Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

H-orizontes

H-orizontes

03
Nov23

"The Handmaid's Tale" - Margaret Atwood

Helena

71mfL5OGNNL._AC_UF1000,1000_QL80_.jpg

Nesta realidade distópica, a religião toma as rédeas do sistema de valores e as mulheres são submetidas a uma objetificação desumana. As mulheres são divididas em grupos femininos com funções específicas: as Marthas, as Handmaids e as Aunts, por exemplo, A narrativa põe em destaque os meandros da vida das Handmaids, mulheres potencialmente férteis, responsáveis por gerar filhos para as esposas inférteis de funcionários do Estado. Offred, a narradora, é uma Handmaid que ainda se lembra de como era ter uma vida autónoma, um trabalho e a liberdade de poder ler e dizer o que quisesse. Agora, não pode deter propriedade, tem de reduzir o contacto visual com outros ao mínimo, os dissidentes do regime aparecem enforcados e até as palavras nas tabuletas foram substituídas por símbolos, pois nem essa leitura era desejável. Para além de tudo isso, Offred não sabe o que foi feito de Luke, seu companheiro, nem da sua filha.

Os vidros são inquebráveis, os banhos são controlados e o acesso a objetos cortantes é proibido, porque toda a gente sabe: a morte é a única saída.

“All I can hope for is a reconstruction: the way love feels is always only approximate.”

Esta leitura veio confirmar aquilo de que já desconfiava: distopias não fazem parte dos meus géneros literários favoritos. É-me difícil reorganizar o meu mapa mental para me submergir completamente no universo da distopia. Apesar disso, penso que prefiro a abordagem de Atwood, de dar a conhecer o funcionamento da sociedade distópica através da ação e das personagens, em vez da explicação concentrada e, por vezes, aborrecida e complexa, do universo criado noutros livros do género.

Esta clássico moderno é, de facto, uma leitura importante pelas reflexões que suscita relativamente à realidade em que vivemos. Isto é reforçado pelo compromisso da autora de retratar apenas situações que já tivessem tido lugar no passado ou no presente. A vida em Gilead mimetiza os princípios do grupo de puritanos que se instalaram no estado do Massachussets no século XVII. A gravidez forçada foi implementada por Pol Pot no Camboja. A proibição do aborto é uma realidade em muitos países dos nossos dias. No universo teocrático chauvinista de Atwood, as conquistas da mulher na sociedade foram completamente destruídas e a atmosfera quotidiana é claustrofóbica e castradora. Importa reter que esta “descida aos infernos” não se realizou do dia para a noite: foi o resultado de uma desvalorização de indícios de totalitarismos e de uma tolerância crescente face às ameaças às liberdades fundamentais dos indivíduos. A opressão normaliza-se, como demonstra a narração de Offred: “Is that how we lived, then? But we lived as usual. Everyone does, most of the time. Whatever is going on is as usual. Even this is as usual, now.”

Para além da forma orgânica como as analepses de Offred são entretecidas na narrativa, sem quebras de qualquer tipo, achei particularmente interessante o pormenor dos nomes atribuídos às Handmaids. O seu nome depende da família que servem, pelo que Offred significa ser “de Fred”, Offglen “de Glen”, e assim por diante. A importância de um nome no estabelecimento de relações de dominância é maior do que pensava, e isso é claro no estatuto de permanente inferioridade e submissão a que as Handmaids são remetidas. O mesmo fenómeno de perda de identidade a favor da ideologia vigente verificou-se, por exemplo, na atribuição de números aos prisioneiros nos campos de concentração nazis.

Em suma, num registo fragmentado que espelha o estado perturbado da mente de Offred, The Handmaid’s Tale é um livro que nos alerta para a ameaça permanente de regimes insensíveis aos direitos fundamentais dos cidadãos, e para quão fácil é atuar como seu conivente ao preferir o conforto da adaptação acrítica ao perigo da subversão.

03
Jul23

“V for Vendetta” – Alan Moore e David Lloyd

Helena

51d-dkgZz5L._AC_UF1000,1000_QL80_.jpg

Na Grã-Bretanha, num futuro distópico que sucede a uma guerra nuclear arrasadora, o fascismo domina as estruturas governativas e as vidas dos cidadãos são permanentemente vigiadas e controladas pelo sistema. Organismos como o Dedo, a Orelha e o Olho garantem que a população é doutrinada na ideologia do regime e que todos cumprem as regras rígidas que lhes são impostas.

