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H-orizontes

H-orizontes

14
Jan23

“De noite todo o sangue é negro” – David Diop

Helena

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Em plena Primeira Guerra Mundial, Alfa Ndiaye, um soldado senegalês, acompanha as últimas horas de vida do seu amigo Mademba, o seu “mais do que irmão”, com “o lado de dentro do lado de fora”, na terra de ninguém. Por três vezes, Mademba pede a Alfa que o mate e acabe com o seu sofrimento, mas por três vezes Alfa recusa. Só depois de o seu “mais do que irmão” morrer, com as entranhas espalhadas pelo chão, é que Alfa se apercebe do que poderia ter feito e não fez, e de como seguir as regras nem sempre é o mais adequado.

Desperto para a consciência da arbitrariedade da guerra e da total ausência de sentido nas ordens a que, durante tanto tempo, obedeceu, Alfa começa a descer numa espiral de sentimentos de culpa que lhe exigem uma redenção. Depois da morte de Mademba, Alfa começa a voltar para a trincheira depois dos outros soldados. Fica no campo de batalha, à espera de uma vítima, de um inimigo de olhos azuis que possa esventrar e, contrariamente ao que fez com Mademba, matar à sua primeira súplica. De volta à trincheira, trazia a espingarda e a mão do inimigo que matara, algo que os seus companheiros começaram por louvar, mas rapidamente começaram a associar a uma loucura que não era igual àquela que lhes era pedida quando se lançavam para o campo de batalha. E se o soldado senegalês for um feiticeiro? Corre o rumor de que ele é um demm, um devorador de almas…

“Creio ter compreendido que aquilo que está escrito lá em cima não é senão uma cópia daquilo que o homem escreve cá em baixo.”

Deparando-se com a abundância de cartas tocantes de soldados nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial nos arquivos europeus, David Diop lançou-se numa busca por cartas do mesmo género enviadas pelos soldados senegaleses na frente de batalha. Face à natureza puramente burocrática dos documentos que encontrou, Diop propôs-se produzir uma obra que colmatasse essa lacuna nos testemunhos de um povo. Assim nasceu De noite todo o sangue é negro, vencedor do Booker Prize de 2021.

Neste livro curto, mas intenso, David Diop apresenta uma face da guerra que raramente se vê retratada nos romances que a tomam como pano de fundo: o contingente negro de soldados vindos das colónias para combater ao lado das tropas dos seus colonizadores. Alfa e Mademba são dois dos senegaleses que abandonaram o seu país em direção a uma realidade completamente diferente, a uma trincheira onde era esperado que os soldados não pensassem, apenas obedecessem com uma loucura irracional ao apito que os enviava para o campo de batalha. Assim, Diop posiciona os holofotes sobre a estereótipo de que os soldados africanos eram vítimas, permanentemente associados à selvajaria e à brutalidade, com a finalidade de aterrorizarem o inimigo.

Apesar de um cenário de guerra ser uma realidade dura e dramática por si só, o autor adota uma perspetiva que lhe permite fazer uma análise da mente humana face a uma situação limite: a morte lenta de um “mais do que irmão”, prolongada pela incapacidade humana de pensar de forma objetiva numa situação tão inesperada e tão cruel. A partir daí, Diop usa as palavras de Alfa para explorar o paradoxo absurdo da guerra: era correto e desejável matar indiscriminadamente qualquer pessoa que ocupasse o lado oposto da terra de ninguém, mas mutilar as mãos do inimigo e recolhê-las como troféu era, nas palavras do comandante, contra as regras da “guerra civilizada”. Num universo em que o apelo à violência é arbitrário e o espírito crítico desencorajado, o sentimento de revolta de Alfa cresce e agrava a sua necessidade de vingança.

Para além de expressar claramente a quebra cultural que os soldados africanos sofriam na sua vinda para solo europeu, David Diop equacionou a questão de muitos deles não falarem mais do que a sua língua nativa. Assim, recorrendo a repetições e formulações típicas da língua indígena, alterou a cadência e o ritmo da narrativa para os aproximar aos do fluxo de consciência autêntico de Alfa Ndiaye. Esta escolha confere, ainda, um tom poético e místico ao texto traduzido.

Em conclusão, De noite todo o sangue é negro é um livro imperdível, violento, marcante, com um final surpreendente, e que, a meu ver, deve ser complementado pela visualização de entrevistas dadas pelo autor sobre a sua inspiração e processo de escrita.

“A guerra é isso: é quando Deus está atrasado em relação à música dos homens”

26
Mai22

“A Vegetariana” – Han Kang

Helena

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Numa narrativa dividida em três partes, cada uma narrada por uma personagem diferente, A Vegetariana é a história de Yeong-hye, uma mulher casada que, depois de um pesadelo perturbador, decide deitar fora toda a carne que tem em casa e tornar-se vegetariana. Esta mudança radical não é bem recebida por aqueles que a rodeiam, especialmente pela sua família.

Assim, Yeong-hye inicia a sua jornada de alienação em relação à sociedade sul-coreana, recusando-se a ceder à pressão de todos aqueles que tentam contrariar a sua convicção de que se estava a transformar numa planta, um ser alimentado pelo sol e livre da violência de que tinha sido vítima quando era ainda uma criança.

No entanto, não é só Yeong-hye a sentir a necessidade de romper com os cânones sociais e viver pelos seus próprios princípios, embora seja a única a pô-lo em prática. Também o seu cunhado, um artista frustrado, vive na angústia de um casamento enfraquecido e da mediocridade do seu trabalho, enquanto In-hye, a irmã da protagonista, se vai apercebendo de que a sua vida de resiliência e trabalho talvez tenha estrangulado o seu verdadeiro potencial para ser feliz.

“Terá sentido viver as coisas sempre com tanta veemência?”

A Vegetariana foi publicado pela primeira vez na Coreia do Sul, em 2007, mas só foi publicado em Portugal em 2016, pela D. Quixote. Contrariamente ao que o título possa levar a pensar, esta não é uma história sobre vegetarianismo. Esse é apenas o ponto de partida para uma história de alienação, de afirmação da vontade individual e da intolerância da sociedade face a novas perspetivas.

Assim, apesar de ter passado a maior parte do livro chocada pela atitude extrema da protagonista, compreendi no fim que o que está em causa não é a natureza da sua decisão, mas a forma como os que a rodeiam a percecionam. Como os leitores afirmam, este é um livro feito de camadas e de símbolos que fazem dele uma alegoria para as relações sociais, para as expectativas que temos relativamente aos nossos semelhantes e para as reações de quando eles não lhes correspondem.

Para além disso, o fio da narração de A Vegetariana, o que move as suas personagens e suporta a sua estrutura não é o mundo físico, mas sim algo mais etéreo e subjetivo. O que está em causa não é a repulsa de uma mulher em relação à carne, o desejo de um homem pelo corpo da sua cunhada ou o desejo de riqueza material, mas sim o poder das crenças, das memórias, da pureza e da busca pela felicidade.

Em conclusão, este livro, cujo final aberto me deixou algo perplexa, revelou-se totalmente diferente daquilo que esperava, e também de tudo aquilo que já li. A densidade psicológica das personagens e a bizarria que enche estas páginas, realçadas pelo estilo cru e conciso da autora, surpreenderam-me e fizeram com que esta leitura passasse de uma mera curiosidade a um autêntico vício. Assim, recomendo A Vegetariana aos fãs de Kafka, de absurdo e de histórias que têm de ser lidas nas entrelinhas.

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