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H-orizontes

H-orizontes

03
Nov23

"The Handmaid's Tale" - Margaret Atwood

Helena

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Nesta realidade distópica, a religião toma as rédeas do sistema de valores e as mulheres são submetidas a uma objetificação desumana. As mulheres são divididas em grupos femininos com funções específicas: as Marthas, as Handmaids e as Aunts, por exemplo, A narrativa põe em destaque os meandros da vida das Handmaids, mulheres potencialmente férteis, responsáveis por gerar filhos para as esposas inférteis de funcionários do Estado. Offred, a narradora, é uma Handmaid que ainda se lembra de como era ter uma vida autónoma, um trabalho e a liberdade de poder ler e dizer o que quisesse. Agora, não pode deter propriedade, tem de reduzir o contacto visual com outros ao mínimo, os dissidentes do regime aparecem enforcados e até as palavras nas tabuletas foram substituídas por símbolos, pois nem essa leitura era desejável. Para além de tudo isso, Offred não sabe o que foi feito de Luke, seu companheiro, nem da sua filha.

Os vidros são inquebráveis, os banhos são controlados e o acesso a objetos cortantes é proibido, porque toda a gente sabe: a morte é a única saída.

“All I can hope for is a reconstruction: the way love feels is always only approximate.”

Esta leitura veio confirmar aquilo de que já desconfiava: distopias não fazem parte dos meus géneros literários favoritos. É-me difícil reorganizar o meu mapa mental para me submergir completamente no universo da distopia. Apesar disso, penso que prefiro a abordagem de Atwood, de dar a conhecer o funcionamento da sociedade distópica através da ação e das personagens, em vez da explicação concentrada e, por vezes, aborrecida e complexa, do universo criado noutros livros do género.

Esta clássico moderno é, de facto, uma leitura importante pelas reflexões que suscita relativamente à realidade em que vivemos. Isto é reforçado pelo compromisso da autora de retratar apenas situações que já tivessem tido lugar no passado ou no presente. A vida em Gilead mimetiza os princípios do grupo de puritanos que se instalaram no estado do Massachussets no século XVII. A gravidez forçada foi implementada por Pol Pot no Camboja. A proibição do aborto é uma realidade em muitos países dos nossos dias. No universo teocrático chauvinista de Atwood, as conquistas da mulher na sociedade foram completamente destruídas e a atmosfera quotidiana é claustrofóbica e castradora. Importa reter que esta “descida aos infernos” não se realizou do dia para a noite: foi o resultado de uma desvalorização de indícios de totalitarismos e de uma tolerância crescente face às ameaças às liberdades fundamentais dos indivíduos. A opressão normaliza-se, como demonstra a narração de Offred: “Is that how we lived, then? But we lived as usual. Everyone does, most of the time. Whatever is going on is as usual. Even this is as usual, now.”

Para além da forma orgânica como as analepses de Offred são entretecidas na narrativa, sem quebras de qualquer tipo, achei particularmente interessante o pormenor dos nomes atribuídos às Handmaids. O seu nome depende da família que servem, pelo que Offred significa ser “de Fred”, Offglen “de Glen”, e assim por diante. A importância de um nome no estabelecimento de relações de dominância é maior do que pensava, e isso é claro no estatuto de permanente inferioridade e submissão a que as Handmaids são remetidas. O mesmo fenómeno de perda de identidade a favor da ideologia vigente verificou-se, por exemplo, na atribuição de números aos prisioneiros nos campos de concentração nazis.

Em suma, num registo fragmentado que espelha o estado perturbado da mente de Offred, The Handmaid’s Tale é um livro que nos alerta para a ameaça permanente de regimes insensíveis aos direitos fundamentais dos cidadãos, e para quão fácil é atuar como seu conivente ao preferir o conforto da adaptação acrítica ao perigo da subversão.

22
Out23

“O Pecado de João Agonia” – Bernardo Santareno

Helena

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Em meados dos anos sessenta do século passado, a família Agonia aguarda em casa o regresso de João, filho que partira para Lisboa para cumprir o serviço militar obrigatório. João regressa, mas vem diferente: mais sombrio e fechado em si próprio, sente repúdio pela capital que deixou e deseja recolher-se à pacatez em que cresceu.