Contudo, as condições de vida da população não melhoraram substancialmente com a instauração do novo regime, o que leva pessoas como Evey a tentar ganhar algum dinheiro através da exploração do seu próprio corpo. No entanto, a prostituição não é permitida nesta nova Grã-Bretanha, e Evey teria sido levada pelos vigilantes do governo, não tivesse aparecido V, o protagonista desta história. Esta personagem misteriosa, que se esconde atrás de uma máscara inspirada no ícone da História britânica Guy Fawkes, tem como objetivo a erradicação da presente estrutura governativa e a instauração de uma anarquia, em que a ordem seria natural e voluntária.

A sede de vingança de V atravessa as vinhetas desta banda desenhada, que já é considerada um clássico moderno e uma distopia de leitura essencial.

"Remember, remember the fifth of November of gunpowder treason and plot. I know of no reason why the gunpowder treason should ever be forgot." 

Comecei a ler esta banda desenhada sem saber bem aquilo que me esperava. A primeira metade da história cativou-me imenso, já que não sabia da existência de mais distopias que, como 1984, Admirável Mundo Novo e Fahrenheit 451, criassem um universo dominado pelo fascismo que pudesse constituir a imagem de um futuro próximo tão verosímil. Assim, foi com entusiasmo que fui descobrindo as regras desta sociedade futura, as estruturas que a suportavam e os planos da oposição oculta.

No entanto, a segunda metade da história não correspondeu às minhas expectativas. O enredo tornou-se bastante previsível, já que o método de V para proceder à revolução consistia em matar os membros do governo, um por um. Seria interessante se se tivesse optado por uma explicação mais detalhada acerca do passado de V ou de Evey, o que diversificaria o desenrolar algo monótono da ação. Para além disso, quando a história se encaminha para o final, várias personagens de membros da estrutura governativa intervêm simultaneamente. Tendo em conta que todos são homens brancos muito semelhantes, só com alguma atenção no início da narrativa é possível ter em mente quem é a pessoa que fala e que função é que desempenha no funcionamento do aparelho do estado.

Em suma, esta foi uma boa leitura enquanto incursão num género que não costumo ler, mas que ficou aquém daquilo que, a meu ver, poderia ter sido.

29
Abr23

“Admirável Mundo Novo” – Aldous Huxley

Helena

transferir.png

No ano de 2540 (que corresponde ao ano 632 depois de Ford no universo da narrativa), a sociedade inglesa vive num estado de estabilidade perpétua garantido pelo condicionamento de todos os indivíduos à nascença. Num universo sem os conceitos de mãe e pai, os bebés são gerados e desenvolvidos em provetas, sendo condicionados para desempenharem um determinado papel no futuro que os espera: tornar-se-ão alfas, betas, deltas, gamas ou épsilones, as cinco classes da sociedade rigidamente hierarquizada.

Apesar de todos os procedimentos químicos durante a gestação e das lições a que são sujeitos enquanto dormem, ao longo do crescimento, em alguns alfas, os indivíduos psicologicamente mais autónomos, podem florescer ideais comprometedores para a estabilidade, sensações de vazio que podem levá-los a tomar atitudes indevidas. É o caso de Bernard Marx, um alfa cujo comportamento provocava estranheza entre os seus pares e, consequentemente, o isolava na sua esfera de perplexidade. Bernard não era como as outras pessoas: incomodava-o a presença permanente dos outros, não apreciava os desportos populares, tinha um profundo interesse pelas populações intocadas pela civilização e não era atraído pelo estímulo à manutenção simultânea de múltiplas relações sexuais que todos praticavam.

Apesar de ter sido advertido sobre a possibilidade de ser expulso da civilização no caso de insistir nos seus comportamentos perigosos, Bernard decide levar Lenina, uma delta conhecida por ser especialmente pneumática, a uma reserva de Selvagens, indivíduos alheios aos progressos da civilização. Uma vez aí, são surpreendidos por uma cerimónia religiosa de autoflagelação e conhecem Linda e John, cujo aspeto e ausência de civilidade chocam Lenina profundamente. O plano de Bernard estava em marcha: regressaria a Inglaterra com os dois Selvagens e provaria a todos que existiam outras formas de pensar e de viver. Mas como reagirão os Selvagens à vida em civilização? E estará a sociedade inglesa pronta para lidar corretamente com a chegada de alguém diferente?

