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H-orizontes

H-orizontes

21
Fev21

"Dentro do Segredo – Uma viagem à Coreia do Norte" – José Luís Peixoto

Helena

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À boleia das palavras de José Luís Peixoto, embarcamos numa inesquecível viagem de quinze dias às entranhas da Coreia do Norte, “o país mais isolado do mundo”. Para além de nos levar a passear ao seu lado pelas ruas de Pyongyang, o autor põe-nos em contacto com a História e com a mentalidade dos habitantes da península, radicalmente distinta da dos ocidentais. Penetramos, assim, num país onde não são permitidos telemóveis e quaisquer aparelhos de navegação e GPS, onde ainda paira a influência de um Líder constitucionalmente imortal e onde a vasta paisagem agrícola parece pertencer à Idade Média.

Aquilo que já se previa que fosse uma viagem fora do normal acaba por se revelar, em acréscimo, um exercício de discernimento, à medida que nos apercebemos de que a simulação e a mentira são os principais meios de expressão num país avesso ao mundo.

“Num mundo imperfeito, não há ninguém que esteja sempre certo.”

Estava a percorrer pela enésima vez as lombadas da estante, quando o meu olhar pousou num nome com que já se tinha cruzado, mas a que nunca tinha prestado muita atenção: José Luís Peixoto. O acaso é uma coisa maravilhosa. Atraída pela sinopse, mergulhei no Dentro do Segredo assim que tive oportunidade – foi amor à primeira página.

O regime norte-coreano não era um tema que me interessasse particularmente antes desta leitura. Ainda assim, fiquei surpreendida ao constatar quão pouco sabia acerca da história da Coreia do Norte, da repressão vigente e do isolamento ideológico a que a população é sujeita. As crenças e comportamentos de um povo inserido num sistema baseado na ideia de raça, na xenofobia e no sentimento patriótico ultrapassam de tal maneira as noções de bom senso, espírito crítico e democracia ocidentais que dei por mim a esquecer-me de que o que estava a ler não era uma obra de ficção.  O caráter hiperbólico e megalómano do regime norte-coreano chega a ser relatado com um certo fascínio que o autor se apressa a desmistificar, afirmando por três vezes: “Sou contra todos os regimes totalitários e ditaduras”.

Sem grandes artifícios, num registo muito terra-a-terra, José Luís Peixoto deposita, preto no branco, os pensamentos, emoções e sensações que experienciou ao longo da sua viagem. A ironia de que dota algumas frases e a autenticidade com que expressa as suas impressões mais “humanas” fizeram-me sorrir muitas vezes. Como leitora, é-me difícil percecionar os escritores como pessoas de carne e osso, que também têm indisposições, gostam de rock ou sofrem com as consequências de uma má noite de sono.

O autor relata a sua viagem como se estivesse a contá-la a um amigo, enche a obra de empatia e de um calor humano que nos aconchegam.

"Estar lá fora cá dentro" nunca me pareceu tão real. Uma leitura imperdível.

“Se estás a ler isto, é porque estás vivo.”

17
Fev21

"O Estrangeiro" - Albert Camus

Helena

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“Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: «Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.» Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.”

É nestas circunstâncias que encontramos o Sr. Meursault, um homem de trinta anos particularmente avesso à propensão moralista e sentimental da sociedade. Depois de se ter servido de uma chávena de café com leite e fumado no velório da sua mãe e de não ter derramado uma única lágrima no seu funeral, Meursault retoma a sua vida perfeitamente banal. Entre o seu trabalho, o restaurante de Céleste, a praia onde se encontra com Marie e o andar do seu prédio, que partilha com um homem de ocupação duvidosa e um velho a quem só resta a companhia do cão, acompanhamos a personagem principal no seu quotidiano. Como um Estrangeiro entre os seus e no mundo, Meursault parece contemplar as futilidades humanas e os pequenos contratempos da vida à distância.