Em casa, Fernando, irmão mais velho, tenciona agendar um casamento com Maria Giesta, e Teresa, a irmã mais nova, tenta ignorar o interesse que Tóino, irmão de Maria Giesta, tem vindo a demonstrar por ela, rapariga quase demasiado crescida para continuar solteira. Em vez de partilhar e contribuir para esta alegria, João Agonia virá perturbá-la: a sua afeição crescente por Tóino e as notícias de Lisboa trazidas por Manuel alteram profundamente o ambiente da casa e a perceção que as personagens têm umas das outras.

No canto da sala, os agouros da avó Rosa recrudescem intermitentemente…

Esta peça de teatro, de leitura obrigatória para o meu terceiro semestre de Literatura Portuguesa, surpreendeu-me pela positiva. Nunca tinha lido peças da autoria de Bernardo Santareno e a verosimilhança que ele confere às réplicas das personagens contribui grandemente para uma boa experiência de leitura (já que ela nunca se equipara ao assistir a uma representação ao vivo).

O Pecado de João Agonia pode ser visto como uma obra problemática nos tempos que correm, tendo em conta alguma da linguagem a que se recorre relativamente ao tratamento de membros da comunidade LGBTQ+. Contudo, inserindo a peça no seu tempo e tendo em atenção o facto de se tratar de uma obra que tem como centro a injustiça e a irracionalidade na discriminação e maltrato dos homossexuais, penso que é perfeitamente legítimo.

Mesmo sabendo que se tratava de uma tragédia inserida no século XX, não estava à espera de um final tão drástico, mas que, simultaneamente, fez sentido. O Pecado de João Agonia é um grito de alerta que nos chega de há meio século e nos confronta cruamente com comportamentos que mudaram menos do que seria necessário.

12
Out23

“Jesus Cristo Bebia Cerveja” – Afonso Cruz

Helena

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No coração do Alentejo, uma mão-cheia de personagens envida esforços para a realização do maior desejo de Antónia, uma senhora idosa que quase não se consegue mexer: ir a Jerusalém. À falta de meios e de dinheiro, o professor Borja tem a grande ideia de trazer Jerusalém ao Alentejo. Simulando um avião num bar de strip e a Terra Santa na aldeia de uma inglesa rica, a senhora terá a sensação de viajar até ao Oriente.

Rosa, neta de Antónia, de quem partiu a vontade de satisfazer o desejo da idosa, deixou o amor rude de um pastor em troca do amor científico do professor, muito mais velho do que ela. O professor, pesado da vida e do conhecimento, pensa que a essência humana é o que está escrito no ADN. Miss Whittemore, a inglesa, acha que o que fica de nós depois da morte é um pensamento. O sargento Oliveira está determinado a encontrar o responsável pelos graffitis filosóficos no muro branco da aldeia da inglesa. O padre Teive associa a dor das chibatadas no traseiro que o pai lhe infligia por querer ser padre à experiência do divino. Margarida, filha do professor, morreu aos cinco anos e deixou um Nada antinatural no peito do pai. Estas e outras histórias entretecem-se numa teia de intenções, decisões e filosofias que, no final de contas, são tudo o que temos.

“o hábito faz a vida endurecer como a côdea do pão”

Jesus Cristo Bebia Cerveja ficou um pouco aquém daquilo que esperava de uma obra da autoria de Afonso Cruz. Perpassa este livro uma sensação geral de dump de escrita criativa. É próprio de Afonso Cruz juntar nos mesmo planos personagens muito diferentes que contam com características muito próprias (por exemplo, um homem com o nome dos quatro evangelistas e um professor paralelo a si mesmo). No entanto, neste romance, as peculiaridades das personagens fazem com que ele pareça algo desconexo. Apesar de haver uma linha condutora que as une num fim comum, fiquei com a impressão que muito deste livro vive da explicitação de características peculiares das personagens que o povoam.

Da mesma forma, mesmo estando habituada às incursões filosóficas na bibliografia de Afonso Cruz, fiquei um pouco saturada pela insistência nas suas referências e cadeias argumentativas relacionadas com a inexistência de Deus. Não por não concordar nem por achar que deviam ser completamente eliminadas, penso apenas que algumas podiam ter sido conseguidas com mais naturalidade e concretizadas em raciocínios menos densos.

