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H-orizontes

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09
Fev22

“Madame Bovary” – Gustave Flaubert

Helena

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Emma Bovary, a personagem que dá nome a este romance, é uma jovem sonhadora que cresceu mergulhada nas histórias de amor que lia às escondidas pelos recantos do convento onde era educada. Depois da morte da sua mãe, Emma regressa a casa, convencida de que já experienciara todas as emoções que lhe seria dado sentir na vida.

Charles Bovary recebera a primeira instrução com um padre, mas acabara por se formar em medicina.  Um dia, Charles é chamado para socorrer Rouault, o pai de Emma, que se encontrava doente. A chegada do médico é para a rapariga uma lufada de ar fresco, uma quebra no tédio que a leva a deslizar para uma afeição que supõe próxima das paixões dos romances que lia.

Depois de casar com Charles, porém, Emma, agora Madame Bovary, descobre que a sua relação se encontra longe daquilo que tinha idealizado. Apesar de Charles ser totalmente dedicado a ela, de a mimar e de a adorar, Emma não consegue deixar de se sentir entediada e desiludida com a figura rude e desajeitada do marido. Perante esta vida estagnada na infelicidade, Madame Bovary e os seus rasgos românticos não resistem a cair na tentação excitante do adultério.

Dominada pelos seus ideais de paixão, caprichosa e sem olhar a gastos, Emma percorrerá, sem dar por isso, o caminho que a conduzirá à ruína. Afinal, a vida não é um conto de fadas.

Apesar de termos acabado de entrar no segundo mês do ano, tenho a certeza de que Madame Bovary estará entre as leituras mais divertidas de 2022. Apesar de não ser um romance trepidante, dei por mim a perder a noção do tempo enquanto acompanhava as alegrias e desgraças de Emma, peripécia atrás de peripécia, mais incrédula a cada passo que ela dava em direção à sua própria desgraça.

Conjugando um realismo leve e um determinismo bem marcado, Flaubert pinta em Madame Bovary um preciso retrato de época: a persistência do ensino eclesiástico, a propagação dos valores de Voltaire, as experiências da medicina no século das luzes e o adultério como uma via de escape para a infelicidade matrimonial estão no centro deste clássico que cativou o interesse de gerações.

Esta leitura não poderia ter sido feita numa altura mais apropriada, uma vez que tenho vindo a estudar o fenómeno da literariedade e o processo de leitura. Emma é um bom exemplo da falta de domínio do conceito de ficcionalidade. Convencida de que os romances idílicos que lia podiam ser transferidos para a realidade, Madame Bovary perde a noção de que as expectativas sobre as quais construiu a sua vida não passam de uma ilusão presa entre as páginas dos livros que leu, e todo o enredo gira em torno das consequências disso.

Assim, este clássico oitocentista surpreendeu-me pela positiva e revelou-se uma das experiências de leitura mais prazerosas dos últimos meses.

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