É numa ida à praia num tórrido domingo que, contra todas as expectativas, o pacato argelino comete um crime que mudará por completo o rumo do romance…

O Estrangeiro parece dividir opiniões: por um lado, há quem o considere um clássico imperdível da literatura, enquanto outros não conseguem compreender o porquê de este ser um romance tão aclamado pela crítica. A minha opinião encontra-se algures entre os extremos.

Esta história, cuja narração me fez lembrar um conto ou um texto diarístico, deve ser encarada como uma reflexão acerca da existência humana. Através da indiferença extremada e quase absurda do Sr. Meursault, captamos uma perspetiva diferente da vida, alheia a sobressaltos, à importância das decisões, a questões filosóficas e a figuras transcendentes. Meursault limita-se a viver consoante o que lhe calha na sina, sem se entregar à extravagância das emoções ou à indignação contra o destino. Em vez disso, permanece apático e ultrapassa as reviravoltas da vida através do hábito.

Se há uma sensação que predomina, implacável, nesta obra, essa sensação é o calor. Um calor asfixiante, insuportável, captada pelo autor com tanta autenticidade e intensidade que o leitor se sente tentado a tirar o casaco. Essa impressão prolonga-se pela capa do livro, de um cor de laranja forte que me faz pensar nele como um deserto tórrido comprimido em menos de uma centena de folhas de papel.

Camus transporta para as suas páginas a crueza e a frontalidade da vida real, sem rodeios nem artifícios. As frases curtas, elementares e, por vezes, irónicas, começaram por fascinar-me, pois não tinha memória de alguma vez ter lido um livro tão simples e imponente ao mesmo tempo. Apesar de não ter deixado de o considerar agradavelmente peculiar (ao ponto de, por vezes, me arrancar uma gargalhada), comecei, aos poucos, a aperceber-me de que este estilo era automaticamente assumido pelo meu cérebro como algo banal. Por este motivo, tinha alguma dificuldade em lembrar-me daquilo que tinha lido no dia anterior, ou, até, duas páginas atrás. De entre o relato, na primeira pessoa, de uma relação pacata e resignada com a vida, os momentos mais marcantes foram aqueles que se referem a abalos de maior ou menor profundidade na vida de Meursault ou a personagens dominadas pelas suas emoções – o que penso que será o oposto daquilo que é pretendido por este romance.

Em conclusão, este livro surpreendeu-me, tanto pela positiva como pela negativa. Contudo, a impressão que prevalece é a do contacto com um ser humano que transmite uma lição por entre a sua indiferença crónica: a vida não é assim tão dramática e as nossas escolhas não são, afinal, assim tão importantes – o tempo não para e todos temos um fim, pelo que mais vale gozarmos aquilo que temos, sem pensar muito nem sentir demasiado.

11
Fev21

"Os Doentes do Doutor García" - Almudena Grandes

Helena

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Guillermo García Medina trabalha no meio do caos de um hospital de Madrid em plena Guerra Civil Espanhola. Neto de um republicano e vizinho de falangistas, Guillermo abstém-se de manifestações públicas de quaisquer partidarismos e divide a sua vida entre duas esferas: o seu trabalho no hospital enquanto médico e responsável pelas transfusões de sangue, e a relação peculiar que mantém com Amparo Priego, uma amiga falangista de longa data que vive com ele desde a morte do seu avô, em 1936.

Certo dia, Guillermo teve de fazer uma transfusão sanguínea de urgência, sem imaginar que essa intervenção mudaria a sua vida para sempre. Manuel Arroyo Benítez, o seu paciente, era na verdade um infiltrado de Juan Negrín nas fações republicanas madrilenas, responsável por averiguar se se avizinharia uma revolta na capital republicana semelhante àquela que ocorrera em Barcelona, uns meses antes. Assim, Guillermo vê-se envolvido numa rede de espionagem e dissimulação que se adensa com o fim da Segunda Guerra Mundial.

