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H-orizontes

H-orizontes

26
Mai22

“Manhã submersa” – Vergílio Ferreira

Helena

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António Lopes da Silva, que a família pobre confiou a uma educação religiosa, deixa a sua terra beirã para pisar pela primeira vez o seminário. Uma vez aí, António vê-se a braços com as saudades de casa, a rigidez dos mestres, a violência dos castigos e a crueldade azeda de alguns dos seus colegas. De facto, nada no seminário lhe agrada, porém encontra-se proibido de expressar o seu tormento: as cartas enviadas para casa são previamente lidas pelos padres e admitir a sua falta de vocação desgraçaria a sua família. Assim, António regressa ao seminário, uma e outra vez, resignando-se inocentemente ao seu destino e àquilo que os outros lhe apresentam como indubitável. Mas a fé não atinge todos os corações, e a dureza do seminário não consegue domar os espíritos de todos os adolescentes que descobrem que talvez o seu lugar não seja à frente de um altar.

“Pela primeira vez estremeci de medo até aos limites da vida, não tanto, porém, da fúria do comboio, como dessa coisa insondável e enorme, tão grande para mim, que era partir.”

Este foi o primeiro livro de Vergílio Ferreira que li. Manhã Submersa é um relato cru das vivências de uma criança encurralada entre a sua infância e aquilo que os adultos planearam para o seu futuro. Assim, a narrativa balança entre o desejo intenso de António de voltar para casa e renunciar a tudo o que esperam dele e a sua resignação em relação ao seu dever para com a sociedade e a sua família.

Numa autêntica viagem ao interior rural português do século passado, Manhã Submersa encerra um retrato vívido da dura realidade da época: mães pobres cediam os seus filhos ao cuidado de famílias abastadas, que os sustentavam até poderem ingressar num seminário. A carreira eclesiástica, muito valorizada pela opinião pública, era vista como uma fonte de estabilidade económica para muitas famílias que viviam na sempiterna precariedade. Como consequência, a vocação e a necessidade confundiam-se nos corredores dos seminários, santuários separados do mundo real por uma cortina de boa reputação que escondia os maus-tratos e abusos de que as crianças eram vítimas.

Apesar de conter algumas reflexões mais ou menos profundas ao longo da narração, este é um romance acessível e de leitura fácil. Vergílio Ferreira demonstra neste livro um profundo domínio da língua portuguesa, apetrechando as frases de artifícios linguísticos sem interromper a fluidez da narrativa nem fazer com que esta se torne aborrecida.

Em conclusão, Manhã Submersa é um universo em si próprio, um mundo de pobreza, de medo e de inocência que nos é dado a conhecer pelos olhos límpidos de uma criança com uma infância por viver.

26
Mai22

“A Vegetariana” – Han Kang

Helena

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Numa narrativa dividida em três partes, cada uma narrada por uma personagem diferente, A Vegetariana é a história de Yeong-hye, uma mulher casada que, depois de um pesadelo perturbador, decide deitar fora toda a carne que tem em casa e tornar-se vegetariana. Esta mudança radical não é bem recebida por aqueles que a rodeiam, especialmente pela sua família.

Assim, Yeong-hye inicia a sua jornada de alienação em relação à sociedade sul-coreana, recusando-se a ceder à pressão de todos aqueles que tentam contrariar a sua convicção de que se estava a transformar numa planta, um ser alimentado pelo sol e livre da violência de que tinha sido vítima quando era ainda uma criança.

No entanto, não é só Yeong-hye a sentir a necessidade de romper com os cânones sociais e viver pelos seus próprios princípios, embora seja a única a pô-lo em prática. Também o seu cunhado, um artista frustrado, vive na angústia de um casamento enfraquecido e da mediocridade do seu trabalho, enquanto In-hye, a irmã da protagonista, se vai apercebendo de que a sua vida de resiliência e trabalho talvez tenha estrangulado o seu verdadeiro potencial para ser feliz.

“Terá sentido viver as coisas sempre com tanta veemência?”

A Vegetariana foi publicado pela primeira vez na Coreia do Sul, em 2007, mas só foi publicado em Portugal em 2016, pela D. Quixote. Contrariamente ao que o título possa levar a pensar, esta não é uma história sobre vegetarianismo. Esse é apenas o ponto de partida para uma história de alienação, de afirmação da vontade individual e da intolerância da sociedade face a novas perspetivas.

Assim, apesar de ter passado a maior parte do livro chocada pela atitude extrema da protagonista, compreendi no fim que o que está em causa não é a natureza da sua decisão, mas a forma como os que a rodeiam a percecionam. Como os leitores afirmam, este é um livro feito de camadas e de símbolos que fazem dele uma alegoria para as relações sociais, para as expectativas que temos relativamente aos nossos semelhantes e para as reações de quando eles não lhes correspondem.

Para além disso, o fio da narração de A Vegetariana, o que move as suas personagens e suporta a sua estrutura não é o mundo físico, mas sim algo mais etéreo e subjetivo. O que está em causa não é a repulsa de uma mulher em relação à carne, o desejo de um homem pelo corpo da sua cunhada ou o desejo de riqueza material, mas sim o poder das crenças, das memórias, da pureza e da busca pela felicidade.

