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H-orizontes

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29
Jun20

"O Labirinto dos Espíritos" - Carlos Ruiz Zafón

Helena

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O volume que remata a saga do “Cemitério dos Livros Esquecidos” é um livro fantástico, sem o qual, como dizia Zafón, é impossível compreender por completo o universo que a tetralogia encerra.

O início da narração data do fim da década de 1950 e é feita na primeira pessoa por Daniel Sempere, o livreiro já conhecido e tão querido pelos leitores da saga do “Cemitério dos Livros Esquecidos”. No entanto, a ação principal da obra é introduzida por uma analepse que nos leva aos bombardeamentos de Barcelona de março de 1938. É num clima de guerra civil que Fermín Romero de Torres regressa clandestinamente a Barcelona, a fim de comunicar a uma amiga de longa data a morte do seu marido. Os bombardeamentos atingiram o edifício em que Fermín se encontrava com a família do falecido. Foi graças a ele que Alicia Gris, a filha do seu colega, sobreviveu à tragédia, ainda que com um ferimento profundo na anca que a faria sofrer durante toda a sua vida. O tronco da história segue os passos de Alicia, o seu recrutamento, por Leandro, o seu mentor, para uma agência de investigação secreta e a atribuição à rapariga de um caso muito peculiar: o desaparecimento do ministro Valls, outrora diretor da prisão de Montjuïc. Juntamente com o capitão Vargas, da Jefatura, Alicia parte para Barcelona, para seguir um rasto que acaba por levá-la a descobertas que estava longe de imaginar. O caso do desaparecimento não é tão simples como parecia e uma teia de relações cada vez maior acaba por abarcar a família Sempere, David Martín, Miguel Ángel Ubach, o advogado Brians e a família de mais um autor maldito de Barcelona, Victor Mataix, pondo em risco a sua segurança e as suas vidas. A névoa difusa do pós-guerra encobriu estratagemas fraudulentos, crimes, assassinatos e jogos de poder que são revelados aos poucos e encerram a solução de enigmas que pairaram durante décadas sobre Barcelona, o labirinto dos espíritos.

Não tenho a mais pequena dúvida de que a leitura deste livro ficará guardada na minha memória para sempre. Isso deve-se especialmente ao facto de, estando eu a meio da leitura do romance, Carlos Ruiz Zafón ter falecido, vítima de cancro. A notícia da sua morte deixou-me profundamente triste, e não pude deixar de chorar umas lágrimas copiosas ao ler a última página e compreender que este foi o último livro de Zafón que li pela primeira vez, dado que já li todos os outros romances que escreveu. Devo dizer que, ainda que a tristeza tenha marcado a leitura do final do livro, não havia melhor maneira de acabar esta primeira viagem pelas obras de Zafón.

Este romance é incrível e cativou-me imenso, tendo lido as suas 845 páginas num período de tempo invulgarmente curto. De facto, este é o tomo mais extenso da saga, assim como o mais intenso e violento (inclusive em termos de vocabulário). O leitor fica colado às páginas desde o primeiro momento, absorvido pela escrita prodigiosa de Zafón, repleta de figuras de estilo e formas de expressão por que me apaixono uma e outra vez. Com o adensar da narrativa, este romance espicaça a nossa curiosidade e impaciência face ao mistério a resolver, assim como à extensa teia de personagens entre as quais vamos descobrindo as ligações, fascinados. A progressão da ação é constante, pelo que não existem momentos mortos ou desnecessários para a construção do mundo do “Cemitério dos Livros Esquecidos”.

As cenas de perseguições, torturas e assassinatos fazem com que os níveis de adrenalina disparem para valores comparáveis aos da visualização de um filme de ação como Tomb Raider. As descrições são tão realistas que até nos esquecemos de que temos um livro nas mãos, porque a ação parece desenrolar-se fluidamente na nossa imaginação.

Algo que admiro imenso em Zafón é a sua determinação em introduzir nas personagens dos seus romances o gosto pela leitura, um hábito a que é conferida especial importância ao longo desta saga.

As personagens roçam a perfeição, tendo cada uma delas um caráter vincado e uma determinada história de vida, mesmo que se trate apenas de uns simples editores referidos num relato ou de um jornalista que providencia alguma informação para a investigação.

A minha personagem preferida é, provavelmente, Fermín Romero de Torres. Para além de ter uma vida marcada por reviravoltas sucessivas, Fermín é uma personagem profundamente culta e bem-disposta, cujas falas me põem sempre um sorriso nos lábios e me obrigam a fazer incursões ao dicionário. É, no fundo, a voz da consciência nesta história, para além de lhe acrescentar momentos de humor que a equilibram.

