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H-orizontes

H-orizontes

30
Ago21

“La buena suerte” – Rosa Montero

Helena

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A bordo do comboio que faz a ligação entre Madrid e Málaga, viaja um homem misterioso e taciturno, com os olhos presos ao ecrã do seu computador. Este homem é Pablo Hernando Berrocal, um célebre arquiteto que tem uma conferência agendada na cidade andaluza. Contudo, o conferencista não chega a cumprir o seu compromisso. Assim que chega ao seu destino, Pablo apressa-se a pedir informações sobre os transportes que o poderiam levar até à penúltima paragem do comboio em que viajara: a minúscula e decrépita cidade de Pozonegro.

Do dia para a noite e sem razão aparente, Pablo Hernando compra e instala-se por um tempo indeterminado num apartamento horrível de um prédio de Pozonegro. É neste prédio que o arquiteto conhece Raluca, uma mulher de origem romena que pintava quadros de cavalos e fora outrora dada como louca. Alegre e solícita, Raluca rapidamente passa a ocupar um lugar muito importante na nova vida de Pablo: é ela quem o ajuda a fazer compras para a casa, quem lhe arranja um trabalho como repositor no supermercado Goliat e quem o ajuda a dissipar as sensações de estar sozinho, de não ser confiável e de não saber amar.

Assim, num refúgio recôndito da paisagem espanhola, Pablo depara-se com uma oportunidade para começar de novo, olhando em frente ao mesmo tempo que é obrigado a lidar com os fantasmas do seu passado e com as sombras destes no seu presente. No final de contas, todos os moradores de Pozonegro têm segredos: o arquiteto famoso, a pintora amalucada, a gótica bizarra, o octogenário com problemas respiratórios ou a vizinha do andar de cima cuja filha Pablo consegue ouvir gritar…

“La alegría es un hábito.”

Depois de me ter apaixonado pela escrita de Rosa Montero com A ridícula ideia de não voltar a ver-te, decidi continuar a explorar as suas obras, desta vez o seu livro mais recente. A sinopse prometia uma boa história, e o livro não desiludiu.

Num registo muito terra-a-terra, Montero insere-nos diretamente na realidade de uma povoação diminuta e esquecida e põe-nos frente a frente com a versão mais autêntica dos seus habitantes. Cada personagem é dotada de uma personalidade forte e única, e a autora consegue congregar, num espaço tão exíguo, uma variedade espantosa de tipos de caráter. Como consequência disso, este livro não é apenas uma história de autossuperação e regeneração, mas também uma análise da variedade de naturezas e intenções humanas.

Tal como tinha feito em A ridícula ideia de não voltar a ver-te, a autora elege a morte como um dos principais eixos da narrativa. O efeito da morte de Clara na esfera psicológica de Pablo, seu marido, é fiel e comovedoramente explorado, algo simultaneamente enriquecedor para a narrativa e uma provável estratégia catártica para a escritora, cujo próprio marido faleceu há alguns anos.

Este livro fascinou-me particularmente pela maneira como a ação se desenrola em dois sentidos: a sucessão presente de acontecimentos na nova vida de Pablo Hernando e o contínuo desvelar de segredos do passado das personagens. O passado, o presente e o futuro, o irreparável, a mudança e a esperança interligam-se neste romance como tendo saído diretamente da teia complexa do tempo, realistas, inalienáveis.

Assim, este romance é não só uma história sobre recomeços, como também uma história sobre o amor, a violência, o luto, a cobiça, a interajuda, a beleza da diferença e o eterno conflito entre o Bem e o Mal nos corações humanos.

“la belleza ayuda a curar el dolor del mundo.”

Em conclusão, La buena suerte emergiu das águas turvas do período pandémico em que foi escrito para trazer aos seus leitores uma nova esperança: mesmo aos momentos mais difíceis podem seguir-se novos tempos de felicidade.

