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H-orizontes

H-orizontes

12
Ago22

“A mãe de Frankenstein” – Almudena Grandes

Helena

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Em 1954, Germán Velásquez Martín regressa a Madrid depois do exílio na Suíça a que a vitória de Franco o obrigara. Psiquiatra de renome nas clínicas suíças, Germán troca a estabilidade de um país neutro pela rudeza da sua terra natal, para onde pretendia levar a descoberta que o celebrizara no estrangeiro: a cloropromazina, uma substância que se provara eficaz na cura de sintomas graves de esquizofrenia. O que Gérman não sabe é que, em Ciempozuelos, no manicómio feminino onde aceitara trabalhar, encontrará uma mulher que não esquecera desde a sua infância: Aurora Rodriguez Carballeira, a célebre eugenista que assassinara a própria filha por se considerar no direito de destruir a obra imperfeita que ela própria criara.

A descoberta inesperada da mulher cuja perturbação psíquica o fascinara tanto que o levara a escolher uma carreira na psiquiatria não só lhe permite recuperar e revitalizar o processo clínico de Aurora, que tinha caído no esquecimento dos médicos, mas também o leva a conhecer pessoas que influenciarão profundamente o seu regresso a Madrid. É o caso de Maria Castéjon, a filha do antigo jardineiro do manicómio que aproveitava o seu pouco tempo livre para ler em voz alta para Aurora, torna-se a sua melhor amiga.

Assim, cada uma à sua maneira, todas as personagens vão revelando a Germán aquilo que, até aqui, ele se recusava a entender: a Espanha não é a Suíça, e a arbitrariedade autoritária do estado nacional-católico destrói tudo aquilo em que toca.

“Las ilusiones son más venenosas que los pesticidas, pero cuando se comparten, mejoran mucho.”

Este foi o último livro publicado por Almudena Grandes antes da sua morte, em 2021. O quinto volume da série Episódios de uma Guerra Interminável volta a levar-nos aos tempos atribulados do pós-guerra civil espanhola e aos meandros da vida quotidiana daqueles a quem o franquismo virou o mundo do avesso. Desta vez, Almudena escolhe para palco da narrativa o manicómio feminino de Ciempozuelos, nos arredores de Madrid. Apesar de ser um edifício isolado, povoado por pessoas repudiadas e esquecidas pelo resto do mundo, o manicómio apresenta-se como uma miniatura da sociedade espanhola sob o controlo de Franco. Para além de ter por base uma hierarquia rígida que determinava os aposentos, o tratamento e as refeições das pacientes, o manicómio também estava sujeito aos caprichos e jogos de poder dos responsáveis do Estado.

Noutra face deste retrato da opressão encontramos as personagens femininas, todas elas figuras fortes a quem o estado nacional-católico impingira uma vida que não deixava espaço para o livre-arbítrio.

A genialidade deste livro está na forma como Almudena tece um enredo que se desdobra em muitos enredos paralelos. Esta não é apenas a história da mulher louca que matou a filha por achar que não era perfeita o suficiente para salvar a Humanidade, e que depois tentou dar vida a bonecos de pano a fim de poder cumprir a mesma função – qual doutor Frankenstein com a sua criação. Esta também é a história de uma menina a quem os avós nunca contaram que os pais faleceram porque o amor que os unia nada interessava aos assassinos em massa comandados por Franco. A história de uma família alemã judia que se viu obrigada a fugir para a Suíça para evitar o destino que condenou tantos como eles. A história de um psiquiatra que nunca teve jeito para mulheres e que descobre no meio da escuridão da ditadura uma luz de sinceridade e compaixão. As linhas entrelaçadas de uma teia de histórias narradas a três vozes dão forma a uma imagem única e inolvidável das vidas perdidas e renovadas da década de 1950.

O único defeito deste livro é não se prolongar infinitamente para que não tenhamos de nos despedir das personagens cujas vidas partilhamos durante esta viagem ao século passado.

“todos vivimos en un cementerio, pero algunos estamos vivos todavía.”

“un fracaso compartido une más que una victoria común.”