Em conclusão, este livro, cujo final aberto me deixou algo perplexa, revelou-se totalmente diferente daquilo que esperava, e também de tudo aquilo que já li. A densidade psicológica das personagens e a bizarria que enche estas páginas, realçadas pelo estilo cru e conciso da autora, surpreenderam-me e fizeram com que esta leitura passasse de uma mera curiosidade a um autêntico vício. Assim, recomendo A Vegetariana aos fãs de Kafka, de absurdo e de histórias que têm de ser lidas nas entrelinhas.

23
Mai22

“Marina” – Carlos Ruiz Zafón

Helena

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Barcelona, 1979. Óscar Drai, interno num colégio nos arredores de Barcelona, abandona o internato para mais um passeio pelas redondezas abandonadas de Sarriá. Contudo, algo neste passeio mudará radicalmente a sua vida: atraído pela aura misteriosa de um dos casarões degradados, decide passar os seus portões. No interior do casarão, o som de um piano ressoa pelo ar e um relógio dourado descansa em cima de uma mesa. Assim que Óscar pega no relógio, a cadeira defronte à lareira volta-se e uma figura esguia levanta-se para o apanhar. Óscar corre velozmente até conseguir despistar o seu agressor, mas, quando o faz, repara que ainda segura nas mãos o objeto reluzente.

Mais tarde, de consciência pesada, Óscar decide-se a regressar ao casarão para devolver o relógio roubado. Desta vez, espera-o uma nova presença nos portões: Marina, uma rapariga misteriosa que o levará para a aventura mais macabra da sua vida. Desafiando a coragem de Óscar, Marina leva-o a um cemitério onde tinha visto uma estranha senhora vestida de negro que visitava regularmente uma campa marcada apenas por um símbolo de uma borboleta negra. O mistério adensa-se quando, seguindo a dama de negro, os amigos se deparam com uma estufa abandonada, recheada de marionetas inacabadas e perturbadoramente reais… Uma vez dentro do enigma, Óscar e Marina não conseguem sair: que segredos esconde o desenho singelo de uma borboleta?

"Às vezes, as coisas mais reais apenas acontecem na imaginação"

Já há muito tempo que queria reler um dos meus livros favoritos de todos os tempos. Marina, que também é uma das criações preferidas do próprio autor, ressurgiu aos meus olhos como o primeiro labirinto sombrio do mundo zafoniano em que me perdi, com todo o seu mistério e as suas criaturas sinistras.

Apesar de ter revivido os passos de Óscar e Marina pelas ruas de Barcelona, o seu impacto já não foi o mesmo, e pude analisar Marina como uma produção embrionária da mente brilhante de Zafón. Costumava recusar que A sombra do vento fosse mais célebre e bem considerada do que Marina, mas agora compreendo que essa conceção da obra zafoniana se deve à ordem pela qual entrei em contacto com ela: primeiro Marina, depois A sombra do vento. No entanto, já neste livro é visível a capacidade incrível do autor para a criação de mundos fantásticos e para o entrelaçar de enredos dentro de uma história só.

De facto, uma das maravilhas de Marina é a forma como Zafón constrói uma autêntica matrioska de relatos, uma sobreposição de testemunhos sobre vidas, ou mesmo sobre uma vida só. O leitor vê-se perdido no labirinto da ação e no labirinto das próprias personagens, cujo passado que nos é recontado vezes sem conta se metamorfoseia constantemente.

A mestria na construção de mundos ficcionais manifesta-se não só a nível geral, com a aura sombria que Zafón faz pairar sobre a Barcelona do pós-guerra, como a nível particular, com o desenvolvimento do caráter das personagens e da maneira como são percecionadas por quem lê. Um menino de internato torna-se um herói, a rapariga imperturbável revela a sua fragilidade, e o vilão terrível emerge de um passado que, de súbito, o justifica.

Assim, a minha opinião em relação a este livro mantém-se, no geral, tendo verificado mais uma vez que encarna a possibilidade da conjugação de vários géneros e atmosferas num só romance, acessível e fascinante. Como tal, volto a recomendar Marina a todos os leitores e aspirantes a leitores, convidando-os depois a aventurarem-se pela tetralogia do Cemitério dos Livros Esquecidos.

10
Mai22

“O Clube dos Suicidas” – Robert Louis Stevenson

Helena

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Estes três contos interrelacionados apresentam-nos a perturbadora aventura de um príncipe libertino e do seu cúmplice, na Londres do século XIX. Numa das noites em que saiu às escondidas do seu palácio para uma noite de diversão com o Coronel Geraldine, o príncipe Florizel encontra num bar uma figura bizarra que o levará ao serão mais estranho da sua vida. Um rapaz vendia pastéis de nata, afirmando ser a última vez que o faria, não por ter sido despedido, mas porque pretendia acabar com a própria vida nessa mesma noite. Face à surpresa dos homens do palácio, o rapaz revela-lhes a sociedade que lhe possibilitará o cumprimento da sua vontade, sem que ele tenha de se responsabilizar pelo fim da sua existência: o clube dos suicidas.