“Mas eu não quero o conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o autêntico perigo, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.”

Agora que acrescentei o Admirável Mundo Novo ao meu repertório de distopias, posso concluir que, em comparação com 1984 e Fahrenheit 451, esta é a menos assustadora. Não é preciso esforçar muito a imaginação para conceber um universo em que a engenharia genética determina o futuro dos indivíduos  e em que o espírito crítico é abafado em nome da estabilidade e do conforto.

Contrariamente ao que acontece em “1984”, a sociedade do Admirável Mundo Novo não está sujeita à vigilância permanente dos órgãos estatais, nem pode ser levada para esconderijos de tortura medonhos por contrariar o regime. Enquanto o sistema totalitário de 1984 sobrevive à base da adulteração da verdade, no Admirável Mundo Novo cultiva-se a indiferença face à verdade, uma vez que o conhecimento, a ciência e a crítica constituiriam uma ameaça à estabilidade social. Para além disso, estas distopias opõem-se quanto à opinião social vigente em relação à liberdade sexual. Enquanto os indivíduos de 1984 estavam proibidos de qualquer atividade sexual, com o objetivo de canalizar a energia reprimida para o serviço ao regime, o Admirável Mundo Novo incita a prática de uma atividade sexual intensa, com mais do que um parceiro, e estimulada por suplementos e experiências de cinema sensoriais, para dar aos habitantes uma sensação de permanente prazer e felicidade.

Tendo sido publicado em 1932, Admirável Mundo Novo possui um forte pendor profético no que toca à emergência de regimes totalitários em solo europeu, nomeadamente o fascismo e o estalinismo. Também os regimes fascistas baseavam a sua noção de sociedade na manutenção de uma hierarquia social rígida e inquestionável, sedimentada pela discriminação.

O universo criado por Huxley ecoa nos nossos dias em aspetos como a abundância de medicamentos, suplementos e drogas que elevam o espírito dos doentes ou consumidores, produzindo efeitos semelhantes à soma do universo distópico. Também a completa abominação da solidão é algo que ganha raízes na sociedade dos nossos dias: mesmo que estejamos sozinhos, as novas tecnologias mantêm-nos conectados a um número infinito de pessoas e lugares, de maneira que se torna difícil para alguém ficar completamente só consigo e os seus pensamentos.

Em suma, o Admirável Mundo Novo conta com uma construção de um universo distópico excelente, assim como com discussões de pendor moral e sociológico que despoletam reflexões de interesse e pertinência atuais. Apreciei particularmente a forma como o autor modela a personagem de Bernard, em oposição à personagem plana de John, que, aliás, é apontado como o elemento-chave que está em falta em 1984 – o outsider que tem a capacidade de criticar o universo distópico à luz dos seus preceitos sociais. Apesar de o próprio Huxley admitir que este livro conta com algumas falhas (tais como a bipolaridade demasiado radical dos destinos das personagens), esta é uma leitura essencial para a compreensão da sociedade dos nossos dias e para a prevenção de um futuro sem arte, sem ciência, sem religião, sem literatura e sem o espírito crítico que faz de nós humanos.

05
Out22

"Ensaio sobre a Cegueira" - José Saramago

Helena

Book_cover_of_Ensaio_sobre_a_Cegueira.jpg

Quando uma epidemia de “cegueira branca” começa a espalhar-se pela população de uma cidade fictícia, as autoridades apressam-se a tomar medidas para evitar o contágio generalizado. Os cegos e aqueles que com eles contactaram começam a ser enviados para um manicómio abandonado, situado na periferia, onde terão de viver de acordo com uma série de regras básicas: não podem sair, nem para enterrar os mortos, a comida será entregue à porta, ninguém intervirá em caso de acidente ou desastre… a partir deste momento, estão fora do mundo e fora do tempo.

Isolados neste edifício e presos na luz branca que lhes tomou os olhos, homens e mulheres iniciam uma descida em espiral na escala da dignidade humana, a uma velocidade alucinante que se agrava com a chegada de mais e mais cegos. Com a insuficiência da comida racionada, a falta de higiene e a discrepância entre a atitude dos cegos mais velhos e mais recentes, o egoísmo e a cobiça encontram facilmente o caminho para o controlo do comportamento humano – se é que se pode chamar humano àquele resquício de ser sem passado nem futuro que se arrasta pelos corredores fétidos de um manicómio controlado pela força por dentro e por fora.