27
Jul22

“The Body” – Stephen King

Helena

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No verão de 1959, Gordon Lachance e o seu grupo de amigos decidem partir numa expedição à procura do corpo de um rapaz que tinha desaparecido alguns dias antes. Vern, um dos amigos de Gordon, tinha ouvido uma conversa do seu irmão em que ele se mostrara aflito por ter encontrado o cadáver da criança desaparecida perto dos carris na floresta de Castle Rock. Como a descoberta se deu enquanto conduzia um carro roubado, o irmão de Vern não pudera reportar o caso às autoridades. Assim, imaginando antecipadamente a fama e a glória que ganhariam por descobrirem e entregarem o corpo do desaparecido, Gordon, Vern, Chris e Teddy partem de mochila às costas, com um cantil e algumas moedas, para uma aventura mais perigosa do que esperavam, que trará ao de cima o verdadeiro caráter de cada um.

“Friends come in and out of your life like busboys in a restaurant, did you ever notice that?”

Este livro, publicado em 1982 como parte da saga Quatro Estações, é surpreendentemente diferente do género que celebrizou Stephen King. Em The Body, somos confrontados com a jornada inocente de um grupo de amigos que se transforma num momento de passagem entre a inconsciência da infância e o início da maturidade. Assim, as personagens desta “coming-of-age story” deparam-se pela primeira vez com a realidade da morte, com os desafios da sobrevivência e com escolhas que têm de fazer independentemente das dos seus amigos.

Para além de ser uma narrativa curta sobre o crescimento e o processo de autodescoberta de crianças com passados conturbados, The Body abarca ainda a visão do mundo na perspetiva de um jovem escritor. Gordon, o narrador que constrói esta espécie de “memoir”, reflete não só acerca das duas faces do fluxo permanente da imaginação de um escritor, mas também sobre as expectativas a que é submetido por parte do público e dos editores.

Esta história conta com a adaptação cinematográfica de 1986 Stand by me, um filme fiel ao original que marcou a identidade de uma geração.

“because the rite of passage is a magic corridor and so we always provide an aisle – it’s what you walk down when you get married, what they carry you down when you get buried.”

25
Jul22

“os meus sentimentos” – Dulce Maria Cardoso

Helena

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Violeta (“um nome de flor que também é uma cor”) avança pela estrada numa noite particularmente especial: depois de ter vendido a casa em que vivera durante toda a sua infância, deparava-se com a oportunidade de mudar a sua vida para sempre. Contudo, na escuridão de uma noite de chuva, Violeta sofre um acidente e dá consigo de cabeça para baixo, de olhos vidrados numa gota de água que se recusa a escorrer pelo vidro.

Presa num carro entre a vida e a morte, permite-se voltar atrás no tempo, revisitando momentos do passado mais próximo e mais distante que, de uma forma ou de outra, moldaram a sua identidade. Filha de apoiantes de Salazar condenados ao desprezo depois da revolução, dotada de uma personalidade invulgarmente ordinária que chocava todos os que a rodeavam, mãe solteira da Dora, que a despreza e se recusa a aceitar que é impossível para um filho odiar verdadeiramente os seus progenitores. Numa torrente contínua de pensamentos, Violeta dá voz a uma mulher incompreendida, menosprezada e posta de parte que não conseguiu escapar às repercussões de um crescimento no seio de uma família em frágil equilíbrio afetivo e social.

“o passado não tem sítio, a única vantagem do passado é não existir em lado algum”

Este não é um livro recomendável para os leitores que procuram personagens com que podem estabelecer uma relação de empatia. As personagens de “os meus sentimentos” estão repletas de falhas, assim como as relações que estabelecem entre si. Os protagonistas desta história sofrem não só com problemas da esfera pessoal, como a sua realização profissional e as suas relações familiares, como com problemas da esfera social, fruto da forma como são vistas e tratadas por uma sociedade com modelos físicos e éticos rigidamente definidos. A narradora acaba por demonstrar que, de facto, “as pessoas têm existências intermitentes”, sendo que a mesma pessoa é definida de formas completamente diferentes consoante o ponto de vista de alguém com quem partilhou um fragmento de existência.

Dulce Maria Cardoso volta a construir um romance em torno das vítimas da revolução do 25 de abril, desta vez a partir do ponto de vista dos derrotados. A mãe de Violeta, conservadora e inabalável defensora do “chic”, recusa-se a aceitar a vitória dos revolucionários, afirmando que, mais tarde ou mais cedo, voltaria “chacun à sa place”. No entanto, as mudanças na sociedade desenrolam-se rapidamente, e os insultos e conspirações contra os apoiantes de Salazar não podem ser ignorados para sempre. Afinal, “as revoluções nada mais fazem do que substituir as vítimas”.

