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H-orizontes

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09
Dez21

“Quantas Madrugadas Tem a Noite” – Ondjaki

Helena

Madrugada.jpg

Em Quantas Madrugadas Tem a Noite, somos transportados para uma noite num bar de Luanda e transformamo-nos no interlocutor do narrador, um grande apreciador de cerveja e de estórias.

Embalados pelo narrador, acompanhamo-lo madrugada adentro, enquanto ele desenrola o novelo da história de Adolfo Dido. Este homem de nome caricato tinha falecido por causa da mordidela de uma carraça do grande cão que ocupava a maior sala da Kota das Abelhas (uma senhora que produzia mel e era grande amiga de Adolfo e dos seus companheiros). O sossego da morte, contudo, não chegou depressa ao corpo de Adolfo: as suas ex-mulheres, Dona Divina e Kibebucha, tentando lucrar com a mais recente proposta do governo de compensar monetariamente as viúvas de antigos combatentes, fingem que Adolfo era um antigo soldado e reclamam para si o subsídio do governo. Com o avançar do caso, as proporções obrigam a que se abra um processo judicial que envolverá também os amigos e familiares do falecido.

Quem receberá o dinheiro? Será a fraude de DonaDivina e Kibebucha descoberta? Porque será o cão da Kota das Abelhas tratado como um sultão?

Aquilo que começou por ser uma leitura destinada à familiarização com a variante angolana do português acabou por se revelar uma experiência divertida e diferente de todas as que já tinha tido.

A peculiaridade mais evidente deste livro é o facto de ele ter sido escrito num registo popular da língua angolana. Ondjaki eleva a linguagem de um homem num bar de Luanda a um estatuto de linguagem literária, recorrendo inclusivamente a palavras e expressões cujo significado só conseguimos descortinar se consultarmos o glossário no final do livro.

Para além de constituir uma história com uma intriga muito original e um final surpreendente, Quantas Madrugadas Tem a Noite também consegue transmitir a essência do povo angolano, numa época de guerra e de cheias. Narrado pela voz de uma personagem impregnada da simplicidade alegre do povo, este livro não só nos faz rir como também nos deixa a refletir acerca dos temas que o narrador abraça nos seus devaneios: a mudança, o peso do passado, o valor de todos os momentos, a morte e a quantidade de madrugadas que pode ter uma só noite.  

“Mas a fome é que manda no mundo, a par com o dinheiro”

“poesia é a beleza de te cuspirem em cima e inda te porem os lábios a rir.”

“a poesia não se faz, se vive; a poesia não se procura tipo diamante, se encontra tipo arco-íris: ou há ou não há – sorte e azar dos olhos no depois da chuva.”

30
Jun18

"O Retorno" - Dulce Maria Cardoso

Helena

O Retorno (1).jpg

O Retorno é um livro escrito por Dulce Maria Cardoso que retrata o regresso dos colonos portugueses de África, na perspetiva de um rapaz de 15 anos, Rui, que é obrigado a lidar com uma situação adversa naquela fase da vida em que o mundo é uma folha branca para escrever a história da nossa individualidade. Após o dia 25 de abril de 1974, as colónias começam a lutar pela sua independência, pelo que os negros perseguem os brancos, que são mortos ou obrigados a deixar o país. A família de Rui é das últimas a deixar Angola, e, pouco antes de deixar o país, militares negros surgem em frente da sua casa perguntando pelo “carniceiro do Grafanil”. Acabam por levar o seu pai, e ele, a mãe e a irmã têm de apanhar o avião para a “metrópole”, pois é uma oportunidade única. Assim, Rui assume o papel de homem de família, sentindo-se responsável pela mãe, que tem uma depressão, e a irmã, que apesar de ser mais velha fica mais abalada com a mudança do que ele. Assistimos à sua adaptação a uma nova realidade, que passa pela criação de novas amizades, mudança de hábitos, contacto com um clima diferente e um crescimento físico e mental face à nova situação em que se encontra.

Gostei muito deste livro. Permitiu-me conhecer melhor um período da História que eu associava apenas ao regresso dos portugueses das colónias, sem fazer ideia do clima de tensão que estes encontravam ao chegar à “metrópole”. O Retorno apresenta-nos o que foi vivido pelos retornados que saíram de uma situação de medo e perseguição para entrarem numa sociedade onde são discriminados e repudiados. O relato feito na primeira pessoa por um rapaz adolescente é muito expressivo, simples e claro, transmitindo-nos o seu medo, raiva ou euforia sem rodeios nem embelezamentos textuais. Entramos no mundo dos retornados do pós 25 de abril e somos agarrados pela história de Rui, do qual nos tornamos facilmente amigos. Uma leitura divertida, revoltante e emocionante que recomendo a todos.

“O sol pode cegar-te mas não te importes, se lhe voltas as costas a tua sombra esconde o que procuras” – Pág. 164

 

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