e consciente dos seus efeitos na esfera cultural da sociedade, em Literatura e Totalitarismo, Orwell reflete acerca do risco a que a criação literária se sujeitaria com o triunfo dos regimes totalitários. Enquanto a literatura moderna se baseia na honestidade intelectual, o totalitarismo abole a liberdade de pensamento e exige a adoção de um código mental isolado do mundo exterior, que se altera consoante a necessidade política do poder e que impossibilita a criação de boa literatura: “O que há de realmente assustador no totalitarismo não é o cometer de «atrocidades», mas o ataque ao conceito de verdade objetiva, ao afirmar que controla o passado como controla o futuro.”

Um Enforcamento, assinado por Eric A. Blair, recua até aos seus tempos de Polícia Imperial na Birmânia inglesa e descreve com precisão um enforcamento a que assistiu, sublinhando a insensibilidade dos homens perante um ato tão cruel.

Apesar de não costumar ler não-ficção, seria impensável perder uma oportunidade de ver o mundo da perspetiva de Orwell, com toda a sua clareza de pensamento e o vigor do seu espírito crítico. Independentemente da tendência socialista do autor, o que mais me fascina nele é a sua posição invariavelmente anti-totalitarista, carregada de bom-senso.

Orwell, que era, como já referi, um apologista da verdade, consegue retratar a complexidade do contexto político e social em que se insere com uma simplicidade que permite a qualquer leitor compreender o seu discurso. Por isso, ler os seus textos abre-nos as portas para os meados do século XX e para as questões com que a Europa se debatia nessa época, abordadas de uma forma que nos envolve nas reflexões do autor.

Tendo em conta a sociedade dos nossos dias, dominada pela superficialidade e pela demagogia, e em que o conceito de fascismo passa de boca em boca, a leitura desta coletânea é de especial importância.

“escrevo porque há uma mentira qualquer que quero denunciar, um facto qualquer para o qual quero chamar a atenção, e a minha preocupação inicial é ser ouvido”

“Não é provável que o homem salve a civilização, a não ser que possa desenvolver um sistema de bem e mal que seja independente do Céu e do Inferno.”

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