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H-orizontes

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13
Set22

“Persépolis” – Marjane Satrapi

Helena

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Através desta novela gráfica autobiográfica, acompanhamos o crescimento de Marjane, uma criança sonhadora cuja infância foi profundamente marcada pelo radicalismo e pela guerra.

Quando era pequena, Marji queria ser profeta e transformar todo o mal do mundo em prosperidade e amor. À medida que o tempo passa, contudo, a protagonista desta história apercebe-se de que os seus sonhos são uma utopia e de que não há revoluções nem golpes de estado que ponham fim à avidez humana de riqueza e de poder.

Pouco depois de a deposição do Xá permitir aos iranianos sonhar com a liberdade, a revolução islâmica volta a mergulhar o país no tradicionalismo e na repressão, agravados pelo início da guerra com o Iraque.  Desejosos de permitir à sua filha uma juventude longe da guerra, dos lenços na cabeça e do isolamento face à cultura ocidental, os pais de Marjane encaminham-na para uma escola francesa em Viena. Uma vez na Europa, e apesar dos conselhos da família que prometera não esquecer, Marji dá por si num torvelinho de escolhas, mudanças e emoções, que leva à diluição das suas convicções e à sensação de que o controlo da sua vida lhe escapava.

Como criança no Irão, estudante na Europa e mulher de volta à sua terra natal, Marjane leva-nos consigo numa longa e conturbada busca pela sua verdadeira identidade e pelos valores que acredita ser preciso defender.

“Nesse dia, aprendi uma coisa essencial: só conseguimos sentir pena de nós mesmos quando as nossas desgraças ainda são suportáveis. Quando se ultrapassa esse limite, a única maneira de suportar o insuportável é rirmo-nos dele.”

Marjane Satrapi construiu uma novela gráfica a preto e branco e conseguiu que fosse tanto ou mais expressiva do que uma história contada ao vivo e a cores. A expressividade de cada vinheta transmite, por si só, uma mensagem que, para além de a complementar, ultrapassa a mensagem transmitida pelas falas das personagens.

Através deste livro, o leitor tem a oportunidade de se informar acerca da história do Irão, de uma forma simples, didática e cativante. Optando por retratar a sociedade iraniana do ponto de vista de uma criança, Satrapi reduziu ao essencial a complexidade do passado de um povo e dos valores sobre os quais a sua cultura foi erigida.

Acompanhando as reviravoltas da vida de Marji, desde a sua infância até ao início da sua vida adulta, constatamos que, quer no Ocidente, quer no Oriente, a vida é fundamentalmente imprevisível, e que os erros são parte fundamental do crescimento.

Assim, Persépolis é uma obra singular que retrata as consequências da guerra e da repressão no quotidiano do povo iraniano no passado recente e a importância dos valores individuais para a defesa de uma sociedade mais livre e mais justa.

08
Set22

“O Primo Bazilio” – Eça de Queiroz

Helena

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O segundo volume da série queirosiana que constitui um retrato crítico da sociedade portuguesa do século XIX foi publicado pela primeira vez em Portugal em 1887, tendo sido reeditado no mesmo ano por se terem vendido todos os exemplares.

O Primo Bazilio insere-nos no seio da vida doméstica da burguesia lisboeta novecentista. Luiza, dona de casa e mulher de Jorge, vê-se sozinha na capital devido a uma viagem de negócios do seu marido ao Alentejo. A solidão de Luiza não tarda a ser preenchida pelas visitas do seu primo Bazilio, chegado do Brasil, onde fizera fortuna. Apesar da sua consciência de esposa responsável, Luiza não consegue resistir aos encantos do primo que já quando eram mais jovens a tinha conquistado, antes de partir para o Novo Mundo.

O movimento na casa de Luiza não passa despercebido à curiosidade da vizinhança, ávida de novos escândalos e boatos. Entretanto, Jorge, longe de casa, não sabe de nada do que se passa entre a sua esposa e o querido primo, e Luiza descobre os prazeres libidinosos do adultério. Atraída para um estratagema amoroso do qual não tem forças para sair, Luiza entrega-se a uma relação sigilosa que se poderia ter prolongado por muito tempo, não fosse uma carta comprometedora ter aterrado no cesto dos papéis que a criada tinha a função de despejar…

"Assim um iate que aparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar, ao partir, nos lodaçais do rio baixo; e o mestre aventureiro que sonhava com os incensos e os almíscares das florestas aromáticas, imóvel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz ao cheiro dos esgotos."

Eça volta a presentear-nos com a sua ironia numa representação satírica da sociedade da época constitucionalista. A crítica queirosiana atinge não só o atraso lisboeta em relação ao mundo moderno e o caráter fraco da sua população, mas também os novos-ricos levianos e interesseiros, a quem o poder e riqueza que detêm dão a sensação de poderem beneficiar da simplicidade daqueles que os rodeiam.

Esta narrativa está povoada de personagens que, interferindo ou não na ação principal, têm um papel essencial na construção do cenário social do enredo. Os vizinhos coscuvilheiros, o conselheiro ambicioso ou o médico quase rendido à corrupção do sistema não influenciam nem alteram a trajetória da narrativa, mas conferem verosimilhança ao ambiente em que se desenrola esta história de adultério.

O Primo Bazilio é mais um monumento do realismo português, sendo que, desta vez, Eça elevou a objetividade do relato a um ponto que roça o erotismo. Esta é uma narrativa de luxúria, desejo, impulsividade e consequente arrependimento, enriquecida por personagens que podiam perfeitamente ser de carne e osso, tal é a forma como o leitor acaba por se relacionar com elas e por nutrir por elas sentimentos indizivelmente intensos. Assim, trata-se de uma obra que recomendaria tanto como porta de entrada para a literatura queirosiana, como para dar sequência ao maravilhamento de um leitor que se tenha apaixonado pela obra-prima que é Os Maias.

"É que o amor é essencialmente perecível, e na hora em que nasce começa a morrer."

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