Ainda que Zafón refira que “Uma história não tem princípio nem fim, só portas de entrada”, recomendo que esta saga seja lida na sequência em que foi publicada (A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo, O Prisioneiro do Céu e O Labirinto dos Espíritos).

O único ponto negativo que tenho a apontar neste livro é a quantidade de gralhas que encontrei na edição que li (Editorial Planeta, 1ª edição).

Após a leitura desta obra, reafirmo que Carlos Ruiz Zafón é o meu autor favorito e que tenho uma admiração sem limites pela sua capacidade de criação de uma trama tão bem distribuída e interligada ao longo de quatro magníficos tomos que, decerto, relerei muitas vezes ao longo da vida.

Na falta de vocábulos que me permitam expressar fielmente todas as impressões que esta obra despertou em mim, espero sinceramente que a leiam e que possam sentir-se tão em casa entre as suas páginas como eu.

"As recordações que enterramos no silêncio são aquelas que nunca deixam de nos perseguir."

"Um roteiro é o que as pessoas inventam quando não sabem muito bem para onde vão e desse modo se convencem e a alguns outros patetas de que se dirigem para um sítio qualquer."

"a doença mais difícil de curar é o hábito"

"Doña Lorena dizia que o nível de barbárie de uma sociedade se mede pela distância que tenta pôr entre as mulheres e os livros."

Relacionados:

"O Jogo do Anjo" - Carlos Ruiz Zafón

"A Sombra do Vento" - Carlos Ruiz Zafón

"El Prisionero del Cielo" - Carlos Ruiz Zafón

24
Jun20

"Crónica de D. João I" - Fernão Lopes - Síntese do Capítulo CXV

Helena

Fernão Lopes, no capítulo CXV da “Crónica de D. João I”, afirma ter como objetivo descrever o cerco de Lisboa pelos castelhanos, o modo como o Mestre de Avis guardava a cidade e a coragem da população lisboeta na sua defesa.

Segundo o autor, quando se soube da vinda das tropas castelhanas, em muito maior número do que as portuguesas e notavelmente organizadas, foram tomadas medidas imediatas para a proteção da cidade. As pessoas recolheram a Lisboa, fugiram ou permaneceram nas cidades que seriam tomadas pelas tropas inimigas. Iniciou-se a recolha e salga de víveres para abastecer a cidade de mantimentos e colocou-se material bélico, catapultas e vigias nas torres, cada uma tendo armas suficientes para se manter por si só. O Mestre de Avis, com uma autoridade incontestada, distribuiu as funções de ocupação e defesa das torres por equipas de soldados lideradas por fidalgos ou cidadãos, e realizavam-se rondas constantes. Apenas doze portas da cidade permaneciam abertas, sendo constantemente guardadas, e as chaves de algumas casas eram, à noite, guardadas e recolhidas no Paço. Foi combinado um sinal de alerta, o repicar do sino, ao qual toda a população reagia, largando os seus mesteres e acorrendo aos muros. Também os membros do clero renunciavam ao seu dever de evitar a participação armada nos conflitos, acorrendo às muralhas com os melhores instrumentos que podiam para evitar a vitória dos castelhanos. Os portugueses mostravam-se unidos e corajosos, e até as raparigas trauteavam cantares que demonstravam a sua firmeza. Fernão Lopes elogia a técnica e organização do exército espanhol, colocando ainda mais em relevo o facto de os portugueses os terem derrotado.

Em conclusão, com esta crónica, Fernão Lopes ilustra a forma como os castelhanos cercaram Lisboa e como a população portuguesa se organizou de modo a vencê-los.

18
Jun20

A educação na formação de um indivíduo

Helena

A educação, no seu sentido mais amplo, é a transferência de hábitos, costumes e valores de uma geração para a seguinte, através de situações presenciadas e experiências vividas por um indivíduo ao longo da sua vida. A instrução é o ato ou efeito de instruir, de transferência de conhecimento e fornecimento de informações ou esclarecimentos.

Na minha opinião, a função de educar e instruir as crianças não pode ser atribuída a uma única entidade, uma vez que a sua formação deve ser feita em diferentes vertentes e ser influenciada por vários pontos de vista. Assim, penso que tanto a educação e a instrução parental como a escolar têm muita importância no desenvolvimento individual das crianças, e devem complementar-se.