Sem descurar a autenticidade da vida de todos aqueles cujas esperanças foram defraudadas vezes sem conta, Almudena Grandes guia-nos através dos meandros da diplomacia e das organizações clandestinas que contribuíram para moldar o mundo da forma como o conhecemos na atualidade.

O terceiro livro da série Episódios de uma guerra interminável encerra um universo demasiado vasto para que possa ser descrito em poucas palavras.

Comecemos pelas personagens. Não precisamos de ler muito mais do que os primeiros capítulos para nos apercebemos de que acabamos de entrar numa rede muito complexa constituída pelas numerosas personagens e pelas relações que estabelecem entre si. Com efeito, todos os intervenientes nesta história se cruzam numa teia de passados, destinos, esquemas clandestinos e falsas identidades de uma forma magistral. O facto de sermos inteirados do passado de cada uma das personagens contribui em grande medida para a relação familiar que acabamos por estabelecer com elas – parece que as conhecemos “há uma vida”, como escreve a autora. Encontramos, inclusive, capítulos dedicados exclusivamente a personagens históricas, narrados no presente histórico. Fruto da profunda investigação da autora, estes capítulos introduzem uma pausa na ação que, a princípio, me deixou perplexa, mas que acabei por valorizar muito. O apêndice final da obra, onde consta uma lista das personagens do romance, é de extrema relevância, pois permite-nos refrescar a memória quanto à identidade de alguma personagem que voltou a surgir depois de muitos capítulos de ausência.

Em segundo lugar, o tempo. Este livro cobre um período muito extenso, desde o início da Guerra Civil Espanhola até à década de 1970, para além das inúmeras analepses a que a autora recorre a título de contextualização. Acompanhamos, assim, quase toda a vida da personagem principal, Guillermo García Medina, e do seu melhor amigo, Manuel Arroyo Benítez – uma experiência única que nos deixa de coração cheio. Apesar de retratar episódios da vida corrente, Almudena Grandes escreve também, e principalmente, sobre eventos que marcaram a história espanhola, europeia e sul-americana no século XX: a Guerra Civil Espanhola e a inércia internacional, a Segunda Guerra Mundial, o seu desfecho e a cumplicidade franquista na fuga dos criminosos nazis, a Guerra Fria e a inação das potências capitalistas face ao franquismo, a instauração de ditaduras militares na América latina com a conivência dos Estados Unidos da América e a morte de Francisco Franco. A fantástica abrangência histórica desta obra não implica, de maneira nenhuma, que a abordagem dos factos seja superficial. Como qualquer boa leitura, esta foi acompanhada por um revigorante processo de aprendizagem, por uma tomada de consciência acerca dos meandros das relações internacionais que outrora ignorava – e que, em certa medida, me chocaram.

Em terceiro lugar, o espaço. Como já referi, a ação engloba acontecimentos de grande envergadura espácio-temporal, estendendo-se desde as frentes de batalha russas e dos campos de concentração nazis na Estónia até Washington D.C. e Buenos Aires. O trabalho de investigação da autora revelou-se, mais uma vez, uma mais-valia para o retrato fidedigno de todos os espaços e daqueles que os povoam. Não pude deixar de estabelecer uma comparação entre Grandes e Zafón no que toca à relação com o espaço: o retrato que Grandes faz de Madrid é pragmático e objetivo, enquanto que Zafón faz de Barcelona uma personagem com vida e das suas ruas o nosso lar. Contudo, reitero que a construção espacial em Os Doentes do Doutor García está muito bem conseguida.

Este não é só um romance sobre guerra. Este não é só um romance sobre espionagem. Este é um romance sobre a esperança e a revolta, sobre a honra e o dever, sobre a brutalidade e a entreajuda, sobre o orgulho e a hipocrisia, sobre o amor e a amizade, passando ainda pela cegueira dos fanatismos e pelo silêncio asfixiante das relações abusivas. Este é um daqueles romances que nos oferece um pedaço de vida e leva com ele um pouco da nossa, e que não nos abandona mesmo depois de termos virado a última página.

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