Ainda assim, desfrutei desta leitura que me embalou desde o início com o registo tão afonsocruziano em que surtos de beleza inesperada surgem das situações mais banais da vida das personagens. Ideias de uma originalidade fascinante brotam da página como se ele semeasse nas palavras de todos os dias sentidos que costumam passar-nos ao lado. Nunca me teria ocorrido que no sabor de uma pedra podem residir as sensações de uma memória. E nunca o Alentejo esteve tão perto de Jerusalém.

Um brinde (com cerveja) a esta experiência transcendental!

11
Out23

“Lucy” – Jamaica Kincaid

Helena

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Lucy é a personagem principal do livro homónimo da autoria de Jamaica Kincaid.

Tendo atingido a maioridade, Lucy abandona a casa dos pais, nas Caraíbas, e parte para os Estados Unidos da América. Aí, passará a viver com a família de Lewis e Mariah, de cujos filhos tem o dever de cuidar.

Neste período de transição repleto de mudanças e descobertas, Lucy vê-se a braços com uma vida numa sociedade completamente diferente e em contacto permanente com uma família cuja aparência harmoniosa esconde problemas. Nesta tentativa de compreender quem é ela própria e quem são, na verdade, os outros, Lucy vai ocupando o seu lugar no mundo e no coração de quem lê este romance.

“An ocean stood between me and the place I came from, but would it have made a difference if it had been a teacup of water? I could not go back.”

Este livro tocou-me muito mais profundamente do que eu esperava. O facto de Lucy, a personagem principal, ter a mesma idade que eu, fez com que muitos dos aspetos tratados neste livro se coadunassem com a minha própria experiência. Apesar de estar do outro lado do Atlântico e de me encontrar numa situação infinitamente mais privilegiada, pude partilhar da não só sensação de estranheza que sair de casa envolve, como também das sensações intensas e contraditórias que crescer acarreta.

O registo pouco floreado da escrita de Kincaid podia contribuir para um relato menos cativante deste processo de emancipação, mas acabou por ter o efeito contrário. Ao manter um estilo simples, a narrativa de Lucy tornou-se simultaneamente mais acessível e mais tocante, mais próxima de quem lê e dos sentimentos que tenta exprimir.

Os livros de que mais gosto são aqueles cuja crítica mais me custa articular, já que nada do que eu possa dizer pode igualar a sensação de conforto que me preenchia ao pegar neste livro para mais uns minutos de leitura. É uma pena que não esteja traduzido e editado em Portugal. Ainda assim, recomendo a sua leitura, especialmente aos jovens adultos que ainda estão a tentar descobrir o lugar onde pertencem.

30
Set23

“Finding Me” – Viola Davis

Helena

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Neste memoir, Viola Davis abre as portas da sua vida aos leitores, convidando-os a descobrir o passado horrível que esconde o seu sorriso, o sorriso de uma atriz de renome internacional, vencedora de um Emmy, um Grammy, um Oscar, um BAFTA, um Globo de Ouro… uma mulher bem-sucedida.

Nada poderia preparar o leitor desconhecedor das origens de Viola para a história que ela põe a descoberto em Finding Me. O retrato de uma infância na pobreza extrema, numa casa mergulhada na violência e sem as condições mais básicas de higiene é chocante. A pavimentar a estrada para o sucesso, Viola encontrou o abuso, a discriminação, a depressão, a realidade de viver da representação nos EUA, enquanto mulher negra em condições económicas precárias.

Englobando toda a vida de Viola até à altura em que este memoir foi publicado, Finding Me é um livro sobre resiliência, persistência e sofrimento, sobre as reviravoltas da vida e sobre o que pode acontecer quando a sorte, o trabalho e a esperança se alinham.

“The fear factor was minimized for me. I already knew fear. My dreams were bigger than the fear.”

Apesar de já ter visto a entrevista da Oprah a Viola Davis da Netflix, na qual ela se refere com algum detalhe à sua infância difícil, o relato que a atriz faz em Finding Me dos episódios de precariedade, trauma e abuso que viveu deixou-me sem palavras. A jornada de superação e posterior sucesso de Viola é inspiradora e um exemplo pelo qual eu considero muito importante a publicação deste livro. Para além disso, enquanto alguém que teve a sorte de não se debater com as mesmas circunstâncias terríveis na infância, penso que é uma leitura que contribui grandemente para o aprofundamento do sentido de empatia do leitor, pela facilidade com que nos permite aceder ao lugar do outro.