Até que ponto podem chegar a brutalidade dos homens face aos mais debilitados e os comportamentos desesperados daqueles que tentam sobreviver?

O Ensaio sobre a Cegueira é uma das obras mais célebres de José Saramago, autor galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998.

Este não é um livro para leitores cuja sensibilidade os impede de suportarem cenas violentas e grotescas. Ao reduzir o homem ao seu reduto mais animalesco, O Ensaio sobre a Cegueira está repleto de passagens fortes, essenciais para a tradução fiel e intensa da crueldade, do egoísmo e da insensibilidade do homem fechado no seu desespero.

Para além de achar particularmente relevante o facto de nenhuma das personagens possuir um nome próprio, tendo o autor optado por designações como “o primeiro cego” ou “o médico”, pelo caráter universal que conferem à história, é impossível não mencionar a singularidade da mulher que, no auge da epidemia de cegueira branca, vê.  Semelhante a Blimunda pela forma como os seus olhos lhe conferem uma posição privilegiada nesta narrativa, a mulher do médico soma-se ao repertório de personagens femininas fortes da obra de Saramago. É a mulher do médico que, através daquilo que vê, orienta o leitor e os cegos pelas ruínas da humanidade em seu redor.  Ao ser capaz de ver num mundo de caos engolido pela cegueira, sofre duplamente os seus efeitos.

“Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem” este excerto de diálogo, juntamente com a epígrafe que precede a narrativa – “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” (Livro dos conselhos) – traduzem a mensagem fundamental desta distopia perturbadora: a humanidade peca por não saber observar verdadeiramente aquilo que a rodeia. Depois desta submersão num universo em que, uma vez perdendo a visão, o Homem perde tudo o que lhe permite ser designado como tal, percebemos que é essencial que se desenvolva a capacidade de atribuir valor às pequenas coisas, a gratidão pela posse de todos os sentidos, e a consciência dos outros e de nós mesmos.

“para poder chegar aonde se quer, tudo depende de onde se esteja.”

04
Mai22

“O Deus das Moscas” – William Golding

Helena

deus.jpg

Um grupo de meninos que sobreviveram à queda de um avião veem-se reunidos numa ilha deserta, sem quaisquer adultos que os supervisionem ou orientem. À partida, este seria o sonho de qualquer criança: um período indefinido de liberdade ilimitada. Com efeito, as crianças começam de imediato a construir a sua própria sociedade: elegem um líder, definem o método para a convocação de assembleias e atribuem funções. No entanto, a ilusão de um mundo ideal rapidamente se desmorona.

À medida que a ação se desenrola e as prioridades das crianças na ilha começam a divergir, o instinto selvagem de cada uma começa a vir ao de cima e a lei da sobrevivência a todo o custo acaba por se sobrepor a todas as outras. Afinal, as crianças podem ser cruéis e egoístas, e nada melhor para despertar a sua natureza mais profunda do que um terror irracional em relação a algo que desconhecem – e a possibilidade da presença de um monstro na ilha paira permanentemente sobre as mentes de todos os rapazes.

“Ralph chorou pelo fim da inocência, pelas trevas do coração do homem”

O Deus das Moscas é uma distopia escrita por William Golding em 1954. Esta história é considerada por muitos um testemunho chocante da crueldade humana, mas não consegui envolver-me o suficiente na narrativa para me sentir verdadeiramente horrificada por ela.

Este livro pode ser interpretado como uma alegoria que foi mudando de significado ao longo do tempo. Este grupo de crianças é um retrato cru do poder dos instintos primitivos do homem, e da influência que a ambição pode ter no caráter e nas ações do indivíduo. O conflito que divide os rapazes e os leva a perder por completo os seus escrúpulos pode remeter para a irracionalidade da guerra. Até as personagens podem ser vistas como representações de tipos sociais: Ralph desempenha o papel das expectativas sociais, Piggy é uma espécie de consciência e Jack personifica a natureza mais violenta e primitiva do Homem.

Apesar de considerar que esta história parte de um argumento com muito potencial e é suscetível de uma análise simbólica que lhe acrescenta profundidade, não consegui desfrutar da forma como foi concretizada. A ação perde-se entre descrições desnecessárias da ilha, diálogos vagos e debates repetitivos que aborrecem o leitor. A maior parte do livro prende-se com discussões acerca da necessidade de manter uma fogueira, da vontade de caçar, da ameaça do monstro e de quem tem o búzio cuja posse lhe dá permissão para falar. Se a narração estivesse focada noutros pontos da vida dos rapazes na ilha, seria certamente mais cativante.

