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H-orizontes

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28
Jul20

"A Sombra do Vento" - Carlos Ruiz Zafón

Helena

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No dia em que Daniel Sempere, a personagem principal do mais célebre romance de Carlos Ruiz Zafón, acorda em pânico por não se recordar do aspeto da sua falecida mãe, o seu pai decide revelar-lhe algo que mudará para sempre a sua vida: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Esta biblioteca escondida nas entranhas de Barcelona é um grande reservatório de todos os livros alguma vez escritos, onde se garante que nenhum deles será destruído ou cairá no perpétuo esquecimento. Daniel abandona o Cemitério com A Sombra do Vento, de Julián Carax, debaixo do braço e, quando começa a lê-lo, é irremediavelmente absorvido pela sua história.

Com o passar do tempo, Daniel descobre que tem em sua posse um exemplar de valor extraordinário de uma obra de um autor misterioso, cuja história ainda paira sobre Barcelona, difusa como a neblina. Decidido a compreender os meandros daquele mistério, o jovem Sempere começa a sua investigação junto de Clara Barceló, uma rapariga cega que rapidamente se torna a sua primeira paixão. À medida que vai descobrindo a bizarra história de Carax, através de relatos daqueles que tinham contactado com ele, Daniel deteta semelhanças perturbadoras entre ele e o escritor, o que apenas o motiva mais na sua busca.

Apesar de todos os riscos que lhe são inerentes, Daniel penetrará num labirinto de mistérios, intrigas e histórias de amor, que o levará a desvendar os segredos de Barcelona.

“(…) poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que de facto abre caminho até ao seu coração.”

Apesar de o considerar muito menos intenso e entusiasmante do que Marina ou O Labirinto dos Espíritos, reconheço que A Sombra do Vento é o romance mais bem escrito de Zafón.

Para além da sua construção impecável, sem deixar pontas soltas e desvendando o mistério aos poucos, este livro é marcado pelo estilo fenomenal do autor. Zafón tem um poder incrível de transmissão de sensações através das palavras. Proliferam os recursos expressivos e as frases marcantes, e somos envolvidos pelo enredo, tal como Daniel aquando da leitura do seu A Sombra do Vento. Graças à construção impecável das personagens, estabelecemos fortes laços de amizade com elas, desde Fermín Romero de Torres, um mendigo do pós-guerra, até Julián Carax, o escritor maldito cuja alma atravessa as páginas deste livro.

É difícil abordar todas as esferas que compõem este romance, pois são muitas e variadas. As minhas partes preferidas são as que constituem picos de adrenalina, como o encontro de Daniel com o sinistro ser que quer queimar todos os livros de Carax, as analepses em que somos inteirados da história da vida do escritor maldito e as cenas referentes aos amores atribulados de Daniel e Beatriz Aguilar.

No primeiro volume da tetralogia do Cemitério dos Livros Esquecidos, Zafón conjuga magistralmente os valores do amor, da amizade, da coragem e do gosto pela leitura.

"Há prisões piores que as palavras."

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16
Jul20

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Helena

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O terceiro volume da saga do Cemitério dos Livros Esquecidos leva-nos à livraria Sempere e Filhos, na Barcelona natalícia de 1957. A ação deste livro inicia-se com a visita de um misterioso velho à livraria, com o objetivo de falar com Fermín. Este ficou visivelmente perturbado quando Daniel o informou da visita do estranho, a quem faltava uma mão e vários dedos da outra, e lhe entregou o livro com uma dedicatória que o velho tinha deixado para ele: “Para Fermín Romero de Torres, que regresó de entre los muertos y tiene la llave del futuro. 13.” O aparecimento do mutilado proporciona a Daniel a oportunidade de ficar a conhecer a verdade sobre o passado de Fermín, uma narrativa que ocupa cerca de metade do romance. Através dela, somos inteirados da temporada que Fermín passou encerrado em Montjuïc e durante a qual travou conhecimento com David Martín, escritor maldito e personagem principal de O Jogo do Anjo, que antecede O Prisioneiro do Céu na tetralogia.

