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H-orizontes

H-orizontes

26
Mai21

A importância do sonho

Helena

“Eles não sabem que o sonho / É uma constante da vida / Tão concreta e definida / Como outra coisa qualquer”. A capacidade de sonhar é uma característica própria do ser humano. São os sonhos que impulsionam a vida e que alimentam o constante dinamismo da Humanidade, permitindo-lhe progredir.

“Nada melhor do que um sonho para criar o futuro”. Como afirmava Victor Hugo, os sonhos são o melhor “motor” para a perseguição dos objetivos de cada um. Sem sonhos, os Homens viveriam sem um propósito, como barcos à deriva no mar da vida. Sem o sonho de se tornar um futebolista profissional, Cristiano Ronaldo não teria tido ânimo suficiente para superar todas as provações com que se deparou, e não seria, hoje, o melhor jogador do mundo.

“Que sempre que o homem sonha / O mundo pula e avança”. Que seria da Humanidade sem os sonhos? Que seria da Humanidade, se um grupo de marinheiros não se tivesse lançado ao mar desconhecido, movidos pelo sonho de dar “novos mundos ao mundo”? Que seria da Humanidade, se não tivesse havido quem sonhasse levar o Homem à Lua? “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. O progresso coletivo assenta nos sonhos dos indivíduos, na vontade de quem ousa ir mais além. A evolução não acontece sem uma rutura da ordem estabelecida, e nada melhor para instigar uma rutura do que a força de um sonho.

Em conclusão, o sonho é a base da existência humana, imprescindível a uma vida com sentido e ao progresso da civilização. Nas palavras de Saramago, “são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita”.

23
Mai21

"Mil Vezes Adeus" - John Green

Helena

Milvezesadeus.jpg

Aza e a sua amiga Daisy estão no último ano do Ensino Secundário e deparam-se com a dura realidade dos custos do ensino superior nos EUA. O destino parece sorrir-lhes quando surge a notícia do desaparecimento de um milionário residente na sua cidade (Indianápolis), cujo filho (Davis) travara amizade com Aza num acampamento para crianças órfãs, anos antes. Determinada a receber a recompensa de cem mil dólares que as autoridades oferecem por informações relativas ao paradeiro do milionário, Daisy convence Aza a reatar os laços com Davis. Apesar das suas intenções iniciais, Aza não consegue evitar sentir o renascer da paixão que o rapaz milionário despertara nela quando eram pequenos.

A investigação de Aza e a sua relação com Davis são ensombradas pelas suas “espirais de pensamentos”, que teimam em toldar-lhe o raciocínio. Ela sofre de um Transtorno Obsessivo Compulsivo que transforma tudo o que a rodeia num mundo de micróbios potenciadores de doenças.

É entre um mistério por resolver, uma paixão por domar e um distúrbio por superar que se desenrola a entusiasmante, comovente e, por vezes, exasperante história de Aza Holmes.

Esta foi a última oportunidade que dei a romances de John Green. Foi o quinto livro deste autor que li, e A Culpa é das Estrelas continua a ser o único de que gostei.

John Green peca pela sua previsibilidade e pela superficialidade das suas personagens. Por muito interessante que seja o retrato da mente de uma pessoa com TOC, esse é o único traço inovador e cativante da protagonista. De resto, o caráter das personagens é comum e a relação entre elas é um grande clichê: uma rapariga com recursos modestos apaixona-se pelo rapaz rico, a melhor amiga acaba por se chatear com ela devido às consequências do seu problema mental e (SPOILER ALERT) fazem as pazes após um acidente de automóvel que põe as suas vidas em risco. Não há profundidade nestas personagens, são uma representação pálida, imperfeita e, até, enervante dos adolescentes: o autor faz questão de introduzir a palavra “tipo” nos diálogos, como se isso contribuísse para um melhor retrato dos jovens de hoje. Por melhor que seja a intenção, incomoda-me, e penso que poderia ter compensado o défice de realismo de outra maneira.

Este livro poderia ser um bom livro, se fosse mais longo. É difícil concretizar com sucesso a premissa desta história num livro tão curto. A relação de Aza com Davis e a investigação da morte de Pickett não evoluem realisticamente, nem de uma forma minimamente plausível. A carga de mistério que podia estar associada ao enredo perde-se entre todos os assuntos paralelos, e nenhum deles acaba por ser desenvolvido da maneira que devia. Um livro mais longo permitiria desenvolver melhor as personagens, adensar a intriga do desaparecimento do milionário e abrandar a evolução da relação entre Aza e Davis.

Assim sendo, apesar de ter sido, como pretendia, uma leitura leve para quebrar um período de livros mais “sérios” e de me ter posto em contacto com uma realidade que não compreendia bem (a de uma pessoa que sofre de TOC), este livro não me fascinou e, certamente, não entrará na minha lista de recomendações.

"Qualquer pessoa pode olhar para ti. É bastante raro encontrar alguém que veja o mesmo mundo que tu."

"Estar viva é sentir falta."
"(...) e nunca ninguém diz adeus a não ser que queira voltar a ver-te."

03
Mai21

“a máquina de fazer espanhóis” – Valter Hugo Mãe

Helena

máquina.jpeg

“a máquina de fazer espanhóis” leva-nos a ver o mundo a partir da perspetiva do Sr. Silva, de 84 anos, que, após a morte da sua mulher, o pilar da sua vida, é internado num lar.

É no “Feliz Idade” que, depois de ultrapassar, em parte, a raiva em relação ao mundo e à vida despoletada pela morte da esposa, o Sr. Silva faz novas amizades e se familiariza com a proximidade da morte. Munido de uma total descrença na metafísica, tudo o que lhe resta é aguardar o momento em que deixará de ter de viver sem a “sua Laura”, aproveitando o compasso de espera para refletir sobre a sua conduta no passado, para passar tardes ao sol com os seus colegas do lar e para descobrir que, afinal, há relações extrafamiliares que fazem da vida um lugar melhor.

