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H-orizontes

H-orizontes

04
Set23

“Narrative of the Life of Frederick Douglass” – Frederick Douglass

Helena

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Este é o relato das primeiras duas décadas da vida de Frederick Douglass, um escravo do estado americano do Maryland que, depois da sua fuga, contribuiu grandemente para os avanços do anti-esclavagismo na América pré-guerra civil. Em apenas cem páginas, Douglass descreve a sua jornada enquanto escravo na posse de vários donos, e a forma como estes mantinham os escravos num nível de consideração equivalente ao de uma mera propriedade.

Sujeitos a trabalhos pesados, com calor ou frio extremos, mal alimentados ou com pouco tempo para se alimentarem, os escravos navegavam à mercê da vontade dos seus donos, cada um com as suas peculiaridades. Segundo Douglass, os piores donos de escravos eram os mais religiosos e aqueles que nunca tinham estado na posse de escravos. Para além desses, havia, por exemplo, donos temporários que serviam apenas para “quebrar” os escravos: donos de propriedades para onde os escravos mais desobedientes eram enviados para que a sua resistência às ordens dos seus senhores fosse “quebrada”.

Ao constituir um documento destinado a apoiar a causa anti-esclavagista americana, este não é um relato autobiográfico completamente objetivo, o que não impede que seja um relato revoltante da realidade da escravatura americana, há uns escassos dois séculos.

“You have seen how a man was made a slave; you shall see how a slave was made a man.”

A leitura deste livro devia ser obrigatória para a sensibilização de todas as camadas da sociedade em relação ao absurdo do racismo e ao horror das suas consequências. O relato de Douglass é não só acessível, mas também muito rico a nível argumentativo, exemplificativo e sensorial.

Parte do fascínio que este livro desperta nos leitores parte do facto de o seu autor ter aprendido a ler e a escrever sozinho. Apesar de uma das suas donas ter começado a ensinar-lhe as primeiras letras, a exaltação do seu marido levou ao abandono desta prática, e Douglass viu-se a braços com uma vontade de aprender a ler que o consumia. Então, encontrou meios para completar as suas reduzidas aprendizagens e pôde, por meio da leitura, compreender a situação em que se encontrava e de que forma era possível argumentar contra ela. O “Narrative” é uma homenagem à leitura e uma aula acerca da importância que esta tem para a compreensão do mundo.

Na parte deste livro dedicada à sua fuga, Douglass estende a sua crítica às pessoas dos estados a norte que contribuíam para a libertação de escravos através da chamada “estrada subterrânea”, uma rota que ligava o sul ao norte dos Estados Unidos da América e que era usada para facilitar a passagem clandestina de escravos para território mais seguro. Douglass tem o cuidado deliberado de não explicar os meios através dos quais chegou a Nova Iorque, uma vez que isso permitiria que os donos de escravos se acautelassem contra a possibilidade de repetições dessa façanha. A “estrada subterrânea”, pelo contrário, era um meio de fuga conhecido e, por isso, propenso a falhar. Habituada a ver a “estrada” representada como um maravilhoso meio de libertação, esta perspetiva fez-me reconsiderar os factos que tinha como absolutos.

As análises feministas modernas apontam no “Narrative” uma postura incorreta de Douglass em relação à mulher, por se limitar a usá-la como um exemplo físico das consequências da violência esclavagista. No entanto, Douglass era um homem à frente do seu tempo e dedicou a sua vida, para além de à luta contra a escravatura, à luta pela igualdade de género. A edição da Oxford World’s Classics é acompanhada por três manifestações de Douglass a favor dos direitos das mulheres, que demonstram a sua preocupação e dedicação a esta causa.

Finalizada esta leitura, é particularmente chocante relembrar que o Maryland é o estado mais a norte dos territórios sulistas dos Estados Unidos da América. Consequentemente, os relatos de Douglass constituem apenas a ponta do icebergue das atrocidades que foram perpetradas nos estados pró-escravatura que se estendiam até à fronteira sul. O racismo não conhece fronteiras, e a necessidade de lutar contra ele também não. Mesmo em pleno 2023.

11
Jun22

“O Grande Gatsby” – F. Scott Fitzgerald

Helena

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Este clássico da literatura americana tem por narrador Nick Carraway, a quem a promessa da prosperidade de Wall Street levou a que se mudasse para Nova Iorque, para trabalhar como corretor da bolsa.

Na vizinhança da sua pequena vivenda em West Egg, existe uma residência palaciana, cuja ostentação atrai pessoas da alta sociedade para as mais extravagantes festas. O seu dono, Jay Gatsby, é um homem charmoso que poucos conhecem. Mesmo aqueles que sabem quem ele é desconhecem as suas verdadeiras origens e o caminho que percorreu para construir a riqueza abismal que ostenta nas noites de folia.

Era costume que a casa de Gatsby fosse frequentada por celebridades que não eram convidadas: as pessoas apareciam e usufruíam das maravilhas que a mansão tinha para oferecer. No entanto, certo dia, Nick recebe um convite para uma das festas do galã, e fica fascinado pela sua figura jovial e afável. Com o passar do tempo, acabam por estabelecer uma relação de amizade, ainda que povoada pelo fantasma do passado incógnito de Gatsby. Nick apercebe-se de que as extravagâncias dos festins do milionário não passam de uma fachada de ostentação que esconde uma alma apaixonada que vive em função de um único sonho: recuperar o amor de Daisy, uma jovem que vive numa casa diametralmente oposta à dele, do outro lado do lago de Long Island. Para isso, conta com a ajuda de Nick e com a crença firme de que o passado é um sítio ao qual é sempre possível regressar.

Não consegui perceber o porquê de este ser considerado um dos maiores ícones da literatura americana do século passado. Dados os profusos elogios feitos por leitores ingleses à escrita de Fitzgerald, atribuo à tradução desta edição da Clássica Editora o motivo da minha desilusão.

Apesar de ter apreciado a história enquanto lia, assim que pousava o livro não conseguia lembrar-me do que tinha acontecido, como se não passasse de uma narração superficial de factos mais ou menos irrelevantes. A versão cinematográfica de O Grande Gatsby, por seu lado, pareceu-me muito mais expressiva e marcante na representação do desenrolar da ação. Nesse sentido, recomendo vivamente que se complemente a leitura do livro com a visualização do filme.

Assim, apesar de reconhecer que este livro encerra um retrato rico da sociedade novaiorquina dos Loucos Anos 20, com a euforia coletiva, o ricochete da lei seca e o enriquecimento por meios obscuros, não se traduziu numa experiência de leitura particularmente marcante.

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