Este clube consistia numa reunião de homens desesperados por acabar com a sua vida, que se sentavam à volta de uma grande mesa enquanto o presidente do clube distribuía cartas. Quem ficasse com o ás de espadas morreria, e o assassino seria aquele que recebesse o ás de paus. Fascinado e horrorizado simultaneamente por este conceito, o príncipe Florizel convence o seu amigo a juntar-se com ele ao clube dos suicidas.

Até que ponto poderá o príncipe confiar na sua sorte? E conseguirá o presidente do clube dos suicidas manter-se imune às consequências da liderança de uma organização com fins tão terríveis?

Encontrei este livro por acaso, enquanto procurava outro livro de Stevenson, e a sua sinopse cativou-me de imediato. É tão original que, assim que encontrei o livro, comecei a lê-lo. Como é curto e pouco denso, demorei pouco tempo a chegar ao fim da história. No entanto, muito acontece ao longo deste pequeno número de páginas, e tive de voltar ao início para conseguir ligar alguns fios do mistério.

Esta edição da Bookcover Editora não é, de longe, tão boa como a de Madame Bovary. Apesar de ser muito mais curto, este livro apresenta mais gralhas e menos rigor na sua tradução. Mesmo assim, não foi impeditivo para a compreensão e fruição do texto.

Apesar de não ser um livro fascinante, O clube dos suicidas prendeu-me do início ao fim pela originalidade do seu enredo e pelos sucessivos plot-twists da ação.  Assim sendo, recomendo este tesourinho a todos os que precisarem de uma leitura curta para escapar ao “rame-rame” do quotidiano.

04
Mai22

“O Deus das Moscas” – William Golding

Helena

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Um grupo de meninos que sobreviveram à queda de um avião veem-se reunidos numa ilha deserta, sem quaisquer adultos que os supervisionem ou orientem. À partida, este seria o sonho de qualquer criança: um período indefinido de liberdade ilimitada. Com efeito, as crianças começam de imediato a construir a sua própria sociedade: elegem um líder, definem o método para a convocação de assembleias e atribuem funções. No entanto, a ilusão de um mundo ideal rapidamente se desmorona.

À medida que a ação se desenrola e as prioridades das crianças na ilha começam a divergir, o instinto selvagem de cada uma começa a vir ao de cima e a lei da sobrevivência a todo o custo acaba por se sobrepor a todas as outras. Afinal, as crianças podem ser cruéis e egoístas, e nada melhor para despertar a sua natureza mais profunda do que um terror irracional em relação a algo que desconhecem – e a possibilidade da presença de um monstro na ilha paira permanentemente sobre as mentes de todos os rapazes.

“Ralph chorou pelo fim da inocência, pelas trevas do coração do homem”

O Deus das Moscas é uma distopia escrita por William Golding em 1954. Esta história é considerada por muitos um testemunho chocante da crueldade humana, mas não consegui envolver-me o suficiente na narrativa para me sentir verdadeiramente horrificada por ela.

Este livro pode ser interpretado como uma alegoria que foi mudando de significado ao longo do tempo. Este grupo de crianças é um retrato cru do poder dos instintos primitivos do homem, e da influência que a ambição pode ter no caráter e nas ações do indivíduo. O conflito que divide os rapazes e os leva a perder por completo os seus escrúpulos pode remeter para a irracionalidade da guerra. Até as personagens podem ser vistas como representações de tipos sociais: Ralph desempenha o papel das expectativas sociais, Piggy é uma espécie de consciência e Jack personifica a natureza mais violenta e primitiva do Homem.

Apesar de considerar que esta história parte de um argumento com muito potencial e é suscetível de uma análise simbólica que lhe acrescenta profundidade, não consegui desfrutar da forma como foi concretizada. A ação perde-se entre descrições desnecessárias da ilha, diálogos vagos e debates repetitivos que aborrecem o leitor. A maior parte do livro prende-se com discussões acerca da necessidade de manter uma fogueira, da vontade de caçar, da ameaça do monstro e de quem tem o búzio cuja posse lhe dá permissão para falar. Se a narração estivesse focada noutros pontos da vida dos rapazes na ilha, seria certamente mais cativante.

No geral, fiquei com a sensação de que todo o livro é vago: as conversas, os acontecimentos, as reações aos acontecimentos, tudo é concretizado por meias palavras e frases incompletas que me impediram de perceber a ação que estava a decorrer. Para além disso, há demasiadas pontas soltas: como surgiu o cadáver que oscilava no cimo da montanha? O que aconteceu no episódio de alucinação de Simon? Para onde foi o menino da mancha na cara? Em vez disso, somos repetidamente informados acerca da extensão do areal da praia.

Em conclusão, penso que este é um livro que parte de um conceito promissor e que encerra uma alegoria de elevada importância, mas que peca pela concretização imperfeita.

“Parou de remexer no dente e ficou quieto, a assimilar as possibilidades da autoridade irresponsável.”

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