Apesar da originalidade do conceito de se construir um livro completamente desprovido de pontos finais, cheguei a sentir-me algo aborrecida pelo seu caráter repetitivo. Ainda assim, esta opção da autora concretiza a ideia de que todo o livro nada mais é do que uma torrente contínua dos pensamentos da narradora, pelo que as interligações quase aleatórias e as repetições na história são intencionais e parte da especificidade da narrativa.

Em resumo, este é um livro diferente de todos os que já li, tanto pela forma como foi escrito como pela densidade da frustração das suas personagens, presas em círculos concêntricos de relações tóxicas e sonhos falhados que se repetem, de formas diferentes, de geração em geração.

“a minha vida um sobressalto no sono continuado do universo”

05
Jul22

“Never let me go” – Kazuo Ishiguro

Helena

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Esta história é-nos narrada por Kathy H., de 31 anos, que, face à aproximação do fim da sua carreira de cuidadora, regressa mentalmente ao sítio onde tudo começou: Hailsham. Esta é uma escola especial inglesa onde as crianças crescem longe do resto do mundo, à medida que são impelidas a desenvolver as suas capacidades físicas e artísticas. O que os petizes não sabem é que não vão crescer para se tornarem pessoas como as outras. À medida que fazem o seu percurso, vão descobrindo a dura realidade do seu futuro há muito definido: uma vez prontos, serão notificados para iniciarem a sua jornada enquanto doadores de órgãos.

É na sombra desde destino incontornável que acompanhamos o crescimento de Kathy e dos seus melhores amigos: Ruth, uma rapariga perspicaz e versátil, e Tommy, algo desastrado e com pouca aptidão para a arte. Presos numa instituição que os instrui através de meias-palavras, os amigos vão descobrindo a complexidade das relações humanas e o poder da esperança num mundo que se nega a oferecer-lhes alternativas.

“Because somewhere underneath, a part of us stayed like that: fearful of the world around us, and – no matter how much we despised ourselves for it – unable quite to let each other go.”

Kazuo Ishiguro, vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2017, constrói uma história que gira em volta de amizades que parecem desafiar o destino. Afinal, na mais desesperante das situações, são as memórias dos que nos são queridos que nos ajudam a suportar as dificuldades da vida.

Este romance é um típico character-driven book: um livro cuja ação gravita em torno das personagens, dos seus pensamentos e das relações que estabelecem entre si. Apesar de, geralmente, preferir livros cujo foco é um enredo dinâmico e imprevisível, Never let me go surpreendeu-me pela positiva. Mesmo não sendo uma leitura galopante, a ação não estagna enquanto Kathy H. regressa ao passado e o observa a partir de uma nova perspetiva. Do mesmo modo, agradou-me o facto de ser uma obra muito diferente de Despojos do Dia, do mesmo autor.

De uma maneira mais ou menos subtil, este romance encerra uma mensagem acerca da importância da arte e da cultura para o crescimento e a revelação de um indivíduo. A arte é considerada um meio para alcançar a alma das crianças, para ter um vislumbre dos seus interesses, dos seus pensamentos e, sobretudo, dos seus sentimentos.

Para além disso, este romance destaca o conflito interno de todas as crianças que, deparando-se com as mudanças constantes do mundo em que crescem, se veem na necessidade de tomar decisões me relação ao seu próprio caráter. Será melhor manterem-se fiel a si mesmas ou será preciso mudar quem são para serem aceites?

Em suma, Never let me go é um drama existencial sobre vidas amputadas, sobre o valor da amizade através do tempo e sobre a injustiça de ter de se saber lidar com um futuro delineado muito antes de se vir ao mundo.

16
Jun22

“Os Rapazes de Nickel” – Colson Whitehead

Helena

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Na Florida da década de 1960, Elwood Curtis, um rapaz negro, dá os primeiros passos numa vida destinada a algo maior. Inspirado pelos discursos de Martin Luther King Jr, Elwood sonha com o dia em que pessoas como ele vão poder fazer tudo aquilo a que os brancos têm direito: ir a parques de diversões, sentar-se em qualquer restaurante, frequentar qualquer estabelecimento de ensino.

