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H-orizontes

H-orizontes

24
Nov22

“The Pearl” – John Steinbeck

La Paz é uma aldeia costeira orlada pelas cabanas de uma comunidade de pescadores pobre, sujeita ao poder dos que possuem a autoridade do alfabetismo. Nesta aldeia vivem Kino e a sua família, Juana e o bebé Coyotito, que sobrevivem à base da pesca e da apanha de pérolas no mar às suas portas.

Tudo muda quando, um dia, Kino encontra a chamada Pérola do Mundo – uma pérola gigante cujo brilho reflete uma infinidade de possibilidades. Kino começa a esboçar os destinos que daria ao dinheiro que ganharia com a venda daquela pérola: o seu casamento com Juana, a educação empoderadora do seu filho e o poder alucinante que poderia ter na aldeia se tivesse uma arma.

Contudo, nem tudo é tão belo e promissor como o brilho da pérola fazia prever. A notícia da descoberta de Kino espalha-se rapidamente pela comunidade, e não tardam a surgir tentativas de roubo da Pérola do Mundo. Em pouco tempo, a inveja e o oportunismo dos indivíduos alcança proporções inesperadas – roubos, simulações e tentativas de manipulação, consequências extremas da posse de uma oportunidade de emancipação.

“I am man,” and that meant certain things to Juana. It meant that he was half insane and half god.

The Pearl é uma novela bela na sua simplicidade. Esta história curta é mais intensa pela mensagem que lhe é implícita do que pelas palavras que Steinbeck escolheu para a contar.

“For it is said that humans are never satisfied, that you give them one thing and they want something more.” Esta célebre citação sintetiza o problema central desta novela: a crueldade materialista dos homens, cuja ambição desmedida os leva a cobiçar os bens alheios e as possibilidades mais remotas.

Gostei particularmente que o autor tenha dotado a personagem de Kino da herança familiar de associar os momentos e as sensações a melodias. Assim, enquanto, na cabeça de Kino, tocavam as canções da pérola, do inimigo ou da família, os leitores acompanham a narrativa como se esta fosse complementada por uma banda sonora, o que intensifica todas as suas sensações.

Em conclusão, The Pearl é um livro ideal para quem não tem muito tempo para ler e não gosta de construções narrativas muito complexas nem de linguagem rebuscada. Para quem tem muito tempo para ler e gosta de narrativas mais complexas e de um bom emprego da linguagem, é ideal também.

A plan is a real thing, and things projected are experienced.

23
Nov22

“O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça” – Ana Margarida de Carvalho

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O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça é uma história de vingança, de abandono e de condenação, cuja ação se concentra entre dois entardeceres.

A ação inicia-se com a jornada de regresso da personagem de Simão Neto à aldeia miserável de Nadepiori, um recanto agreste e ventoso do Alentejo. Enquanto Simão tenta regressar à sua aldeia sem perder a mercadoria de azeitonas recém-apanhadas que transporta, é atacado por uma matilha de cães selvagens a que sobrevive graças à intervenção de um estrangeiro misterioso que se faz acompanhar por um arpão – um homem do mar regressado à terra. Constantino, o sétimo filho de sete irmãos, regressava à sua terra natal depois de sete anos de exílio, determinado a aplicar justiça pelas próprias mãos.

Através de uma narrativa sinuosa, Ana Margarida de Carvalho cede-nos o lugar do observador da vida no interior do Alentejo em pleno Estado Novo, inserindo-nos numa teia de histórias de vida cujos desfechos não foram aqueles que eram esperados, e cuja base é a luta pela vida numa aldeia em que se vive à força, à mercê da liderança impiedosa do povo vizinho.

porque só um humano entende tanta desumanidade

O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça é um livro complexo, com seis capítulos e seis pontos finais, sugerindo uma autêntica caminhada, a infinidade laboriosa de um carreiro de formigas, “encarrilhadas umas nas outras, sem parar, como as linhas de um livro”.