Finding Me provocou em mim a mesma sensação de incredulidade de quando vou a encontros com escritores ou vejo entrevistas a artistas na Internet: atrás da obra de arte, está um humano, uma pessoa como eu que tem uma história, sonhos por concretizar, batalhas para combater.  Viola, uma menina pobre, discriminada, rotulada, traumatizada, cresceu para se tornar numa mulher de sucesso, uma atriz fenomenal com um passado inimaginável.

É bastante óbvio que o trabalho de base de Viola não é, ao contrário do que acontece, por exemplo, com Trevor Noah, escrever. Em consequência, falta a este memoir a destreza narrativa com que o humorista consegue abrilhantar as histórias do Born a Crime. Ainda assim, Finding Me é um livro muito acessível, sem deixar de ser duro e incomodativo. Este livro teve duas consequências imediatas em mim: fez-me sentir extremamente grata por tudo aquilo que tenho, mesmo nos dias menos bons, que, em comparação com a infância de Viola, são muito bons; e fez-me querer ver todos os filmes e séries em que Viola entra, em maratona.

04
Set23

“Narrative of the Life of Frederick Douglass” – Frederick Douglass

Helena

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Este é o relato das primeiras duas décadas da vida de Frederick Douglass, um escravo do estado americano do Maryland que, depois da sua fuga, contribuiu grandemente para os avanços do anti-esclavagismo na América pré-guerra civil. Em apenas cem páginas, Douglass descreve a sua jornada enquanto escravo na posse de vários donos, e a forma como estes mantinham os escravos num nível de consideração equivalente ao de uma mera propriedade.

Sujeitos a trabalhos pesados, com calor ou frio extremos, mal alimentados ou com pouco tempo para se alimentarem, os escravos navegavam à mercê da vontade dos seus donos, cada um com as suas peculiaridades. Segundo Douglass, os piores donos de escravos eram os mais religiosos e aqueles que nunca tinham estado na posse de escravos. Para além desses, havia, por exemplo, donos temporários que serviam apenas para “quebrar” os escravos: donos de propriedades para onde os escravos mais desobedientes eram enviados para que a sua resistência às ordens dos seus senhores fosse “quebrada”.

Ao constituir um documento destinado a apoiar a causa anti-esclavagista americana, este não é um relato autobiográfico completamente objetivo, o que não impede que seja um relato revoltante da realidade da escravatura americana, há uns escassos dois séculos.

“You have seen how a man was made a slave; you shall see how a slave was made a man.”

A leitura deste livro devia ser obrigatória para a sensibilização de todas as camadas da sociedade em relação ao absurdo do racismo e ao horror das suas consequências. O relato de Douglass é não só acessível, mas também muito rico a nível argumentativo, exemplificativo e sensorial.

Parte do fascínio que este livro desperta nos leitores parte do facto de o seu autor ter aprendido a ler e a escrever sozinho. Apesar de uma das suas donas ter começado a ensinar-lhe as primeiras letras, a exaltação do seu marido levou ao abandono desta prática, e Douglass viu-se a braços com uma vontade de aprender a ler que o consumia. Então, encontrou meios para completar as suas reduzidas aprendizagens e pôde, por meio da leitura, compreender a situação em que se encontrava e de que forma era possível argumentar contra ela. O “Narrative” é uma homenagem à leitura e uma aula acerca da importância que esta tem para a compreensão do mundo.

Na parte deste livro dedicada à sua fuga, Douglass estende a sua crítica às pessoas dos estados a norte que contribuíam para a libertação de escravos através da chamada “estrada subterrânea”, uma rota que ligava o sul ao norte dos Estados Unidos da América e que era usada para facilitar a passagem clandestina de escravos para território mais seguro. Douglass tem o cuidado deliberado de não explicar os meios através dos quais chegou a Nova Iorque, uma vez que isso permitiria que os donos de escravos se acautelassem contra a possibilidade de repetições dessa façanha. A “estrada subterrânea”, pelo contrário, era um meio de fuga conhecido e, por isso, propenso a falhar. Habituada a ver a “estrada” representada como um maravilhoso meio de libertação, esta perspetiva fez-me reconsiderar os factos que tinha como absolutos.

