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H-orizontes

H-orizontes

15
Set25

"Can Socialists Be Happy?" – George Orwell

Este é o ensaio cujo título provocador dá nome à mais recente coletânea de textos de George Orwell editada pela Penguin Books. Nele, discute-se o problema do estabelecimento de regimes políticos cujas linhas de ação coincidem com aquilo que, antes, era apenas arquitetado pelos sonhadores, para a manutenção do conceito de utopia. O socialismo, quando eficazmente aplicado, coloca uma questão de peso ao imaginário utópico: como impedir que o patamar de progresso finalmente alcançado não redunde no seu oposto – como impedir que o aperfeiçoamento social se traduza numa obra de Aldous Huxley?

Se é sabido que, sem experienciar grandes tristezas, é impossível ter consciência do valimento das grandes alegrias, é também certo que uma projeção utópica só existe na medida em que supera a imperfeição da realidade vivida. Assim, uma utopia só existe enquanto tal se houver um elemento de contraste entre o real e o imaginário, o efetivo e o possível, o agora e o algures no tempo. Num universo hipotético em que os princípios da esquerda moderada encontram a sua concretização plena e temporalmente ilimitada, a utopia concretizada está destinada a esvair-se no ideal coletivo. Ou seja:

these pictures of 'eternal bliss' always failed because as soon as the bliss became eternal (eternity being thought of as endless time), the contrast ceased to operate.

Será, então, uma falácia a ilusão de que, uma vez atingido o ápice da civilização, as pessoas viverão mais harmoniosa e alegremente? Não será sensato esperar que a natureza humana abandone a sua característica insatisfação – mas isso é um risco para o projeto sociopolítico socialista alcançado a tanto custo. Constituirá um fim em si mesma a construção de uma realidade de acordo com as diretrizes de um determinado quadrante ideológico? Talvez, mas não é esta a principal preocupação de Orwell – é, em vez disso, a da dificuldade da manutenção do equilíbrio frágil entre a conquista da utopia e a racionalização extrema das potencialidades humanas. Retirando a insatisfação do quadro de possibilidades, resta-nos uma população estagnada no planalto da civilização: desenvolvida e igualitária, mas infeliz.

All 'favourable' Utopias seem to be alike in postulating perfection while being unable to suggest happiness.

Oitenta e dois anos depois da publicação de Can Socialists Be Happy?, no jornal Tribune, caminhamos no sentido oposto àquele que poderia assegurar-nos uma concretização harmoniosa e alegre de uma hipotética utopia: um desenvolvimento científico e tecnológico acompanhado de forma sustentada pelo fomento da componente humanística da formação do indivíduo. Em vez disso, aprofunda-se o desequilíbrio evidente entre o apoio ao raciocínio matemático e o incentivo à produção artística, filosófica e literária. Insiste-se num investimento voltado para o futuro, sem uma consciência consolidada do passado. O próprio futuro é arquitetado sobre alicerces utilitários, orgulho maior da sociedade digital, racional, mecanizada e automatizada em que o indivíduo ideal é uma unidade de produtividade.

Em suma, será que os socialistas podem ser felizes? Podem - se incluirmos na nossa utopia, paralelamente aos ideais de democracia, progresso científico e igualdade social, uma matriz cultural que permita às pessoas reconhecer em si mesmas o potencial para a criação de felicidade e plenitude.

29
Abr23

“Admirável Mundo Novo” – Aldous Huxley

No ano de 2540 (que corresponde ao ano 632 depois de Ford no universo da narrativa), a sociedade inglesa vive num estado de estabilidade perpétua garantido pelo condicionamento de todos os indivíduos à nascença. Num universo sem os conceitos de mãe e pai, os bebés são gerados e desenvolvidos em provetas, sendo condicionados para desempenharem um determinado papel no futuro que os espera: tornar-se-ão alfas, betas, deltas, gamas ou épsilones, as cinco classes da sociedade rigidamente hierarquizada.