No dia em que iniciaria o seu percurso na universidade que o tinha aceitado como estudante de literatura, a vida de Elwood sofre uma reviravolta. O condutor a quem ele tinha pedido boleia é parado pela polícia por ter roubado o carro que conduzia. Acidentalmente envolvido num crime que não podia ter previsto, Elwood é encaminhado para o reformatório Nickel.

Quando chega ao reformatório, o rapaz sente um certo alívio ao constatar que os rumores sobre a realidade terrível na Nickel não passavam de boatos: tudo parecia ordeiro e pacífico. Contudo, Elwood não tarda a descobrir que, sob a fachada de eficácia, se estende uma rede de violência e abusos sistemáticos. Na companhia de Turner, Elwood suporta o dia a dia no reformatório, lutando entre a obediência relutante que lhe concederia uma redução da pena e a consciência de que baixar a cabeça era uma traição à luta pela igualdade. Seria possível que as palavras do reverendo King acerca da força do amor sobre a violência não passassem de uma utopia?

“Cresci com rapazes como vocês, brancos e de cor, e sei que vocês são como eu, mas tiveram azar.”

Os Rapazes de Nickel foi vencedor do Pulitzer Prize de ficção em 2020. Baseado numa história verídica, este livro transporta-nos para a realidade do sul dos Estados Unidos numa altura em que, ainda que ilegal, a segregação e a discriminação continuavam a marcar o convívio entre raças. Através de um relato simples, mas extremamente impactante, este romance tem o poder de desencadear no leitor um forte sentimento de revolta. A sua força reside nas palavras não ditas, nas descrições por fazer, no mundo que se esconde no silêncio onde ecoam as vozes daqueles que não puderam ser ouvidos.

Para além de abordar a questão do racismo, tão relevante no passado como nos nossos dias, Os Rapazes de Nickel é um registo do impacto da segregação a longo prazo. Dos atos de violência arbitrária e humilhação sistémica resultaram milhares de vidas arruinadas, marcadas pela dor e pelo medo, perdidas nos meandros de um sentimento de inferioridade que lhes tinha sido impingido como um dever. Esta não é só uma história sobre a América sulista e a comunidade negra durante o movimento dos Direitos Civis, é também uma história sobre a herança racista e as tradições conservadoras que se mantêm até hoje.

Por último, mas não menos importante, este romance é rematado por um plot twist fenomenal que me deixou boquiaberta.

Assim, Os Rapazes de Nickel soma-se à lista de livros que recomendaria a toda a gente, tanto pela genialidade da sua construção narrativa como pela importância cada vez maior de aprendermos com as nódoas da História.

11
Jun22

“O Grande Gatsby” – F. Scott Fitzgerald

Helena

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Este clássico da literatura americana tem por narrador Nick Carraway, a quem a promessa da prosperidade de Wall Street levou a que se mudasse para Nova Iorque, para trabalhar como corretor da bolsa.

Na vizinhança da sua pequena vivenda em West Egg, existe uma residência palaciana, cuja ostentação atrai pessoas da alta sociedade para as mais extravagantes festas. O seu dono, Jay Gatsby, é um homem charmoso que poucos conhecem. Mesmo aqueles que sabem quem ele é desconhecem as suas verdadeiras origens e o caminho que percorreu para construir a riqueza abismal que ostenta nas noites de folia.

Era costume que a casa de Gatsby fosse frequentada por celebridades que não eram convidadas: as pessoas apareciam e usufruíam das maravilhas que a mansão tinha para oferecer. No entanto, certo dia, Nick recebe um convite para uma das festas do galã, e fica fascinado pela sua figura jovial e afável. Com o passar do tempo, acabam por estabelecer uma relação de amizade, ainda que povoada pelo fantasma do passado incógnito de Gatsby. Nick apercebe-se de que as extravagâncias dos festins do milionário não passam de uma fachada de ostentação que esconde uma alma apaixonada que vive em função de um único sonho: recuperar o amor de Daisy, uma jovem que vive numa casa diametralmente oposta à dele, do outro lado do lago de Long Island. Para isso, conta com a ajuda de Nick e com a crença firme de que o passado é um sítio ao qual é sempre possível regressar.