Não gostei tanto deste romance como do Que Importa a Fúria do Mar, da mesma autora, uma vez que a sua ação é menos relevante para o seu valor do que a forma como a autora escolhe construir a narrativa – um puzzle de informações, por vezes quase veladas, que me fizeram precisar de o ler duas vezes.

Apesar disso, despertou-me um interesse particular a forma como a conversa entre as mulheres junto ao antigo depósito de água da aldeia revela que é nelas que reside a liderança das vidas em Nadepiori. São elas que estão por trás das decisões e acima das tramas da pobreza, e elas que mantêm as famílias vivas neste fim de mundo – um papel fundamental para a ordem universal das coisas, muito próxima da noção de Saramago de que “esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fosse falarem as mulheres umas com as outras, já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta” (SARAMAGO, José - Memorial do Convento. Lisboa: Editorial Caminho, 1982).

Chegados ao final do livro, podemos concluir que “o gesto que fazemos para proteger a cabeça” é, na verdade, uma reação involuntária face ao perigo, um reconhecimento instintivo da vulnerabilidade do Homem, preso num corpo sem saída e condenado à tirania das forças que o ultrapassam.

a veces hay que caer con el fin de saber dónde estamos

09
Nov22

“Que Importa a Fúria do Mar” – Ana Margarida de Carvalho

Que Importa a Fúria do Mar, publicado pela primeira vez em 2013, foi obra finalista do Prémio LeYa em 2012 e venceu, por unanimidade, o Grande Prémio de Romance e Novela APE-DGLAB de 2013.

Eugénia, jornalista ambiciosa permanentemente remetida para os programas a que ninguém presta atenção, depara-se com mais um trabalho que não a fascina nem atrai: entrevistar um idoso sobrevivente do campo de concentração do Tarrafal. “Veio parar a túmulo bafiento. A um viveiro de ácaros, camadas geológicas de ácaros, moscas e cogumelos das infiltrações.” Aquilo que Eugénia não espera é que Joaquim da Cruz, um homem apanhado no lugar errado à hora errada, na revolta comunista da Marinha Grande de janeiro de 1934, desperte nela um fascínio que a fará regressar, uma e outra vez, à casa de Joaquim e às suas palavras esparsas e vagarosas.

Assim, de entre a repressão de um regime ditatorial, a jornalista vê surgir uma história de amor entre um homem condenado e uma mulher que lhe prometeu uma espera eterna. “O Tarrafal? Mas isso é uma história de amor…”

Querida irmã, há tantas coisas bonitas que ainda não há.

Neste romance, Ana Margarida de Carvalho dá voz às vítimas do regime salazarista que a repressão política e intelectual enviou para os horrores do campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. No entanto, Que Importa a Fúria do Mar ultrapassa os tormentos dos injustamente condenados à violência e à exploração, abrangendo também as consequências das infâncias atribuladas, o poder das paixões e o impacto que pequenos acasos podem ter numa vida inteira.

As páginas deste romance transbordam de referências intertextuais, como a Fernando Pessoa, aos seus heterónimos e a Bob Dylan. Num fluxo de consciência entretecido com a narrativa, formas de expressão populares e eruditas formam uma teia rica de linguagem e estilo que fazem deste livro uma viagem pelas heranças cultural e literária portuguesas.

Esta narrativa contraria o sentido comum do mar para os artistas e os poetas: um meio de evasão e libertação, cheio de oportunidades e de vida. Que Importa a Fúria do Mar apresenta o mar como algo que reprime e aprisiona os homens. Uma sensação de claustrofobia atravessa a obra através do paralelo entre o mar que impossibilita a fuga dos prisioneiros no Tarrafal e o mar que atemoriza a infância da narradora, encerrada no quarto das traseiras da casa dos tios, onde a mãe a deixara antes de prosseguir a sua vida.

Que Importa a Fúria do Mar é um livro para ler e reler, um exemplo de como a literatura é o resultado da conjugação de influências antigas e técnicas narrativas novas, desafiando os leitores a voltar ao passado, ainda que com os pés bem assentes no presente.

A mim, o não-sentido da poesia basta-me.

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