“el único siempre que de verdad existe es hoy”

26
Ago21

“Inferno” – Dan Brown

Helena

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Robert Langdon, o conceituado professor de simbologia da universidade de Harvard, acorda num hospital, sem fazer ideia de como foi ali parar. Por entre a sua confusão, Langdon reconhece, através da janela do quarto, a torre com ameias do Pallazzo Vecchio e o inconfundível Duomo da catedral de Santa Maria del Fiore. Com a ajuda das explicações da doutora Sienna Brooks, o professor fica a saber que se encontra em Florença e que chegou ao hospital nessa madrugada, com um ferimento de bala na cabeça e a roupa ensanguentada. Antes que pudesse perceber por que motivo teria sido alvo de um tiro, um membro armado de uma organização secreta entra no corredor em frente ao quarto e começa a disparar sobre eles. Sienna tem apenas tempo de recolher o casaco de Langdon antes de o ajudar a fugir para o seu apartamento, onde as revelações sobre o motivo da visita do professor a Florença começam a surgir: num bolso oculto do seu casaco está um cilindro que contém um pequeno projetor. Uma vez ligado, este projeta uma imagem bem conhecida, mas alterada: o Inferno, de Botticelli, com os níveis do malebolge desordenados e letras espalhadas pelas personagens da gravura: CATROVACER. Para rematar, o autor da nova imagem deixara uma mensagem no fundo do quadro: “A verdade só pode ser vislumbrada através dos olhos da morte”.

Entretanto, a bordo do navio Mendacium, trabalham os membros do Consórcio, uma organização secreta que satisfaz os desejos dos seus clientes sem pedir explicações acerca das suas intenções. Um dos responsáveis, o facilitador Knowlton, estava encarregado da transmissão de um vídeo nos meios de comunicação, no dia seguinte. O protocolo básico do Consórcio é muito simples: cumprir o acordo, sem fazer perguntas. No entanto, o conteúdo da gravação é tão perturbador que o faz questionar o cumprimento da missão: numa gruta iluminada por luzes vermelhas, um homem escondido por trás de uma máscara da peste medieval discorria acerca do aumento insustentável da população, da urgência e virtude da sua criação e da única maneira de a Humanidade se purgar dos seus pecados: o Inferno. “Neste lugar, nesta data, o mundo foi mudado para sempre.”

Numa corrida contra o tempo, Langdon e Sienna tentam descodificar o enigma que têm em mãos e descobrir o que se passa de tão grave que envolva as forças de segurança italianas, agentes secretos e a própria Organização Mundial de Saúde. No final de contas, isto é mais do que uma caça ao tesouro através da vida e obra de Dante Alighieri: alguém criou uma peste que se espalhará pelo globo a qualquer momento.

“Os lugares mais tenebrosos do Inferno estão reservados àqueles que mantêm a neutralidade em tempos de crise moral”

O USA Today qualificou o Inferno como sendo “O mais próximo que um livro pode ser de um filme de verão estrondoso”, e eu não poderia estar mais de acordo. Dan Brown volta a proporcionar-nos uma aventura única que conjuga personagens imprevisíveis, ameaças arrepiantes, reviravoltas emocionantes e viagens gratuitas através das suas descrições fiéis dos cenários onde a ação se desenrola (neste caso, pontos emblemáticos e recantos escondidos de Florença, Veneza e Istambul). Este livro é o exemplo perfeito de “viajar sem sair do lugar”, seja a nível geográfico, cronológico ou cultural. Assim, sentados no sofá, na praia ou no jardim, somos levados a ruas distantes, à dantesca Idade Média, ao Renascimento de Botticelli, ao futuro incerto de um planeta sobrepopulado e às entrelinhas de uma das obras mais célebres da cultura ocidental: A Divina Comédia.

Como seria de esperar, vindo de Dan Brown, esta história conta com um vilão convincente, defensor de uma tese que faz sentido. Apresentando dados matemáticos e argumentando com a lógica da biologia, o “mau da fita” consegue fazer-nos tremer perante as evidências da dimensão avassaladora da população mundial e das consequências que, num futuro não muito longínquo, derivarão da reprodução incessante de seres humanos. Confesso que me senti inclinada a apoiar as intenções maquiavélicas do criador da praga, face à forma como ele interpretou o presente e o futuro da Humanidade e sublinhou a urgência da tomada de medidas drásticas para evitar uma catástrofe iminente.