Não consegui perceber o porquê de este ser considerado um dos maiores ícones da literatura americana do século passado. Dados os profusos elogios feitos por leitores ingleses à escrita de Fitzgerald, atribuo à tradução desta edição da Clássica Editora o motivo da minha desilusão.

Apesar de ter apreciado a história enquanto lia, assim que pousava o livro não conseguia lembrar-me do que tinha acontecido, como se não passasse de uma narração superficial de factos mais ou menos irrelevantes. A versão cinematográfica de O Grande Gatsby, por seu lado, pareceu-me muito mais expressiva e marcante na representação do desenrolar da ação. Nesse sentido, recomendo vivamente que se complemente a leitura do livro com a visualização do filme.

Assim, apesar de reconhecer que este livro encerra um retrato rico da sociedade novaiorquina dos Loucos Anos 20, com a euforia coletiva, o ricochete da lei seca e o enriquecimento por meios obscuros, não se traduziu numa experiência de leitura particularmente marcante.

01
Jun22

"Animal Farm" - George Orwell

Helena

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There once was a farm called Manor Farm, which was owned by Mr. Jones, a drunk rustic man. One night, after he went to sleep, the animals gathered in the big barn. They had been called by Major, an old pig who had a message to deliver before his death: as all the animals should know, none of them was free, and all of them were exploited for the man’s profit only. Therefore, he would like them to rebel against the human dominion. In his words, “All men are enemies. All animals are comrades.”. After old Major died, the animals started preparing for a rebellion. The pigs, generally known as the most intelligent of farm animals, were responsible for its organization. They struck the rebellion after Mr. Jones came home drunk one night and forgot to feed them. The animals attacked the house and the humans inside it, expelling them from the farm and taking control of it. From then on, all the traces of Jones’ presence must be eradicated, and the rules of Animalism were established and published:

            "Whatever goes upon two legs is an enemy.

            Whatever goes upon four legs, or has wings, is a friend.

            No animal shall wear clothes.

            No animal shall sleep in a bed.

            No animal shall drink alcohol.

            No animal shall kill any other animal.

            All animals are equal."

It all seemed perfect in the beginning. The productivity increased, they had plenty of food and the animals were happy. However, as time went by, the dream of equality started to crumble. Napoleon, the most radical and cruel of the government structure, had Snowball expelled for alleged attempts of sabotage. After that, the situation on the farm grew harder and harder, except for the pigs, who unexpectedly seemed to be getting fatter and fatter. After all, Animalism’s seven commandments soon started to change. “No animal shall sleep in a bed with sheets”, “No animal shall kill any other animal without cause”. Can the dreams of an equal society ever really come true?

This book is a genius work from Orwell, once he managed to perfectly represent the evolution of the communist revolution within the limits of a British farm. “Animal Farm” is a huge allegory of the Russian Revolution and all its flaws. That was what I found more intellectually appealing about it. The thing that worked better for me was the way Orwell depicts each animal species as a specific group of society: the sheep represent the easily-carried and light-minded people that follow everything they are told to do; the donkey stands for the ancient people who no longer let themselves be carried by the enthusiasm of a promising revolution; the pigs are the symbol of the emerging upper class corrupted by power, and so on.

Considering the impeccable way it portrays one of the most remarkable periods of History without letting down the readers that are just looking for a good story to enjoy themselves, I honestly wouldn’t change anything about it.

That being said, I would certainly recommend this book to everyone (and I actually do recommend it often), young or old, being aware or unaware of the Russian History, because even if you don’t understand the range of this book’s criticism, you can certainly understand the way it targets totalitarian regimes and abuses of power.

26
Mai22

“Manhã submersa” – Vergílio Ferreira

Helena

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António Lopes da Silva, que a família pobre confiou a uma educação religiosa, deixa a sua terra beirã para pisar pela primeira vez o seminário. Uma vez aí, António vê-se a braços com as saudades de casa, a rigidez dos mestres, a violência dos castigos e a crueldade azeda de alguns dos seus colegas. De facto, nada no seminário lhe agrada, porém encontra-se proibido de expressar o seu tormento: as cartas enviadas para casa são previamente lidas pelos padres e admitir a sua falta de vocação desgraçaria a sua família. Assim, António regressa ao seminário, uma e outra vez, resignando-se inocentemente ao seu destino e àquilo que os outros lhe apresentam como indubitável. Mas a fé não atinge todos os corações, e a dureza do seminário não consegue domar os espíritos de todos os adolescentes que descobrem que talvez o seu lugar não seja à frente de um altar.