O principal intuito deste livro é transmitir, através de uma analepse e de um narrador heterodiegético, o percurso de Martín após ter regressado a Barcelona e ter sido preso em Montjuïc, assim como o modo como a sua loucura o consumia a olhos vistos.

Embora possa parecer que Fermín é a personagem principal desta história, aquele que realmente guarda as chaves dos segredos da família Sempere é David Martín, o Prisioneiro do Céu.

Este é o livro mais simples da tetralogia, bem como o menos emocionante. Isto deve-se ao facto de o enredo não ser tão intrincado como nos outros volumes. Para além disso, não tememos pela vida das personagens, uma vez que estão presentes em romances anteriores, que remetem para períodos posteriores ao da narração desta história. Ainda assim, considero este livro muito importante para a compreensão do universo do Cemitério dos Livros Esquecidos e para a caracterização de algumas das suas personagens.

Gostei especialmente de reconhecer, no epílogo, um episódio que pertence ao livro seguinte (O Labirinto dos Espíritos), estabelecendo uma relação de complementaridade entre os volumes.

Reler esta saga tem-me permitido prestar mais atenção aos detalhes e à maneira como as histórias se organizam a nível cronológico. Este processo leva-me a compreender a tetralogia na globalidade, mas também a detetar algumas incoerências. Considero que o epílogo de O Jogo do Anjo deve, para muitos efeitos, ser ignorado, uma vez que é a principal peça que se recusa a encaixar corretamente na sequência da narrativa. Em O Prisioneiro do Céu, somos inteirados da escrita de O Jogo do Anjo, por David Martín, enquanto este se encontrava preso em Montjuïc, entre 1939 e 1941. No entanto, o epílogo do segundo volume da saga refere que Martín o escreveu numa casa junto ao mar, em 1945. Mais uma vez, é-nos impossível perceber se a incoerência se deve à loucura de David Martín ou a um lapso do autor.

Em suma, O Prisioneiro do Céu é um livro curto e acessível que serve eficazmente de ponte entre os romances anteriores e o desfecho da tetralogia.

“El futuro no se desea; se merece.”

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29
Jun20

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Helena

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O volume que remata a saga do “Cemitério dos Livros Esquecidos” é um livro fantástico, sem o qual, como dizia Zafón, é impossível compreender por completo o universo que a tetralogia encerra.

O início da narração data do fim da década de 1950 e é feita na primeira pessoa por Daniel Sempere, o livreiro já conhecido e tão querido pelos leitores da saga do “Cemitério dos Livros Esquecidos”. No entanto, a ação principal da obra é introduzida por uma analepse que nos leva aos bombardeamentos de Barcelona de março de 1938. É num clima de guerra civil que Fermín Romero de Torres regressa clandestinamente a Barcelona, a fim de comunicar a uma amiga de longa data a morte do seu marido. Os bombardeamentos atingiram o edifício em que Fermín se encontrava com a família do falecido. Foi graças a ele que Alicia Gris, a filha do seu colega, sobreviveu à tragédia, ainda que com um ferimento profundo na anca que a faria sofrer durante toda a sua vida. O tronco da história segue os passos de Alicia, o seu recrutamento, por Leandro, o seu mentor, para uma agência de investigação secreta e a atribuição à rapariga de um caso muito peculiar: o desaparecimento do ministro Valls, outrora diretor da prisão de Montjuïc. Juntamente com o capitão Vargas, da Jefatura, Alicia parte para Barcelona, para seguir um rasto que acaba por levá-la a descobertas que estava longe de imaginar. O caso do desaparecimento não é tão simples como parecia e uma teia de relações cada vez maior acaba por abarcar a família Sempere, David Martín, Miguel Ángel Ubach, o advogado Brians e a família de mais um autor maldito de Barcelona, Victor Mataix, pondo em risco a sua segurança e as suas vidas. A névoa difusa do pós-guerra encobriu estratagemas fraudulentos, crimes, assassinatos e jogos de poder que são revelados aos poucos e encerram a solução de enigmas que pairaram durante décadas sobre Barcelona, o labirinto dos espíritos.