No geral, fiquei com a sensação de que todo o livro é vago: as conversas, os acontecimentos, as reações aos acontecimentos, tudo é concretizado por meias palavras e frases incompletas que me impediram de perceber a ação que estava a decorrer. Para além disso, há demasiadas pontas soltas: como surgiu o cadáver que oscilava no cimo da montanha? O que aconteceu no episódio de alucinação de Simon? Para onde foi o menino da mancha na cara? Em vez disso, somos repetidamente informados acerca da extensão do areal da praia.

Em conclusão, penso que este é um livro que parte de um conceito promissor e que encerra uma alegoria de elevada importância, mas que peca pela concretização imperfeita.

“Parou de remexer no dente e ficou quieto, a assimilar as possibilidades da autoridade irresponsável.”

27
Jul21

“1984” – George Orwell

Helena

1984.jpg

No ano de 1984, no superestado da Oceânia, nada resta do mundo como hoje o conhecemos – pelo menos, nada do que nos pareceria importante para o bem-estar de qualquer sociedade. Em cada canto, um telecrã a vigiar todos os movimentos de todos os cidadãos. Em cada casa, a total ausência de lealdade familiar, com as crianças a serem educadas para denunciarem os próprios pais à mínima suspeita. No cinema, filmes baseados na violência gratuita e na propaganda. Na conjuntura internacional, uma guerra permanente e infrutífera. Em todos os muros, a imagem do Grande Irmão, a encarnação do Partido, infalível, imortal.

É neste mundo que vive Winston Smith, um membro do Partido Externo que trabalha no Ministério da Verdade, no Departamento dos Arquivos. A sua função é alterar os documentos antigos que põem em causa a infalibilidade do Partido. Por exemplo, se tinha sido previsto um aumento de 50% na produção de botas e esta só tivesse crescido 30%, o Departamento dos Arquivos devia alterar todos os registos da antiga declaração do Partido para que os resultados superassem o que tinha sido previsto.

Ao contrário da esmagadora maioria da população, Winston tem consciência de como a classe dirigente altera o passado e da cegueira dos populares, tão embrenhados no duplopensar que não se apercebem da manipulação de que são vítimas.

Apesar de saber que a sua atitude se encaixa perfeitamente no conceito de pensarcrime, o que, mais tarde ou mais cedo, lhe custará a vida, Winston está decidido a fazer a diferença e a contribuir para o restabelecimento de um Estado livre, objetivo e igualitário. Mas será possível escapar às garras da Polícia do Pensamento? Serão as suas convicções firmes o suficiente para não se deixarem abalar pela influência omnipresente e esmagadora do Partido?

A última e mais célebre obra de Orwell leva-nos numa viagem ao futuro distópico que aguarda a civilização moderna. No seu típico registo lúcido e fascinante, Orwell constrói aquilo que ele próprio denominou uma “sátira”, que funciona como um sinal de alerta: “olhem o que vos acontecerá se não fizerem nada para o evitar”. Num mundo em que é tão fácil difundir um ideal pelas massas, em que somos escrutinados pelos algoritmos das redes sociais, em que se assiste ao aumento dos adeptos de extremismos, a leitura de 1984 é especialmente pertinente.

A minha primeira impressão deste livro não foi muito positiva. Para além de considerar que a voz de Orwell é mais cativante nos seus ensaios, sendo menos adequada a narrativas, achei que a personagem principal era muito fraca. Winston, apesar de idealista, não tem força suficiente para se afirmar e para assumir uma posição clara face ao dilema com que é confrontado. No entanto, com o avançar da leitura, fui percebendo que não poderia ser de outra maneira, uma vez que Winston é o fruto do meio em que está inserido – um meio opressivo, repressivo, intolerante e em vigilância permanente. Assim, numa narrativa focada na experiência de Winston, partilhamos as suas sensações, quase sentindo na pele o efeito esmagador de um Estado regido pela manutenção da desigualdade, pela adulteração dos factos e pelo controlo total dos cidadãos arregimentados.