“Pela primeira vez estremeci de medo até aos limites da vida, não tanto, porém, da fúria do comboio, como dessa coisa insondável e enorme, tão grande para mim, que era partir.”

Este foi o primeiro livro de Vergílio Ferreira que li. Manhã Submersa é um relato cru das vivências de uma criança encurralada entre a sua infância e aquilo que os adultos planearam para o seu futuro. Assim, a narrativa balança entre o desejo intenso de António de voltar para casa e renunciar a tudo o que esperam dele e a sua resignação em relação ao seu dever para com a sociedade e a sua família.

Numa autêntica viagem ao interior rural português do século passado, Manhã Submersa encerra um retrato vívido da dura realidade da época: mães pobres cediam os seus filhos ao cuidado de famílias abastadas, que os sustentavam até poderem ingressar num seminário. A carreira eclesiástica, muito valorizada pela opinião pública, era vista como uma fonte de estabilidade económica para muitas famílias que viviam na sempiterna precariedade. Como consequência, a vocação e a necessidade confundiam-se nos corredores dos seminários, santuários separados do mundo real por uma cortina de boa reputação que escondia os maus-tratos e abusos de que as crianças eram vítimas.

Apesar de conter algumas reflexões mais ou menos profundas ao longo da narração, este é um romance acessível e de leitura fácil. Vergílio Ferreira demonstra neste livro um profundo domínio da língua portuguesa, apetrechando as frases de artifícios linguísticos sem interromper a fluidez da narrativa nem fazer com que esta se torne aborrecida.

Em conclusão, Manhã Submersa é um universo em si próprio, um mundo de pobreza, de medo e de inocência que nos é dado a conhecer pelos olhos límpidos de uma criança com uma infância por viver.

26
Mai22

“A Vegetariana” – Han Kang

Helena

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Numa narrativa dividida em três partes, cada uma narrada por uma personagem diferente, A Vegetariana é a história de Yeong-hye, uma mulher casada que, depois de um pesadelo perturbador, decide deitar fora toda a carne que tem em casa e tornar-se vegetariana. Esta mudança radical não é bem recebida por aqueles que a rodeiam, especialmente pela sua família.

Assim, Yeong-hye inicia a sua jornada de alienação em relação à sociedade sul-coreana, recusando-se a ceder à pressão de todos aqueles que tentam contrariar a sua convicção de que se estava a transformar numa planta, um ser alimentado pelo sol e livre da violência de que tinha sido vítima quando era ainda uma criança.

No entanto, não é só Yeong-hye a sentir a necessidade de romper com os cânones sociais e viver pelos seus próprios princípios, embora seja a única a pô-lo em prática. Também o seu cunhado, um artista frustrado, vive na angústia de um casamento enfraquecido e da mediocridade do seu trabalho, enquanto In-hye, a irmã da protagonista, se vai apercebendo de que a sua vida de resiliência e trabalho talvez tenha estrangulado o seu verdadeiro potencial para ser feliz.

“Terá sentido viver as coisas sempre com tanta veemência?”

A Vegetariana foi publicado pela primeira vez na Coreia do Sul, em 2007, mas só foi publicado em Portugal em 2016, pela D. Quixote. Contrariamente ao que o título possa levar a pensar, esta não é uma história sobre vegetarianismo. Esse é apenas o ponto de partida para uma história de alienação, de afirmação da vontade individual e da intolerância da sociedade face a novas perspetivas.

Assim, apesar de ter passado a maior parte do livro chocada pela atitude extrema da protagonista, compreendi no fim que o que está em causa não é a natureza da sua decisão, mas a forma como os que a rodeiam a percecionam. Como os leitores afirmam, este é um livro feito de camadas e de símbolos que fazem dele uma alegoria para as relações sociais, para as expectativas que temos relativamente aos nossos semelhantes e para as reações de quando eles não lhes correspondem.

Para além disso, o fio da narração de A Vegetariana, o que move as suas personagens e suporta a sua estrutura não é o mundo físico, mas sim algo mais etéreo e subjetivo. O que está em causa não é a repulsa de uma mulher em relação à carne, o desejo de um homem pelo corpo da sua cunhada ou o desejo de riqueza material, mas sim o poder das crenças, das memórias, da pureza e da busca pela felicidade.