As análises feministas modernas apontam no “Narrative” uma postura incorreta de Douglass em relação à mulher, por se limitar a usá-la como um exemplo físico das consequências da violência esclavagista. No entanto, Douglass era um homem à frente do seu tempo e dedicou a sua vida, para além de à luta contra a escravatura, à luta pela igualdade de género. A edição da Oxford World’s Classics é acompanhada por três manifestações de Douglass a favor dos direitos das mulheres, que demonstram a sua preocupação e dedicação a esta causa.

Finalizada esta leitura, é particularmente chocante relembrar que o Maryland é o estado mais a norte dos territórios sulistas dos Estados Unidos da América. Consequentemente, os relatos de Douglass constituem apenas a ponta do icebergue das atrocidades que foram perpetradas nos estados pró-escravatura que se estendiam até à fronteira sul. O racismo não conhece fronteiras, e a necessidade de lutar contra ele também não. Mesmo em pleno 2023.

26
Ago23

“Noite” – Elie Wiesel

Helena

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No início do ano de 1944, a cidade romena onde Elie Wiesel vivia com a sua família ainda não tinha sido confrontada com a ameaça do fascismo que lavrava pelo solo europeu, em plena Segunda Guerra Mundial. Contudo, nenhuma povoação da Roménia viria a escapar à ocupação alemã que se seguiu, na primavera de 1944, a um pacto entre os nazis e o governo.

Assim, com apenas quinze anos, Elie Wiesel é enviado para o campo de concentração de Auschwitz, onde é separado da mãe e dos irmãos. Ficou apenas com o pai, de quem recusou separar-se até ao final da sua jornada. Apesar de a reta final da Segunda Guerra Mundial começar a vislumbrar-se no horizonte, as atrocidades perpetradas nos campos de concentração não eram, de forma nenhuma, menos degradantes. O frio, a fome e a exaustão andam de braço dado com Elie e os seus companheiros de campo, durante um ano que pareceu uma noite e cujo fim não chegou a ser presenciado por todos.

Noite faz parte do corpus de documentos e ações de sensibilização que contribuíram para que o Nobel da Paz de 1986 fosse atribuído a Elie Wiesel.

Na primeira metade da obra, aquilo que mais me impactou foi a perda de fé do narrador no Deus a que se dedicava integralmente antes de ter sido deportado. Quando confrontado com o completo desrespeito pela dignidade humana de que os prisioneiros do campo de concentração eram vítimas, Wiesel sentiu-se abandonado pela divindade que julgava misericordiosa e boa. O narrador chega, aliás, a afirmar que os Homens são superiores a Deus, por possuírem força de espírito suficiente para continuarem a adorá-Lo, mesmo quando Ele permite que o seu povo fosse condenado ao sofrimento e à miséria.

Na segunda metade, é gritante o poder da degradação extrema das condições de vida na desintegração dos laços que se pensavam inquebráveis entre indivíduos. A degradação da relação entre pai e filho, em particular, é posta em evidência enquanto resultado da necessidade crescente de apelar aos instintos mais primários de sobrevivência. O próprio autor, depois de uma longa jornada ao longo da qual se recusou a separar-se do seu progenitor, confessa-se aliviado após a sua morte, por permitir que ele concentrasse toda a sua energia na sua própria sobrevivência.

Um dos aspetos mais perturbadores deste relato é a descrença da população na terra-natal de Wiesel em relação à chegada do fascismo. A guerra alastrava pela Europa, mas nunca chegaria à Roménia. Os fascistas chegaram à Roménia, mas nunca chegariam às povoações mais pequenas. A repressão chegou às aldeias, mas o perigo para os judeus não podia ser real. A postura de negação em relação à ameaça do fascismo existia em 1944 e existe nos nossos dias, e é importante que consigamos identificar estes padrões para podermos prevenir a repetição de um dos episódios mais negros da História europeia.

Noite é mais um livro do cânone das narrativas sobre o Holocausto, um relato cru e revoltante de uma das tantas vidas que devemos recordar, com respeito e atenção, nos tempos que correm e nos que estão por vir.

24
Ago23

“Conversations on Love” – Natasha Lunn

Helena

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Conversations on Love é um livro feito daquilo que o título indica: conversas sobre o amor, entre a autora e uma série de personalidades mais ou menos conhecidas e mais ou menos especializadas em dinâmicas de relacionamentos.

