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H-orizontes

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25
Jul22

“os meus sentimentos” – Dulce Maria Cardoso

Helena

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Violeta (“um nome de flor que também é uma cor”) avança pela estrada numa noite particularmente especial: depois de ter vendido a casa em que vivera durante toda a sua infância, deparava-se com a oportunidade de mudar a sua vida para sempre. Contudo, na escuridão de uma noite de chuva, Violeta sofre um acidente e dá consigo de cabeça para baixo, de olhos vidrados numa gota de água que se recusa a escorrer pelo vidro.

Presa num carro entre a vida e a morte, permite-se voltar atrás no tempo, revisitando momentos do passado mais próximo e mais distante que, de uma forma ou de outra, moldaram a sua identidade. Filha de apoiantes de Salazar condenados ao desprezo depois da revolução, dotada de uma personalidade invulgarmente ordinária que chocava todos os que a rodeavam, mãe solteira da Dora, que a despreza e se recusa a aceitar que é impossível para um filho odiar verdadeiramente os seus progenitores. Numa torrente contínua de pensamentos, Violeta dá voz a uma mulher incompreendida, menosprezada e posta de parte que não conseguiu escapar às repercussões de um crescimento no seio de uma família em frágil equilíbrio afetivo e social.

“o passado não tem sítio, a única vantagem do passado é não existir em lado algum”

Este não é um livro recomendável para os leitores que procuram personagens com que podem estabelecer uma relação de empatia. As personagens de “os meus sentimentos” estão repletas de falhas, assim como as relações que estabelecem entre si. Os protagonistas desta história sofrem não só com problemas da esfera pessoal, como a sua realização profissional e as suas relações familiares, como com problemas da esfera social, fruto da forma como são vistas e tratadas por uma sociedade com modelos físicos e éticos rigidamente definidos. A narradora acaba por demonstrar que, de facto, “as pessoas têm existências intermitentes”, sendo que a mesma pessoa é definida de formas completamente diferentes consoante o ponto de vista de alguém com quem partilhou um fragmento de existência.

Dulce Maria Cardoso volta a construir um romance em torno das vítimas da revolução do 25 de abril, desta vez a partir do ponto de vista dos derrotados. A mãe de Violeta, conservadora e inabalável defensora do “chic”, recusa-se a aceitar a vitória dos revolucionários, afirmando que, mais tarde ou mais cedo, voltaria “chacun à sa place”. No entanto, as mudanças na sociedade desenrolam-se rapidamente, e os insultos e conspirações contra os apoiantes de Salazar não podem ser ignorados para sempre. Afinal, “as revoluções nada mais fazem do que substituir as vítimas”.

Apesar da originalidade do conceito de se construir um livro completamente desprovido de pontos finais, cheguei a sentir-me algo aborrecida pelo seu caráter repetitivo. Ainda assim, esta opção da autora concretiza a ideia de que todo o livro nada mais é do que uma torrente contínua dos pensamentos da narradora, pelo que as interligações quase aleatórias e as repetições na história são intencionais e parte da especificidade da narrativa.

Em resumo, este é um livro diferente de todos os que já li, tanto pela forma como foi escrito como pela densidade da frustração das suas personagens, presas em círculos concêntricos de relações tóxicas e sonhos falhados que se repetem, de formas diferentes, de geração em geração.

“a minha vida um sobressalto no sono continuado do universo”

30
Jun18

"O Retorno" - Dulce Maria Cardoso

Helena

O Retorno (1).jpg

O Retorno é um livro escrito por Dulce Maria Cardoso que retrata o regresso dos colonos portugueses de África, na perspetiva de um rapaz de 15 anos, Rui, que é obrigado a lidar com uma situação adversa naquela fase da vida em que o mundo é uma folha branca para escrever a história da nossa individualidade. Após o dia 25 de abril de 1974, as colónias começam a lutar pela sua independência, pelo que os negros perseguem os brancos, que são mortos ou obrigados a deixar o país. A família de Rui é das últimas a deixar Angola, e, pouco antes de deixar o país, militares negros surgem em frente da sua casa perguntando pelo “carniceiro do Grafanil”. Acabam por levar o seu pai, e ele, a mãe e a irmã têm de apanhar o avião para a “metrópole”, pois é uma oportunidade única. Assim, Rui assume o papel de homem de família, sentindo-se responsável pela mãe, que tem uma depressão, e a irmã, que apesar de ser mais velha fica mais abalada com a mudança do que ele. Assistimos à sua adaptação a uma nova realidade, que passa pela criação de novas amizades, mudança de hábitos, contacto com um clima diferente e um crescimento físico e mental face à nova situação em que se encontra.

Gostei muito deste livro. Permitiu-me conhecer melhor um período da História que eu associava apenas ao regresso dos portugueses das colónias, sem fazer ideia do clima de tensão que estes encontravam ao chegar à “metrópole”. O Retorno apresenta-nos o que foi vivido pelos retornados que saíram de uma situação de medo e perseguição para entrarem numa sociedade onde são discriminados e repudiados. O relato feito na primeira pessoa por um rapaz adolescente é muito expressivo, simples e claro, transmitindo-nos o seu medo, raiva ou euforia sem rodeios nem embelezamentos textuais. Entramos no mundo dos retornados do pós 25 de abril e somos agarrados pela história de Rui, do qual nos tornamos facilmente amigos. Uma leitura divertida, revoltante e emocionante que recomendo a todos.

“O sol pode cegar-te mas não te importes, se lhe voltas as costas a tua sombra esconde o que procuras” – Pág. 164

 

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