A nível familiar, é essencial que as crianças sejam acompanhadas pelos pais durante o crescimento, sendo-lhes incutidos valores fundamentais para o bom desempenho enquanto cidadãos. Mais do que qualquer outra pessoa, os pais são a maior influência para os seus filhos nos seus primeiros anos de vida, e devem, por isso, dar o exemplo e ensiná-los a reconhecer os valores e a comportar-se devidamente. Dizer “por favor” e “obrigado”, mastigar de boca fechada, ter um bom comportamento, ser obediente e respeitoso e cumprir os seus deveres são aprendizagens essenciais de que os progenitores se devem responsabilizar. Por outro lado, faz também parte da competência dos pais o início e o estímulo da instrução. Ler com os filhos, levá-los em viagens, resolver quebra-cabeças, desenvolver a sensibilidade em relação às coisas novas são atividades essenciais para estimular o desenvolvimento cerebral das crianças e para as inserir no mundo que as rodeia. Como o horário e a composição estrutural da escola não permitem a abordagem de alguns os assuntos nem o aprofundamento de outros, os pais devem instigar ao interesse pelos temas atuais e orientar de uma forma tanto estrutural como complementar o percurso dos seus filhos enquanto estudantes e cidadãos conhecedores do que os rodeia.

Quanto à escola, compete-lhe dar aos alunos conhecimentos mais aprofundados sobre matérias específicas, com que possivelmente não entram frequentemente em contacto num contexto extra-aula, introduzindo-os num nível mais específico do conhecimento. Ainda assim, as matérias lecionadas na escola são da maior importância, uma vez que transmitem ao aluno conhecimentos essenciais sobre o que o rodeia, para além de serem o que lhe vai permitir optar por uma dada carreira futura. Embora para muitos tais conhecimentos sejam dispensáveis ou pouco importantes, pois não precisam deles para concretizar os objetivos que visam, para outros são necessários para a realização do seu percurso profissional, e, como não se pode “agradar” a todos, o mais relevante nestes termos é que “o saber não ocupa lugar”, e a informação adquirida ser-lhes-á útil, mais tarde ou mais cedo. É, por isso, função da escola instruir os alunos sobre matérias que desconheciam e aprofundar alguns temas já conhecidos. Contudo, a escola não é responsável por ensinar tudo o que é preciso para viver, não é um “manual da vida” sagrado que preparará as crianças para tudo, porque seria impossível, dentro dos programas, do tempo letivo e dos objetivos pedagógicos, fornecer tal leque de ensinamentos. Por isso, qualquer tema abordado na escola deve ser debatido em casa, e os conhecimentos que não forem adquiridos e são necessários devem ser introduzidos pelos próprios progenitores, que trouxeram as crianças para a vida e, por isso, têm o dever de as acompanhar nela. Em termos de educação, a escola não é responsável por educar os alunos de raiz, de modo que apenas tenta consolidar bons valores que já deviam vir aprendidos de casa. A paciência, a persistência, a colaboração e a organização são trabalhadas e aplicadas, mas não cabe aos professores ensinar uma criança a não dizer palavrões ou a prestar atenção quando lhe falam. O corpo docente deve estimular a formação do aluno, ajudá-lo no que precisar e dar-lhe novos conhecimentos que lhe permitirão enriquecer e desenvolver a sua própria perspetiva para com a vida.

Assim, podemos concluir que a educação e a instrução constituem dois ramos cruciais da formação de um indivíduo, que devem ser levadas a cabo por várias entidades que colaborem e se complementem. É, por isso, necessário que os pais tenham consciência da sua influência na maneira de ser dos seus filhos e do seu papel na criação de bons hábitos de conduta e aprendizagem deles, ensinando-lhes valores corretos e instigando-os à procura de conhecimento. Por seu lado, a escola deve procurar respeitar o caráter individual de cada aluno, estimular a criatividade e espírito crítico, consolidar as boas práticas de cidadania e permitir a aquisição de conhecimentos num leque variado de áreas. Para isso, seria preciso ter especial atenção em relação ao tempo disponibilizado aos pais para estarem com os filhos, assim como à composição dos programas e organização dos horários escolares, para que cada aluno pudesse tomar decisões relativas ao seu percurso educativo e adquirir competências mais vastas para o que o espera depois de completar o ensino obrigatório.