Dividido em três partes, este livro discute alguns pontos fulcrais de três fases inerentes à experiência do amor: o despertar de uma paixão, a manutenção de uma relação e a experiência da perda. Através das suas conversas, Lunn sintetiza os conselhos que a ajudaram a compreender a sua própria vida amorosa, a fim de poder ajudar os leitores a trilhar o seu próprio caminho no universo das relações interpessoais.

“I think there’s a danger of pulling away from love in order to own your feminism, when, actually, you learn to understand yourself in relation to people around you. You can find independence through connection too.”

Apesar de ter gostado da estrutura deste livro, acabou por não corresponder às minhas expectativas. O formato de entrevista com que Lunn consolida cada um dos seus pontos é interessante na medida em que torna os conselhos e lições presentes neste livro mais humanos e reais. Afinal, são palavras de alguém que teve experiências que levaram a conclusões que resultaram no seu caso particular, e isso confere-lhes autenticidade. No entanto, à medida que o livro avança, torna-se algo repetitivo, esgotando o potencial de trazer ao público em geral novas perspetivas em relação à vivência do amor e da perda. Isto deveu-se, principalmente, ao foco da autora no luto que se seguiu ao seu aborto espontâneo, de modo que grande parte das conversas e reflexões acabam por redundar na experiência pessoal da perda de um filho.

Assim, acredito que a leitura deste livro pode beneficiar pessoas que se sentem algo perdidas neste labirinto que são as relações afetivas, pela partilha de testemunhos que podem servir simultaneamente de conselho e de validação de experiências dos leitores. No entanto, a concentração no luto e na perda de um filho enquanto experiência pessoal acabou por contaminar conversas que poderiam ter explorado o amor de uma forma mais abrangente.

“At first you live in grief, then it lives in you.”

20
Ago23

“Recitatif” – Toni Morrison

Helena

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O único conto publicado pela Nobel da Literatura  de 1993 retrata o crescimento de duas meninas que se conheceram no orfanato de St. Bonny’s, depois de ambas terem sido retiradas às suas mães. Desde o início que sabemos que as meninas são diferentes, por uma ser branca e uma ser negra numa América onde isso implica uma série de considerações a nível identitário. No entanto, Morrison omite a informação sobre a cor de pele de cada uma das meninas. Em consequência, Recitatif é um puzzle, um labirinto de pistas contraditórias que faz do leitor o próprio alvo da experiência desta peça de literatura experimental.

À medida que crescem, Twyla e Roberta encontram-se esporadicamente em episódios que nos permitem tirar algumas ilações sobre a dinâmica de relacionamento entre pessoas de raças diferentes, nos Estados Unidos, por volta dos anos 50 do século passado: um encontro num hostel onde Twyla trabalha, no meio de um protesto contra a dessegregação nas escolas e num supermercado para as pessoas de classe alta.

No final de contas, Twyla e Roberta definem-se por aquilo que é comum ao ser humano: a busca pelo sentido de identidade, a permanência da memória e o desejo de libertação em relação a um passado traumatizante. Afinal, quem espancou a Maggie?

“Easy, I thought. Everything is so easy for them. They think they own the world.”

A forma como Toni Morrison consegue atingir tanto numa narrativa tão curta é genial. Ao remover da caracterização das personagens algo que, à época, seria extremamente importante para a sua definição enquanto indivíduos, Morrison deixa um espaço aberto que completa com apontamentos e situações que põem o leitor na berma da ambiguidade. Por essa razão, esta é uma experiência de leitura que leva o leitor a aprender mais sobre si próprio do que sobre as personagens cuja história de vida vai desvendando. Consoante a visão estereotipada do leitor da dualidade brancos/negros, a narrativa assume contornos consideravelmente diferentes. Assim, esta é uma história importantíssima para tomarmos consciência dos nossos próprios preconceitos raciais.

Para alcançar este efeito de ambiguidade, Morrison teve de adotar um registo de linguagem que não deixasse transparecer a herança linguística e cultural de nenhuma das personagens. Com efeito, o equilíbrio entre um registo de indivíduo americano branco e um de raízes afro-americanas é essencial para o funcionamento desta narrativa, e é alcançado na perfeição.

Esta edição de Recitatif (Knopf, 2022) é acompanhada por uma introdução de Zadie Smith que, tendo optado por lê-la depois de ler o texto principal, me apresentou o conto sob uma série de novas luzes. Aconselho vivamente os leitores a que se dediquem a leituras complementares a esta, nomeadamente artigos de análise da obra, já que põem em destaque aspetos que podem passar despercebidos e aprofundam o sentido de genialidade da bibliografia de Morrison.

