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H-orizontes

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16
Jul20

"El Prisionero del Cielo" – Carlos Ruiz Zafón

Helena

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O terceiro volume da saga do Cemitério dos Livros Esquecidos leva-nos à livraria Sempere e Filhos, na Barcelona natalícia de 1957. A ação deste livro inicia-se com a visita de um misterioso velho à livraria, com o objetivo de falar com Fermín. Este ficou visivelmente perturbado quando Daniel o informou da visita do estranho, a quem faltava uma mão e vários dedos da outra, e lhe entregou o livro com uma dedicatória que o velho tinha deixado para ele: “Para Fermín Romero de Torres, que regresó de entre los muertos y tiene la llave del futuro. 13.” O aparecimento do mutilado proporciona a Daniel a oportunidade de ficar a conhecer a verdade sobre o passado de Fermín, uma narrativa que ocupa cerca de metade do romance. Através dela, somos inteirados da temporada que Fermín passou encerrado em Montjuïc e durante a qual travou conhecimento com David Martín, escritor maldito e personagem principal de O Jogo do Anjo, que antecede O Prisioneiro do Céu na tetralogia.

O principal intuito deste livro é transmitir, através de uma analepse e de um narrador heterodiegético, o percurso de Martín após ter regressado a Barcelona e ter sido preso em Montjuïc, assim como o modo como a sua loucura o consumia a olhos vistos.

Embora possa parecer que Fermín é a personagem principal desta história, aquele que realmente guarda as chaves dos segredos da família Sempere é David Martín, o Prisioneiro do Céu.

Este é o livro mais simples da tetralogia, bem como o menos emocionante. Isto deve-se ao facto de o enredo não ser tão intrincado como nos outros volumes. Para além disso, não tememos pela vida das personagens, uma vez que estão presentes em romances anteriores, que remetem para períodos posteriores ao da narração desta história. Ainda assim, considero este livro muito importante para a compreensão do universo do Cemitério dos Livros Esquecidos e para a caracterização de algumas das suas personagens.

Gostei especialmente de reconhecer, no epílogo, um episódio que pertence ao livro seguinte (O Labirinto dos Espíritos), estabelecendo uma relação de complementaridade entre os volumes.

Reler esta saga tem-me permitido prestar mais atenção aos detalhes e à maneira como as histórias se organizam a nível cronológico. Este processo leva-me a compreender a tetralogia na globalidade, mas também a detetar algumas incoerências. Considero que o epílogo de O Jogo do Anjo deve, para muitos efeitos, ser ignorado, uma vez que é a principal peça que se recusa a encaixar corretamente na sequência da narrativa. Em O Prisioneiro do Céu, somos inteirados da escrita de O Jogo do Anjo, por David Martín, enquanto este se encontrava preso em Montjuïc, entre 1939 e 1941. No entanto, o epílogo do segundo volume da saga refere que Martín o escreveu numa casa junto ao mar, em 1945. Mais uma vez, é-nos impossível perceber se a incoerência se deve à loucura de David Martín ou a um lapso do autor.

Em suma, O Prisioneiro do Céu é um livro curto e acessível que serve eficazmente de ponte entre os romances anteriores e o desfecho da tetralogia.

“El futuro no se desea; se merece.”

Relacionados:

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11
Jul20

"O Jogo do Anjo" - Carlos Ruiz Zafón

Helena

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Barcelona, 1917. O jovem David Martín recebe pela primeira vez uma remuneração pelo seu trabalho enquanto escritor, no pequeno jornal La Voz de la Industria. Com esta conquista, David inicia uma carreira de produtividade e popularidade crescentes, primeiro com Os Mistérios de Barcelona e, mais tarde, na editora Barrido e Escobillas, com A Cidade dos Malditos, sob o pseudónimo de Ignatius B. Samson.

É através das suas publicações que capta a atenção de um misterioso editor, Andreas Corelli, que o convoca para um encontro invulgar. Corelli propõe-lhe que rompa o contrato com a Barrido e Escobillas e que passe a trabalhar para ele, escrevendo um livro que encerrasse uma nova e revolucionária religião. David não apresenta uma decisão definitiva ao editor e, inexplicavelmente, um incêndio consome o edifício da Barrido e Escobillas nessa noite, matando os dois editores e dissolvendo automaticamente o vínculo que restringia o jovem romancista.

As coincidências acumulam-se e culminam quando David descobre que o falecido Diego Marlasca, antigo proprietário da casa para onde se mudara recentemente, tinha estado também envolvido num contrato obscuro que tinha por objetivo a escrita de um livro religioso e que o conduzira à loucura.

Apercebendo-se de que se entranhava cada vez mais na mesma armadilha em que Marlasca caíra, David começa a investigar obstinadamente a identidade de Corelli e a história do escritor amaldiçoado, apesar do rasto de sangue que vai deixando atrás de si.

Paralelamente à intriga principal, a jovem Isabella entra na vida do escritor como sua aprendiz, e a paixão desmesurada por Cristina Sagnier, a protegida do seu mentor, Pedro Vidal, acompanha-o e perturba-o permanentemente.

Esta é uma história de amor, traição, ódio, maldições, obstinação e loucura que nos insere na mente de David Martín, enquanto narrador autodiegético.

“O segundo tomo, empapado num sabor mórbido e sinistro destinado a espicaçar os leitores de bons costumes, relataria a macabra peripécia vital de um romancista maldito, cortesia de David Martín, que relataria na primeira pessoa como perdia a razão e nos arrastava na descida aos infernos da sua própria loucura para se tornar um narrador menos fiável do que o príncipe dos infernos, que também se passearia pelas suas páginas. Ou talvez não, porque tudo não passava de um jogo em que seria o leitor a completar o quebra-cabeças e a decidir que livro estava a ler.” Este resumo de “O Jogo do Anjo” que Zafón faz em “O Labirinto dos Espíritos” encaixa-se perfeitamente naquilo que o livro é e nas impressões que deixa no leitor.

Confirmei, com esta releitura, que este é o volume de que menos gosto da tetralogia do “Cemitério dos Livros Esquecidos”. Para além de ser confuso, na medida em que é difícil perceber onde acaba o relato dos factos e começam os devaneios da loucura de David Martín, tem pontas soltas que, contrariamente ao que eu esperava, não são atadas nos restantes volumes da saga.

Ao reler este romance, tive a sensação de que Zafón destina invariavelmente a maioria das personagens à morte. Contam-se pelos dedos aquelas que têm uma história que se prolonga para lá da intriga – ou seja, que não morrem queimados, envenenados ou baleados -, o que considero algo limitativo para a sua complexidade.

Este livro tem, de facto, de ser encarado como o produto de uma alma que se adentra na sua própria demência, caso contrário os pormenores bizarros e quase sem sentido que vão surgindo levarão o leitor à frustração.

O prazer da leitura foi-me tolhido, não só pelas inúmeras questões que se levantavam e eram deixadas sem respostas, mas também pela tradução que li, em que surgiam ocasionalmente gralhas e que não parecia transmitir fielmente a magia da escrita de Zafón.

Os pontos positivos que tenho a apontar são os momentos de suspense, as reviravoltas da trama, o facto de os capítulos serem curtos e a oportunidade que este volume nos proporciona de ficarmos a conhecer melhor uma das personagens mais importantes da saga através do seu próprio ponto de vista.

Em conclusão, este não é, de longe, o melhor e mais bem construído livro de Zafón, apesar de nos apresentar personagens essenciais para a tetralogia e de nos cativar pelo seu enredo misterioso.

“As pessoas normais trazem filhos ao mundo; nós, os romancistas, trazemos livros.”

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