É fascinante a maneira como Valter Hugo Mãe, nos seus trinta e oito anos, conseguiu captar de uma forma tão vívida e precisa a perspetiva de um idoso obrigado a renunciar à sua liberdade para se ver limitado pelas quatro paredes de um lar. De entre as impressões do Sr. Silva, destacam-se a revolta relativamente à ideia que os mais jovens fazem dos idosos, a consciência do inevitável e o receio em relação aos quartos da ala esquerda, com vista para o cemitério, o último nível antes da morte. Apesar dos momentos de alegria que pontuam o dia a dia dos idosos, o cenário daqueles cuja estadia no lar é apenas um caminho doloroso para a morte permanece uma realidade exasperante.

Através do Sr. Silva e das conversas que se desenrolam entre as personagens, é abordada e criticada uma série de assuntos que continuam a marcar a nossa sociedade: o desleixo no exercício da cidadania, a desvalorização da liberdade e o seu abuso e o individualismo crescente. São, também, recorrentes as reflexões acerca do salazarismo, de como a dignidade dos portugueses foi rebaixada por Salazar e de como a inércia em tempos de repressão acaba por ser sinónimo de conivência com o regime opressor.

É particularmente interessante o modo como, por entre o relato de um idoso nos seus últimos anos de vida, Valter Hugo Mãe encaixa neste cenário deprimente alguns elementos divertidos: a personagem que se apresenta como o Esteves do poema “Tabacaria” de Álvaro de Campos, as brincadeiras do Sr. Silva com a estatueta da Virgem Maria (a “mariazinha”) e o estratagema que ele cria para que a Dona Marta receba as cartas do seu marido por que tanto esperara durante anos. A criação mais notável é a da “máquina” no quarto da ala da esquerda, que é trazida durante a noite pelos funcionários do lar e tem a função de enfraquecer os utentes, atacando os seus pontos fracos, de modo a apressar a chegada da morte.

“Estávamos bem era a falar castelhano, com salários castelhanos e uma princesa bonita para as revistas. Que filho da mãe de erro este de proclamarem soberania nos arremedos de uma península!” Por mais do que uma vez, é expresso pelas personagens o desejo de que Portugal nunca se tivesse tornado independente. Portugal é a verdadeira “máquina de fazer espanhóis”.

Apesar de não me ter cativado tanto como esperava (talvez por retratar uma realidade tão longínqua para a minha faixa etária), este livro marcou-me por conjugar harmoniosamente um relato da vida nos lares a partir “de dentro” com um apelo urgente ao exercício da cidadania, à prática do espírito crítico e à crença dos Homens nos seus semelhantes.

“o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas”

“deus é uma cobiça que temos dentro de nós”

01
Mai21

“La Plaza del Diamante” – Mercè Rodoreda

Helena

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Natalia, empregada numa pastelaria e enamorada de Pere, estava longe de imaginar que o rumo da sua vida seria drasticamente alterado por uma dança numa festa da barcelonesa Plaza del Diamante. É aí que conhece Quimet, um rapaz vivaço que a faz deixar Pere, e com quem casará. Tendo-se desde cedo revelado um homem controlador, misógino e paranoico, Quimet é a primeira peça do grande e complicado “quebrador de cabezas” em que a vida da personagem principal se transformará.

Por entre a mudança de casa, o nascimento dos filhos, a procura de emprego junto de uma família de nacionalistas, o projeto de Quimet da criação de pombas no terraço e a partida deste e dos seus melhores amigos para a guerra, acompanhamos o dia a dia de Natalia e a perturbação geral inerente à sua existência.

Esta foi uma leitura cheia de surpresas positivas e negativas, dominadas, sobretudo, por uma sensação generalizada de angústia que parece emanar das páginas deste romance.

O pilar desta experiência foi o estabelecimento de uma conexão emocional com a personagem principal, um elo que faz da dor de um ser fictício algo palpável e real. Durante o período que passamos a ler o livro, experimentamos uma espécie de existência paralela e envelhecemos com Natalia, atravessando com ela as pequenas vidas que se sucedem ao longo do tempo em que vivemos.

Natalia é o arquétipo da mulher submissa e inferiorizada, cuja inércia em relação ao seu casamento degradante chega a ser exasperante, talvez por vivermos numa época em que, felizmente, a mulher não tem de se rebaixar assim nas suas relações conjugais. Neste sentido, este livro é também um apelo à urgência da valorização dos direitos da mulher, e um exemplo de como também as mulheres são dotadas de uma força extraordinária e da capacidade de se assumirem como o pilar sustentador da família.

O estilo fluído da narração despertou em mim uma impressão muito positiva, uma vez que acompanha o rumo e o ritmo do pensamento de Natalia. Contudo, e apesar de achar que este registo ia fazer deste livro mais um daqueles difíceis de largar, isto acabou por levar a que, por vezes, não percebesse bem o que a narradora dizia, quer pela introdução do discurso indireto livre, quer pelas expressões de uso corrente cujo significado me escapava (li-o em espanhol, dada a inexistência de uma tradução portuguesa).

Apesar de, segundo Gabriel García Márquez, La Plaza del Diamante ser a melhor das obras relativas à guerra civil espanhola, pareceu-me que este conflito serve de pano de fundo para uma história sobre os pequenos acontecimentos e escolhas que fazem a vida, a resiliência de Natalia e o seu espírito de sacrifício.

"(...) la historia valía más leerla en los libros que escribirla a cañonazos."

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