13
Jun20

"Ivanhoe" - Walter Scott

Helena

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Walter Scott, o autor romântico considerado o pai do romance histórico, presenteia-nos com uma obra que tem por base os valores da honra e da coragem. É em plena Idade Média que se desenrola a história de Cedric, um saxónio nobre e orgulhoso, da sua protegida Lady Rowena, dos desprezados judeus Rebeca e Isaac de York, de Wilfred de Ivanhoe e dos conspiradores contra o poder de Ricardo Coração de Leão, entre os quais se conta o seu próprio irmão.

Enquanto Ricardo Coração de Leão se batia contra os sarracenos nas Cruzadas, em Inglaterra pairava um ambiente de conspiração, sendo que o príncipe João planeava usurpar a coroa do irmão e assumir o poder. Simultaneamente, era palpável o descontentamento dos saxónios face à presença normanda em território inglês, que lhes tinha ceifado a independência e os privilégios. Ainda assim, tudo parecia bem encaminhado para o sucesso do estratagema do príncipe João.

É com a organização de um torneio que surgem as personagens que alterarão o rumo da história: um misterioso e hábil cavaleiro de armadura negra e o jovem Wilfred de Ivanhoe, o filho que Cedric renegara, por lhe ter desobedecido ao partir para as cruzadas com o rei Ricardo. Ivanhoe e Lady Rowena, a protegida de Cedric, ainda que há muito apaixonados, tinham como obstáculo à sua união a intenção de Cedric de a casar com um nobre saxónio.

O regresso de Ivanhoe desperta o receio da possibilidade do retorno de Ricardo, e os presunçosos nobres normandos começam a cair um por um, à medida que o fracasso dos seus planos se torna cada vez mais iminente.

Em termos de retrato da sociedade da Idade Média na Grã-Bretanha, este livro é um precioso artefacto. Ao lê-lo, somos inteirados de uma das usurpações de poder mais marcantes da História, do contexto social tenso criado pela interação entre normandos e saxónios, da organização territorial britânica da época e do desprezo de que, já nessa altura, os judeus eram alvo (o que me surpreendeu particularmente). Walter Scott inicia o romance com uma contextualização histórica e acaba-o referindo os acontecimentos mais relevantes que sucederam após o desfecho. Como não aprecio finais abertos, considero o facto de este romance ter um final fechado um ponto positivo.

Pelo contrário, os restantes aspetos da obra não me agradaram muito. A estrutura da narração, aos avanços e recuos, para poder abarcar todos os pontos de vista dos acontecimentos, fazia com que, por vezes, me perdesse na linha temporal. Achei a ação tipicamente romântica, assim como a própria construção frásica. A narração é um pouco repetitiva, principalmente no que toca à preocupação das personagens com a sua linhagem, algo característico da época retratada.

Um ponto que considerei particularmente desconcertante foi o facto de os títulos de alguns capítulos constituírem spoilers em relação à ação.

Por fim, afirmo que consideraria mais apropriado que o romance se chamasse “Rebeca”, em vez de “Ivanhoe”, uma vez que a judia, para além de ser a personagem mais bem construída, é a mais marcante ao longo da obra. De facto, é uma personagem essencial para o desenrolar do enredo e muito mais presente do que Wilfred de Ivanhoe.

Concluo que este romance constitui um ótimo retrato do contexto político-social da Grã-Bretanha na Idade Média, embora o enredo fique aquém do esperado. Decididamente, o género romântico não se inclui nos meus favoritos.

04
Jun20

A corrupção na atualidade e o "Sermão de Santo António"

Helena

Hoje, na minha apresentação oral, vou falar-vos sobre a corrupção na atualidade e a sua relação com o Sermão de Santo António, de Padre António Vieira.

O substantivo feminino corrupção deriva do latim corruptĭo, com o sentido de «deterioração», «acto, processo ou efeito de corromper».

Constituem crimes de corrupção os seguintes crimes, previstos no código penal: recebimento indevido de vantagem, corrupção passiva para ato ilícito, corrupção passiva para ato lícito e corrupção ativa.

A Transparência Internacional – ONG – elaborou o Índice de Perceção da Corrupção (IPC), que apresenta uma lista dos países mais e menos corruptos do mundo, a nível da corrupção pública.

Para o cálculo do Índice de Perceção da Corrupção, classifica-se cada país com uma nota que vai de zero (altamente corrupto) a cem (altamente limpo), baseando-se em critérios específicos, como pesquisas e entrevistas com especialistas, empresários, políticos e outros; as ações públicas levadas a cabo para promover a transparência e combater a corrupção; os casos registados; a comparação entre os países pesquisados; entre outros. Há alguma relação entre o desenvolvimento dos países e o nível de corrupção que apresentam, sendo tanto maiores quanto menor é o desenvolvimento do país.