Em suma, apesar de ainda não existir uma tradução portuguesa deste conto, penso que esta é uma leitura obrigatória para uma melhor compreensão do mundo que nos rodeia, do passado de que resultamos e daquilo que, inconscientemente, somos.

16
Ago23

"Purple Hibiscus" - Chimamanda Adichie

Helena

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Numa Nigéria pós-colonial, política e economicamente instável, a família de Kambili vive num contexto de abundância e privilégio que está longe de ser a norma. Apesar de dispor de condições e oportunidades em muito superiores à média, a vida de Kambili aproxima-se mais de um pesadelo exasperante do que de um sonho próspero. O seu pai, Eugene, é fervorosamente religioso, e a imagem de um homem caridoso e bom que passa aos habitantes de Enugu contrasta fortemente com a agressividade com que educa os seus filhos. Contudo, mesmo que sufocada pelo rigor com que o pai determina o que pode ou não acontecer no dia a dia dos seus filhos, Kambili não tem as ferramentas para reconhecer na sua educação as marcas da repressão.

No entanto, uma visita à casa da tia Ifeoma, que vive em condições muito mais precárias, enquanto viúva com três filhos, trará a Kambili uma nova perceção da família e do mundo, da prática da religião e da necessidade legítima de rir. 

"It was hard to turn my head, but I did it and looked away.”

Enquanto romance de lançamento de Chimamanda Adichie, este livro é fenomenal. Esta é uma leitura desconfortável, claustrofóbica e revoltante, e é fantástica por isso mesmo. Apesar de nunca mencionar termos como “opressão”, Adichie transmite ao leitor a sensação vívida de viver sob o jugo de uma autoridade absoluta e abusiva.

Todas as personagens deste romance tiveram, de uma forma ou de outra, impacto em mim. Kambili, em primeiro lugar, pela inocência infantil com que venerava o pai, uma figura de amor e de sucesso, cujos comportamentos incompreensíveis eram suportados por uma consciência profundamente interiorizada da sua autoridade incontestável. Jaja, pela sua coragem em fazer frente ao pai, rompendo a tradição familiar com as suas próprias mãos, e por assumir as culpas que nem sempre eram dele, juntamente com as suas consequências. A mãe, enquanto mulher presa nos ciclos da violência doméstica, vítima de um marido violento e de uma sociedade mesquinha, cuja vida se desenrolava num beco sem saída. A tia Ifeoma, pelo seu comportamento empoderado, pela sua generosidade e pela sua integridade na defesa dos valores que eram mais importantes para ela – a verdade, a tolerância e a felicidade dos seus. Amaka, pelo seu modelamento enquanto personagem redonda, e os restantes primos pela resiliência alegre com que lidavam com a escassez que assombrava o seu dia a dia. O padre Amadi, pela sua perceção moderada de uma religião que devia ser acolhedora pelos seus valores, e não assustadora pelo seu rigor. Até o pai de Kambili, por boas e más razões: uma figura paterna que traumatizava os filhos como meio de transferência do seu próprio trauma, preso entre os deveres de denunciador do regime e de ajuda aos mais necessitados e os de educar duas crianças no seio de uma igreja cuja ordem dava sentido à sua vida.

Apesar de o tom geral de Purple Hibiscus ser de repressão e insegurança, esta é uma história de crescimento e libertação. Através do contacto com a sua família paterna, Kambili encontra a sua identidade, começa a questionar criticamente o ambiente em que foi criada e torna-se dona dos seus próprios objetivos. Assim, um romance de opressão e extremismo torna-se num romance de superação e de esperança.

Tenho um fascínio particular por livros que me levam a descobrir formas de viver e de pensar que me são alheias, e este livro é uma autêntica porta para as vivências da população nigeriana pós-colonial, tanto das franjas mais abastadas como das camadas mais pobres. Adichie faz um excelente trabalho de representação cultural ao incluir, por exemplo, excertos de conversas em igbo, a língua local, ou ao referir os nomes das comidas que pontuavam a alimentação quotidiana.

Comprei este livro enquanto esperava pela chegada de um comboio atrasado, e ainda bem. Tenho a certeza de que vai parar ao topo dos meus favoritos de 2023.

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