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H-orizontes

H-orizontes

23
Mar22

“Normal People” – Sally Rooney

Helena

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Connel e Marianne cresceram juntos numa pequena cidade do norte da Irlanda, mas não podiam ser mais diferentes. Connel é um rapaz popular, que pratica desporto e vive rodeado de amigos. A sua mãe trabalha como empregada doméstica na casa de Marianne e a sua baixa condição económica obriga-o a trabalhar a dobrar para atingir os seus objetivos. Por seu lado, Marianne é posta de lado por todos os colegas, passa os intervalos a ler e é alvo de chacota. Descendente de uma família abastada, vive quase alienada das dificuldades por que passam os mais desfavorecidos.

Apesar das suas diferenças, as vidas dos dois jovens tocam-se durante os breves minutos em que Connel vai buscar a mãe a casa de Marianne no fim de um dia de trabalho. É numa dessas ocasiões que ambos percebem que há algo que os une para além da conversa de circunstância, algo para além das circunstâncias, do espaço e do tempo. Esta narrativa segue a evolução da relação entre Connel e Marianne entre janeiro de 2011 e fevereiro de 2015, e a maneira como as voltas da vida e do crescimento a modificam.

Depois da ida para a universidade, Marianne torna-se popular e Connel debate-se com uma fase em que ninguém o compreende. Ambos encontram outras pessoas, voltam a encontrar a felicidade, a perdê-la, a errar e a encontrar o caminho de volta à vida que planeavam, numa sucessão de “small decisions” que os separam até, irremediavelmente, os voltarem a juntar.

Um romance sobre o amor, a amizade, a violência, as desigualdades, a sexualidade e o pequeno turbilhão em que se veem envolvidos aqueles que, por mais que tentem, não conseguem ser “pessoas normais”.

“It suggests to Connel that the same imagination he uses as a reader is necessary to understand real people also, and to be intimate with them.”

Um romance tão simples, tão linear e tão repetitivo não seria, certamente, o meu livro de eleição, mas o que é certo é que acabei por ter de me obrigar a pousá-lo para não o ler de uma assentada. Isto deve-se não só ao facto de eu me encontrar na mesma fase da vida que as personagens principais, mas também porque Sally Rooney não se limita a escrever sobre uma relação turbulenta entre dois jovens peculiares.

Um dos elementos centrais da relação entre Connel e Marianne é o fosso económico-social que os separa e a forma como este a compromete. Connel, filho de uma mãe solteira que trabalha como empregada de limpeza para o conseguir sustentar, é à partida muito diferente de Marianne, cujo conforto económico lhe permite uma certa alienação em relação às pessoas de um estrato social abaixo do dela. Este desfasamento é visível, por exemplo, na candidatura de Connel e Marianne à bolsa da universidade. Enquanto Connel recorria à bolsa por pura necessidade, para conseguir suportar melhor os custos relacionados com a faculdade, Marianne candidata-se pelo prazer que retira do reconhecimento do seu mérito, como que para reafirmar a sua inteligência e estatuto.

Por outro lado, Sally Rooney deixa claro que o dinheiro não é suficiente para garantir uma boa vida pessoal, social e familiar. Apesar da sua baixa condição económica, Connel conta com um vasto círculo de amigos na escola secundária e com uma mãe que o apoia. Por seu lado, a adolescência de Marianne foi marcada pela exclusão, pelo bullying e pelos maus-tratos de que era vítima, primeiro por parte do pai e, após a morte deste, pela mãe e pelo irmão, que a desprezam. Assim, a dinâmica entre as personagens principais encontra o seu equilíbrio no facto de nenhuma vida ser perfeita, de todos sermos falíveis e de que ninguém é permanentemente feliz.

Em conclusão, apesar de se tratar de um livro comum, construído em volta de personagens e circunstâncias esteticamente agradáveis, Normal People é um romance de camadas que o tornam mais do que uma leitura superficial e recreativa.

16
Mar22

“O meu nome é Vermelho” – Orhan Pamuk

Helena

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Do fundo de um poço, algures nos arredores da Istambul do século XVI, chega-nos a voz de um cadáver, cuja falta de um enterro digno impede o descanso da sua alma. Desesperado e dominado pela sede de vingança, o morto exalta a urgência da descoberta do seu assassino. A partir daí, abrem-se as portas para o mundo em que o mistério nos será dado a desvendar.

Corria o boato de que o Sultão teria feito uma encomenda a um velho pintor, e que este o teria convencido a incluir na obra encomendada algumas características que chocavam os pintores conservadores pelo seu caráter herético. Perspetiva, sombras, planos, retratos? Tudo isso era uma clara afronta ao poder absoluto de Deus, cuja visão do mundo, plana e sem distinção entre a relevância dos seres, era a única que devia ser representada. A nuvem da influência do renascimento ocidental parecia pairar sobre a turbulenta Istambul, criando uma cisão entre aqueles que defendiam a tradição com unhas e dentes e aqueles que reconheciam a necessidade de expandir a pintura a novas realidades. É no centro deste conflito que tem lugar o assassinato do Senhor Delicado, o cadáver que nos falou do fundo do poço, cujo assassino temia que o conservadorismo religioso traísse o segredo da encomenda do Sultão.

Alguns dias depois, o velho responsável pela organização da encomenda é assassinado pela mesma mão que matara o miniaturista Delicado. Assumindo a responsabilidade de dar continuidade àquele projeto e almejando mostrar-se merecedor da mão da sobrinha do ancião, o senhor Negro, regressado da guerra, lança-se em busca do assassino que não só põe em risco a segurança dos pintores, como também a conclusão do grande projeto.

Confesso que este livro foi uma grande desilusão para mim. Estava muito entusiasmada com a ideia de ler um livro sobre um mistério contado a partir dos pontos de vista de várias personagens, principalmente tendo em conta que Orhan Pamuk foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura de 2006, mas o interesse esvaiu-se depressa. Isto deveu-se principalmente à forma como o autor decidiu abordar o mistério principal. Tratando-se este de um assassinato motivado pelos conflitos ideológicos existentes entre grupos de pintores, Pamuk direciona o escopo da narrativa para reflexões acerca dessas divergências. Assim, o mistério central acaba por se perder entre as considerações artísticas das personagens.

Como consequência desse desvio do foco da narração, não me pareceu que houvesse nada de particularmente relevante para a construção de uma suspeita quanto ao assassino. Por isso, não senti que a revelação do responsável pelos crimes tivesse um impacto tão forte como seria de esperar, já que não se tinha criado uma relação especial com nenhuma das personagens, nem formado uma ideia acerca do possível responsável.

Aquilo que mais me fascinou nesta história foi o facto de retratar os cânones artísticos que vigoravam no Oriente enquanto o Renascimento florescia no território europeu. Como os programas dos ensinos básico e secundário se focam apenas no movimento cultural do Renascimento, nunca me tinha ocorrido que, nessa época, os princípios artísticos fora das fronteiras europeias fossem outros, e que a influência renascentista fosse vista como uma ameaça para a tradição da pintura oriental.

Assim, apesar de se tratar de um livro interessante do ponto de vista artístico e filosófico, “O meu nome é Vermelho” revelou-se um romance pouco aliciante, cujo ritmo lento e o teor reflexivo não se adequam à violência e ao mistério do assassinato por deslindar.

“É o amor que torna as pessoas idiotas, ou só os cretinos se apaixonam?”

“(...) se a imagem do ser amado continuar viva no nosso coração, o mundo inteiro é a nossa casa.”

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