Os países menos corruptos, em 2018, foram a Dinamarca, a Nova Zelândia, a Suíça, a Finlândia. Os mais corruptos foram o Iémen, o Sudão do Sul, a Síria e a Somália.

Analisando os dados do IPC da Somália, verificamos que tem vindo a baixar desde 2005, o que reflete uma subida na prática de atividade corrupta neste país.

A Somália não tem governo efetivo desde 1991, quando o presidente Siad Barre foi derrubado, e vive hoje em clima de guerra entre os rebeldes islamitas, que juraram lealdade à Al-Qaeda, e o exército. Os confrontos constantes e a incapacidade para lidar com a fome e as doenças levaram à morte de cerca de um milhão de pessoas nas últimas duas décadas. Cerca de 7 milhões de pessoas (metade da população da Somália) depende de ajuda humanitária. 

Um dos mais conhecidos casos de corrupção em grande escala foram os Panama Papers. O que são os panama papers, exatamente? De um modo simples, perto de 12 milhões de documentos descobertos de uma empresa do Panamá mostram como empresas de fachada usam offshores para manter biliões de dólares de fora da nossa economia global – algumas delas geridas por traficantes de drogas, traficantes de armas e políticos. Os offshores são as sociedades que se localizam em zonas onde vão beneficiar de um regime legal diferente do país de origem do detentor dos fundos. Beneficiam da garantia de sigilo bancário, e encontram ali um tratamento fiscal favorável, pela isenção de impostos ou de baixas taxas nominais. São a sede para instituições fantasma e usadas para a lavagem de dinheiro. Além de estar na “lista cinzenta” dos territórios menos cooperantes em termos fiscais, o Panamá é visto pela União Europeia como um dos países que tem um dos sistemas de controlo mais frágeis para prevenir fluxos ilícitos nas operações financeiras. O documentário Dirty Little Secrets, da série de investigação The Naked Truth, dá-nos mais informações em relação a este processo.

Um dos excertos do Sermão de Santo António que podemos associar a estes problemas de corrupção é este: “O Polvo, com aquele seu capelo na cabeça, parece um Monge, com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela, com aquele não ter osso, nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, (…) o Polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do Polvo primeiramente em se vestir, ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores, a que está pegado.” Assim como o Polvo, também os homens sabem aparentar “brandura” e “mansidão”, enquanto se aproveitam do meio onde se encontram para obter lucros de maneira desonesta, muitas vezes à custa dos outros.

Sermão_de_Santo_António_aos_Peixes.jpg

01
Jun20

“Um desejo não muda nada. Uma decisão muda tudo!” - A rede concetual da ação

Helena

“Um desejo não muda nada. Uma decisão muda tudo!”

Esta afirmação insere-se convenientemente na rede conceptual da ação, uma vez que retrata claramente duas das suas etapas: o projeto (desejo) e a decisão.

A primeira, como referido, “não muda nada”, ou seja, o projeto da ação trata-se apenas daquilo que se pretende ser ou fazer quando agimos. A idealização da ação antecede a sua deliberação e a tomada de uma atitude e, sendo assim, o seu impacto é nulo quando essas etapas não a sucedem.

Depois de se formular um desejo, segue-se a fase da deliberação, um processo reflexivo através do qual se ponderam as razões que suportam o nosso projeto. Após a análise dos prós e contras que derivam da nossa ação, com recurso à reflexão e à racionalidade, chega-se ao momento da decisão, na qual determinamos agir ou não, em função dos motivos apresentados e do alcance e capacidade de realização da ação pelo agente. Partimos, assim, da nossa liberdade para decidirmos o que fazer, conscientes de que a nossa tomada de atitude trará consequências com que teremos de lidar. Por isso, afirmamos que “uma decisão muda tudo”, pois, a partir do momento em que passamos do domínio da deliberação para o domínio do agir, as consequências disso são incontroláveis e a mudança em nós ou no que nos rodeia é imediata e irremediável. Com a passagem da intenção ao ato, na execução, assumimos a responsabilidade por ele e por nós próprios, com consciência das consequências da ação para quem a pratica e para quem está direta ou indiretamente envolvido nela.

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Concluindo, a afirmação “Um desejo não muda nada. Uma decisão muda tudo!” insere-se na rede conceptual da ação, sintetizando o facto de o desejo constituir apenas uma idealização da ação, enquanto que a tomada de decisão dita os efeitos que ela terá ao ser praticada.

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