Esta leitura foi particularmente cativante devido à situação pandémica que atualmente enfrentamos. A ação do livro gira à volta da ameaça de uma epidemia global e da necessidade de a conter, algo que, quando o livro foi lançado, nos pareceria impossível que saltasse destas páginas para o mundo real. Deste modo, sentimo-nos mais próximos das personagens e percecionamos os acontecimentos de outra maneira. Os termos “cerca sanitária” e “unidades de PCR” e o aparato dos fatos de proteção contra substâncias perigosas já não são uma realidade desconhecida para nós, e esta proximidade com a ação permite-nos vivê-la mais intensamente.

Em conclusão, apesar de não ter conseguido alcançar o patamar d’O Código Da Vinci, Inferno conquistou um sólido segundo lugar nas minhas leituras de Dan Brown, pela maneira como articula uma ação cativante e recheada de plot twists com os resultados de uma pesquisa profunda que fazem desta leitura, para além de um divertimento, um agradável processo de aprendizagem.

17
Ago21

“The Trials of Apollo – The Hidden Oracle” – Rick Riordan

Helena

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“My name is Apollo. I used to be a god.”

Na sequência da sequela de Percy Jackson, Apolo acorda num beco de Nova Iorque, preso no corpo de um mortal. Como castigo pela sua negligência em relação ao seu filho que quase tinha provocado a destruição do mundo no volume anterior, Zeus condena Apolo a uma temporada na terra, desprovido de todos os poderes que detinha enquanto deus do sol, das artes e da medicina.

É no beco em que acorda e quase é espancado por um par de rufias que o olimpiano encontra Meg McCafrey, uma semideusa de doze anos que Apolo se encarrega de guiar até ao Half-Blood Camp, o campo de treino dos descendentes divinos. Contudo, quando alcançam o Campo, deparam-se com um cenário pouco animador: as comunicações estavam cortadas, os oráculos tinham deixado de funcionar e um estranho fenómeno de desaparecimento de semideuses ceifava membros ao Campo já escassamente povoado.

Esta sequência de acontecimentos e as vozes proféticas dos sonhos de Apolo deixam uma mensagem inequívoca: cabe ao deus, com a ajuda de Meg, descobrir o paradeiro dos semideuses desaparecidos e salvar o único oráculo que ainda não tinha sido afetado pelo fenómeno misterioso – o Oráculo de Dodona. Numa jornada recheada de obstáculos, Apolo e Meg enfrentarão espíritos da peste, formigas gigantes, uma serpente monstruosa e uma personagem temível cuja obsessão pelo poder alimentou a sua sede de glória durante séculos.

O Independent descreveu este livro como “Vastly entretaining”, e eu não poderia estar mais de acordo. O primeiro volume de The Trials of Apollo é uma fonte interminável de boa disposição, partindo da perspetiva da personagem mais engraçada do Olimpo: o orgulhoso Apolo. Como se reduzir uma divindade à condição de mortal não fosse uma premissa suficientemente engraçada por si só, Rick Riordan assegura as gargalhadas dos leitores ao perpetuar o caráter de Apolo nos seus comentários: “After all I had done for Percy Jackson, I expected delight upon my arrival. A tearful welcome, a few burnt offerings and a small festival in my honour would not have been inappropriate.”

Apesar de ser um livro muito leve e de fácil compreensão, mesmo se for lido em inglês, receio que não seja uma leitura muito adequada para aqueles que ainda não leram as sagas de Percy Jackson and the Olympians e The Heroes of Olympus, uma vez que há muitas referências a elas que são essenciais para a construção desta narrativa.

Como seria de esperar, este é apenas o início das aventuras de Apolo no mundo dos mortais, que se desenrolarão ao longo dos dois volumes seguintes. Afinal, o deus castigado ainda tem uma missão a cumprir.

Assim, recomendo este livro a todos os fãs de Percy Jackson que ainda não decidiram que livro devem levar para a praia neste verão.

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