Não tenho a mais pequena dúvida de que a leitura deste livro ficará guardada na minha memória para sempre. Isso deve-se especialmente ao facto de, estando eu a meio da leitura do romance, Carlos Ruiz Zafón ter falecido, vítima de cancro. A notícia da sua morte deixou-me profundamente triste, e não pude deixar de chorar umas lágrimas copiosas ao ler a última página e compreender que este foi o último livro de Zafón que li pela primeira vez, dado que já li todos os outros romances que escreveu. Devo dizer que, ainda que a tristeza tenha marcado a leitura do final do livro, não havia melhor maneira de acabar esta primeira viagem pelas obras de Zafón.

Este romance é incrível e cativou-me imenso, tendo lido as suas 845 páginas num período de tempo invulgarmente curto. De facto, este é o tomo mais extenso da saga, assim como o mais intenso e violento (inclusive em termos de vocabulário). O leitor fica colado às páginas desde o primeiro momento, absorvido pela escrita prodigiosa de Zafón, repleta de figuras de estilo e formas de expressão por que me apaixono uma e outra vez. Com o adensar da narrativa, este romance espicaça a nossa curiosidade e impaciência face ao mistério a resolver, assim como à extensa teia de personagens entre as quais vamos descobrindo as ligações, fascinados. A progressão da ação é constante, pelo que não existem momentos mortos ou desnecessários para a construção do mundo do “Cemitério dos Livros Esquecidos”.

As cenas de perseguições, torturas e assassinatos fazem com que os níveis de adrenalina disparem para valores comparáveis aos da visualização de um filme de ação como Tomb Raider. As descrições são tão realistas que até nos esquecemos de que temos um livro nas mãos, porque a ação parece desenrolar-se fluidamente na nossa imaginação.

Algo que admiro imenso em Zafón é a sua determinação em introduzir nas personagens dos seus romances o gosto pela leitura, um hábito a que é conferida especial importância ao longo desta saga.

As personagens roçam a perfeição, tendo cada uma delas um caráter vincado e uma determinada história de vida, mesmo que se trate apenas de uns simples editores referidos num relato ou de um jornalista que providencia alguma informação para a investigação.

A minha personagem preferida é, provavelmente, Fermín Romero de Torres. Para além de ter uma vida marcada por reviravoltas sucessivas, Fermín é uma personagem profundamente culta e bem-disposta, cujas falas me põem sempre um sorriso nos lábios e me obrigam a fazer incursões ao dicionário. É, no fundo, a voz da consciência nesta história, para além de lhe acrescentar momentos de humor que a equilibram.

Ainda que Zafón refira que “Uma história não tem princípio nem fim, só portas de entrada”, recomendo que esta saga seja lida na sequência em que foi publicada (A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo, O Prisioneiro do Céu e O Labirinto dos Espíritos).

O único ponto negativo que tenho a apontar neste livro é a quantidade de gralhas que encontrei na edição que li (Editorial Planeta, 1ª edição).

Após a leitura desta obra, reafirmo que Carlos Ruiz Zafón é o meu autor favorito e que tenho uma admiração sem limites pela sua capacidade de criação de uma trama tão bem distribuída e interligada ao longo de quatro magníficos tomos que, decerto, relerei muitas vezes ao longo da vida.

Na falta de vocábulos que me permitam expressar fielmente todas as impressões que esta obra despertou em mim, espero sinceramente que a leiam e que possam sentir-se tão em casa entre as suas páginas como eu.

"As recordações que enterramos no silêncio são aquelas que nunca deixam de nos perseguir."

"Um roteiro é o que as pessoas inventam quando não sabem muito bem para onde vão e desse modo se convencem e a alguns outros patetas de que se dirigem para um sítio qualquer."

"a doença mais difícil de curar é o hábito"

"Doña Lorena dizia que o nível de barbárie de uma sociedade se mede pela distância que tenta pôr entre as mulheres e os livros."

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