Apesar de todos os procedimentos químicos durante a gestação e das lições a que são sujeitos enquanto dormem, ao longo do crescimento, em alguns alfas, os indivíduos psicologicamente mais autónomos, podem florescer ideais comprometedores para a estabilidade, sensações de vazio que podem levá-los a tomar atitudes indevidas. É o caso de Bernard Marx, um alfa cujo comportamento provocava estranheza entre os seus pares e, consequentemente, o isolava na sua esfera de perplexidade. Bernard não era como as outras pessoas: incomodava-o a presença permanente dos outros, não apreciava os desportos populares, tinha um profundo interesse pelas populações intocadas pela civilização e não era atraído pelo estímulo à manutenção simultânea de múltiplas relações sexuais que todos praticavam.

Apesar de ter sido advertido sobre a possibilidade de ser expulso da civilização no caso de insistir nos seus comportamentos perigosos, Bernard decide levar Lenina, uma delta conhecida por ser especialmente pneumática, a uma reserva de Selvagens, indivíduos alheios aos progressos da civilização. Uma vez aí, são surpreendidos por uma cerimónia religiosa de autoflagelação e conhecem Linda e John, cujo aspeto e ausência de civilidade chocam Lenina profundamente. O plano de Bernard estava em marcha: regressaria a Inglaterra com os dois Selvagens e provaria a todos que existiam outras formas de pensar e de viver. Mas como reagirão os Selvagens à vida em civilização? E estará a sociedade inglesa pronta para lidar corretamente com a chegada de alguém diferente?

Mas eu não quero o conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o autêntico perigo, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.

Agora que acrescentei o Admirável Mundo Novo ao meu repertório de distopias, posso concluir que, em comparação com 1984 e Fahrenheit 451, esta é a menos assustadora. Não é preciso esforçar muito a imaginação para conceber um universo em que a engenharia genética determina o futuro dos indivíduos  e em que o espírito crítico é abafado em nome da estabilidade e do conforto.

Contrariamente ao que acontece em “1984”, a sociedade do Admirável Mundo Novo não está sujeita à vigilância permanente dos órgãos estatais, nem pode ser levada para esconderijos de tortura medonhos por contrariar o regime. Enquanto o sistema totalitário de 1984 sobrevive à base da adulteração da verdade, no Admirável Mundo Novo cultiva-se a indiferença face à verdade, uma vez que o conhecimento, a ciência e a crítica constituiriam uma ameaça à estabilidade social. Para além disso, estas distopias opõem-se quanto à opinião social vigente em relação à liberdade sexual. Enquanto os indivíduos de 1984 estavam proibidos de qualquer atividade sexual, com o objetivo de canalizar a energia reprimida para o serviço ao regime, o Admirável Mundo Novo incita a prática de uma atividade sexual intensa, com mais do que um parceiro, e estimulada por suplementos e experiências de cinema sensoriais, para dar aos habitantes uma sensação de permanente prazer e felicidade.

Tendo sido publicado em 1932, Admirável Mundo Novo possui um forte pendor profético no que toca à emergência de regimes totalitários em solo europeu, nomeadamente o fascismo e o estalinismo. Também os regimes fascistas baseavam a sua noção de sociedade na manutenção de uma hierarquia social rígida e inquestionável, sedimentada pela discriminação.

O universo criado por Huxley ecoa nos nossos dias em aspetos como a abundância de medicamentos, suplementos e drogas que elevam o espírito dos doentes ou consumidores, produzindo efeitos semelhantes à soma do universo distópico. Também a completa abominação da solidão é algo que ganha raízes na sociedade dos nossos dias: mesmo que estejamos sozinhos, as novas tecnologias mantêm-nos conectados a um número infinito de pessoas e lugares, de maneira que se torna difícil para alguém ficar completamente só consigo e os seus pensamentos.

Em suma, o Admirável Mundo Novo conta com uma construção de um universo distópico excelente, assim como com discussões de pendor moral e sociológico que despoletam reflexões de interesse e pertinência atuais. Apreciei particularmente a forma como o autor modela a personagem de Bernard, em oposição à personagem plana de John, que, aliás, é apontado como o elemento-chave que está em falta em 1984 – o outsider que tem a capacidade de criticar o universo distópico à luz dos seus preceitos sociais. Apesar de o próprio Huxley admitir que este livro conta com algumas falhas (tais como a bipolaridade demasiado radical dos destinos das personagens), esta é uma leitura essencial para a compreensão da sociedade dos nossos dias e para a prevenção de um futuro sem arte, sem ciência, sem religião, sem literatura e sem o espírito crítico que faz de nós humanos.

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