Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

H-orizontes

H-orizontes

28
Jun23

“Mar Negro” – Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho

Helena

marnegro10_low_10.jpg

Inês e J.P. trabalham no bar da praia durante um verão que se aproxima do fim. Os clientes vão e vêm, e os gelados Mar Negro encomendados em grande quantidade saem a voar. A relação entre Inês e J.P. é a de duas pessoas que, apesar de muito diferentes, são reunidas pelas circunstâncias e acabam por desfrutar da companhia um do outro.

Tudo parecia encaminhar-se para um final de estação tranquilo, quando, certo dia, uma rapariga morre afogada no mar. Tratando-se de uma cliente habitual do bar da praia, Inês não pode deixar de se sentir incomodada pelo sucedido, nem resiste a guardar para si a mala que a rapariga, também chamada Inês, deixara no bar por esquecimento.

Numa fase de transição entre as estações do ano e da vida, Inês percorre um caminho de novas descobertas, sensações e experiências que contribuirão para a consciência de si própria e dos outros.

Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho voltam a enveredar pelo mundo das bandas desenhadas pouco convencionais, com uma narrativa completamente ilustrada a duas cores e disposta em vinhetas de formas invulgares.

Tendo lido a banda desenhada publicada previamente pelos mesmos autores (Desvio), posso afirmar que gostei mais da anterior, já que a originalidade da narrativa me cativou mais. Por outro lado, entendo que a representação literária do quotidiano mais vulgar possa ser percecionada como um olhar claro sobre a vida de todos os dias e um testemunho de um período com características específicas. Assim, nestas páginas azuis e brancas, eternizou-se um fragmento da existência, a realidade de um trabalho de verão no bar da praia, das primeiras paixões e dos dilemas que o crescimento não deixa de trazer.

Assim, Mar Negro é uma boa leitura para uma tarde quente e descontraída de verão, tanto para jovens adultos (leitores cujos pensamentos, comportamentos e modos de expressão Ana Pessoa continua a captar maravilhosamente) como para adultos com vontade de regressar a uma juventude à beira-mar.

09
Dez21

“Quantas Madrugadas Tem a Noite” – Ondjaki

Helena

Madrugada.jpg

Em Quantas Madrugadas Tem a Noite, somos transportados para uma noite num bar de Luanda e transformamo-nos no interlocutor do narrador, um grande apreciador de cerveja e de estórias.

Embalados pelo narrador, acompanhamo-lo madrugada adentro, enquanto ele desenrola o novelo da história de Adolfo Dido. Este homem de nome caricato tinha falecido por causa da mordidela de uma carraça do grande cão que ocupava a maior sala da Kota das Abelhas (uma senhora que produzia mel e era grande amiga de Adolfo e dos seus companheiros). O sossego da morte, contudo, não chegou depressa ao corpo de Adolfo: as suas ex-mulheres, Dona Divina e Kibebucha, tentando lucrar com a mais recente proposta do governo de compensar monetariamente as viúvas de antigos combatentes, fingem que Adolfo era um antigo soldado e reclamam para si o subsídio do governo. Com o avançar do caso, as proporções obrigam a que se abra um processo judicial que envolverá também os amigos e familiares do falecido.

Quem receberá o dinheiro? Será a fraude de DonaDivina e Kibebucha descoberta? Porque será o cão da Kota das Abelhas tratado como um sultão?

Aquilo que começou por ser uma leitura destinada à familiarização com a variante angolana do português acabou por se revelar uma experiência divertida e diferente de todas as que já tinha tido.

A peculiaridade mais evidente deste livro é o facto de ele ter sido escrito num registo popular da língua angolana. Ondjaki eleva a linguagem de um homem num bar de Luanda a um estatuto de linguagem literária, recorrendo inclusivamente a palavras e expressões cujo significado só conseguimos descortinar se consultarmos o glossário no final do livro.

Para além de constituir uma história com uma intriga muito original e um final surpreendente, Quantas Madrugadas Tem a Noite também consegue transmitir a essência do povo angolano, numa época de guerra e de cheias. Narrado pela voz de uma personagem impregnada da simplicidade alegre do povo, este livro não só nos faz rir como também nos deixa a refletir acerca dos temas que o narrador abraça nos seus devaneios: a mudança, o peso do passado, o valor de todos os momentos, a morte e a quantidade de madrugadas que pode ter uma só noite.  

“Mas a fome é que manda no mundo, a par com o dinheiro”

“poesia é a beleza de te cuspirem em cima e inda te porem os lábios a rir.”

“a poesia não se faz, se vive; a poesia não se procura tipo diamante, se encontra tipo arco-íris: ou há ou não há – sorte e azar dos olhos no depois da chuva.”

Mais sobre mim

Arquivo

    1. 2024
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2023
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Pesquisar

Bem vindo

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.