Em 1984, o típico discurso anti totalitarista do autor alia-se à sua considerável capacidade criativa. Orwell não se limitou apenas a profetizar o futuro de uma sociedade consumida pelo autoritarismo e por valores desumanos, como também construiu integralmente elementos sobre os quais esse futuro se alicerça. Este é o caso da novilíngua, a única língua cujo vocabulário se reduz ao longo do tempo, a fim de limitar os meios de expressão dos cidadãos e a sua capacidade de formularem pensamentos críticos. Orwell redige também excertos do livro de Goldstein, o líder da conspiração contra o regime, e é nele que assume a sua faceta de ensaísta e elabora uma análise social coerente de um mundo ainda por vir.

Em conclusão, o objetivo do 1984 encontra-se muito além da crítica ao regime estalinista em vigor aquando da data da sua publicação. 1984 é um futuro possível, uma hipótese aterradora que nos cabe evitar que se torne realidade.

big brother.jpeg

 

20
Mar20

"Fahrenheit 451" - Ray Bradbury

Helena

fahren.jpg

“451º F: temperatura a que o papel dos livros atinge o ponto de ignição e é consumido pelo fogo.”

Guy Montag, a personagem principal desta história, é bombeiro. Contudo, nesta cidade de um futuro distópico, a função dos bombeiros não é apagar fogos, mas sim queimar livros proibidos e as casas daqueles que os escondem. Este é um trabalho que Guy desempenha com prazer e sem levantar qualquer objeção ou dúvida, até conhecer Clarice McClellan. A rapariga de 17 anos, que se autointitula “meio louca”, apresenta a Montag uma perspetiva diferente em relação à vida, em que se presta atenção aos detalhes, em que se tira tempo para pensar, em que se aprecia a Natureza e em que se questionam as normas sociais passivamente aceites pelas massas. O colapso das convicções de Montag dá-se após o incêndio da casa de uma velha que guardava livros. Contrariamente ao que costumava acontecer, a idosa recusou-se a abandonar a casa, tendo sido queimada juntamente com os livros. Tal sacrifício faz com que Guy se interrogue acerca do que terão os livros de tão importante para que haja pessoas dispostas a dar a vida por eles. Assim, o desenrolar do livro assenta no despertar de Montag para o mundo da literatura e na sua tomada de consciência acerca do que o rodeia: uma sociedade oca, egocêntrica, insensível e imediatista, um mundo superpovoado, a abundância de tempo livre, que não é sinónimo de tempo para pensar, e a desvalorização de tudo o que exija um processo de reflexão e espírito crítico.

Este livro foi escrito em 1953 e o mundo de alienação que retrata é assustadoramente semelhante ao atual. Desde as “Conchas” que as pessoas utilizavam permanentemente nos ouvidos (comparáveis aos earphones de hoje), até ao encurtamento das manifestações culturais (“novelas de cinco minutos”) e à dificuldade em manter a concentração por muito tempo ou em alimentar uma conversa, as diretrizes da sociedade hedonista do futuro projetada por Bradbury não tardarão a encontrar correspondência na realidade, se a nossa evolução continuar neste sentido. Por isso, considero de extrema importância a leitura de livros como este, após a qual todos ficamos mais atentos às nossas atitudes e adotamos uma posição mais crítica em relação à ação das massas. Ainda podemos evitar a transformação do mundo que conhecemos num enredo de um livro de ficção científica.

Para além de ser um alerta para o esmorecimento dos valores da sociedade, esta obra é um louvor aos livros, ao seu poder de preencher os leitores, de suscitar reflexões, de transportar quem os lê para um universo paralelo e para nos munir da arma mais poderosa de todas: o conhecimento.

É uma apologia às manifestações culturais, à apreciação da Natureza e à valorização dos momentos de solidão e silêncio. Uma obra de leitura que considero obrigatória, que nos faz refletir acerca do caminho que a sociedade toma nos dias de hoje.

“Olha, olha, o homem está a pensar!”

“vivemos na era do lenço descartável. Assoamos o nariz em alguém, apertamo-lo numa bola, atiramo-lo fora, pegamos noutro, assoamos, fazemos uma bola, atiramos fora”

“Porque hoje toda a gente sabe, com absoluta certeza, que nada me acontece. Só os outros morrem, eu não. Não há consequências nem responsabilidades. (…) O problema é que, quando as consequências o atingem, já é tarde de mais”

“ninguém é uma ilha isolada, mas algumas pessoas são livros.” (Posfácio)

Mais sobre mim

Arquivo

    1. 2024
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2023
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Pesquisar

Bem vindo

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.