Em conclusão, este livro, cujo final aberto me deixou algo perplexa, revelou-se totalmente diferente daquilo que esperava, e também de tudo aquilo que já li. A densidade psicológica das personagens e a bizarria que enche estas páginas, realçadas pelo estilo cru e conciso da autora, surpreenderam-me e fizeram com que esta leitura passasse de uma mera curiosidade a um autêntico vício. Assim, recomendo A Vegetariana aos fãs de Kafka, de absurdo e de histórias que têm de ser lidas nas entrelinhas.

23
Mai22

“Marina” – Carlos Ruiz Zafón

Helena

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Barcelona, 1979. Óscar Drai, interno num colégio nos arredores de Barcelona, abandona o internato para mais um passeio pelas redondezas abandonadas de Sarriá. Contudo, algo neste passeio mudará radicalmente a sua vida: atraído pela aura misteriosa de um dos casarões degradados, decide passar os seus portões. No interior do casarão, o som de um piano ressoa pelo ar e um relógio dourado descansa em cima de uma mesa. Assim que Óscar pega no relógio, a cadeira defronte à lareira volta-se e uma figura esguia levanta-se para o apanhar. Óscar corre velozmente até conseguir despistar o seu agressor, mas, quando o faz, repara que ainda segura nas mãos o objeto reluzente.

Mais tarde, de consciência pesada, Óscar decide-se a regressar ao casarão para devolver o relógio roubado. Desta vez, espera-o uma nova presença nos portões: Marina, uma rapariga misteriosa que o levará para a aventura mais macabra da sua vida. Desafiando a coragem de Óscar, Marina leva-o a um cemitério onde tinha visto uma estranha senhora vestida de negro que visitava regularmente uma campa marcada apenas por um símbolo de uma borboleta negra. O mistério adensa-se quando, seguindo a dama de negro, os amigos se deparam com uma estufa abandonada, recheada de marionetas inacabadas e perturbadoramente reais… Uma vez dentro do enigma, Óscar e Marina não conseguem sair: que segredos esconde o desenho singelo de uma borboleta?

"Às vezes, as coisas mais reais apenas acontecem na imaginação"

Já há muito tempo que queria reler um dos meus livros favoritos de todos os tempos. Marina, que também é uma das criações preferidas do próprio autor, ressurgiu aos meus olhos como o primeiro labirinto sombrio do mundo zafoniano em que me perdi, com todo o seu mistério e as suas criaturas sinistras.

Apesar de ter revivido os passos de Óscar e Marina pelas ruas de Barcelona, o seu impacto já não foi o mesmo, e pude analisar Marina como uma produção embrionária da mente brilhante de Zafón. Costumava recusar que A sombra do vento fosse mais célebre e bem considerada do que Marina, mas agora compreendo que essa conceção da obra zafoniana se deve à ordem pela qual entrei em contacto com ela: primeiro Marina, depois A sombra do vento. No entanto, já neste livro é visível a capacidade incrível do autor para a criação de mundos fantásticos e para o entrelaçar de enredos dentro de uma história só.

De facto, uma das maravilhas de Marina é a forma como Zafón constrói uma autêntica matrioska de relatos, uma sobreposição de testemunhos sobre vidas, ou mesmo sobre uma vida só. O leitor vê-se perdido no labirinto da ação e no labirinto das próprias personagens, cujo passado que nos é recontado vezes sem conta se metamorfoseia constantemente.

A mestria na construção de mundos ficcionais manifesta-se não só a nível geral, com a aura sombria que Zafón faz pairar sobre a Barcelona do pós-guerra, como a nível particular, com o desenvolvimento do caráter das personagens e da maneira como são percecionadas por quem lê. Um menino de internato torna-se um herói, a rapariga imperturbável revela a sua fragilidade, e o vilão terrível emerge de um passado que, de súbito, o justifica.

Assim, a minha opinião em relação a este livro mantém-se, no geral, tendo verificado mais uma vez que encarna a possibilidade da conjugação de vários géneros e atmosferas num só romance, acessível e fascinante. Como tal, volto a recomendar Marina a todos os leitores e aspirantes a leitores, convidando-os depois a aventurarem-se pela tetralogia do Cemitério dos Livros Esquecidos.

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