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H-orizontes

H-orizontes

03
Mai24

“Bichos” – Miguel Torga

Helena

Bichos é uma coletânea de quinze contos, cada um com um “bicho” como protagonista. Em pouco mais de meia dúzia de páginas, conta-se a história de um cão de caça velho que recorda o seu passado, a de um gato mimado que tenta regressar à sua natureza vadia, a de uma mulher que tenta desesperadamente chegar à aldeia vizinha para dar à luz, a de um burro abnegado que se vê rodeado por uma alcateia quando carregava o dono, a de um sapo que ensinou um homem a conectar-se com a Natureza, a de um galo que foi poupado à panela para criação, a de um menino que trepou a uma árvore para alcançar um ninho, a de uma cigarra que gostava tanto de cantar que negligenciou a preparação para o inverno, a de um pardal que conhece os melhores meios para se alimentar durante todo o ano, a de um pastor que perde uma ovelha, a de um melro que observa cinicamente as preocupações das moças, a de um touro que tenta, a todo o custo, virar o jogo contra os toureiros, a de um senhor que coleciona insetos e a de um corvo que se rebelou contra a vontade de Deus.

"Era um bicho. Um inofensivo bicho, igual aos milhares que tinha no escritório embalsamados."

Três destes “bichos” são seres humanos, mas a sua presença não destoa do tom global do livro, já que Torga traz ao de cima a sua face mais animalesca. Em contrapartida, é conferida aos animais uma sensibilidade muito humana. Mais importante do que isso, é-lhes dada uma voz, e com ela o direito de serem ouvidos e considerados como seres vivos sencientes, nossos iguais no que toca à condição de habitantes do planeta Terra. Conseguimos substituir o pardal sabichão de Ladino por um humano egoísta, assim como a grávida de Madalena por um animal selvagem em trabalho de parto.

Os meus contos preferidos foram Morgado e Miura. Estes foram, também, os contos que mais me perturbaram. O sofrimento animal contado em primeira pessoa atinge-nos e enterra-se como as lâminas dos toureiros no dorso de Miura. Funcionando como um espelho, em que o animal sente e pensa e o homem parece desprovido de emoções e poder da razão, somos confrontados com a chocante bestialidade humana – a insensibilidade e o sadismo que o abandono de um animal em condições perigosas e a exploração do sofrimento de outro para entretenimento, respetivamente, revelam.

Alguns leitores consideram que cada um destes contos é uma representação de um tipo social da época da ditadura de Salazar. Na minha opinião, são representações de tipos sociais que se podem encaixar em qualquer época. Daí considerar esta leitura tão pertinente para todas as alturas, e invariavelmente eficaz no reforço da consciência de cada um enquanto cidadão do mundo.

30
Abr24

“História de um homem comum” – George Orwell

Helena

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George Bowling, o protagonista do História de um homem comum, também publicado sob o título Emergir para respirar, é um homem de quarenta anos que vive nos subúrbios de Londres com a mulher e os filhos, e que ganha a vida trabalhando numa agência de seguros. Saturado da rotina e da sua família barulhenta, Bowling decide usar o pouco dinheiro que conseguiu guardar longe da vista da mulher numa viagem curta e revitalizadora a Lower Binfield, a sua querida terra natal.

Através de uma analepse, ficamos a conhecer um pouco da infância de Bowling, antes da Primeira Guerra Mundial, e dos episódios a que regressa com mais felicidade nas suas recordações (principalmente, dos que se relacionam com a sua paixão pela pesca). Essa é a Lower Binflield a que Bowling deseja regressar, e assim escapar ao mundo industrializado, regimentado e à beira de uma inevitável Segunda Guerra Mundial, que o rodeia em Londres. No entanto, quando finalmente se decide a levar a cabo os seus planos, a Lower Binfield que encontra não é aquela que lhe provia a sua memória de há vinte e cinco anos…

“Pensando bem, neste momento não deve haver, em toda a Inglaterra, uma única janela de onde alguém esteja a disparar uma metralhadora.

Mas, e daqui a cinco anos? Ou dois anos? Ou um ano?”

Apesar de, geralmente, preferir a não-ficção de Orwell às suas obras de ficção, História de um homem comum foi uma leitura muito agradável. Para além de ser mais fácil para o leitor embrenhar-se nesta história do que no mundo distópico de 1984, Orwell triunfa invariavelmente na transmissão das suas convicções sociopolíticas através de personagens imaginárias. A indignação intermitente de George Bowling com o estado da sociedade em que vive, atenuada pela pesada inércia que prende os trabalhadores ao ganha-pão quotidiano, é uma manifestação de todos os George Bowlings que, apanhados numa conjuntura (inter)nacional pouco promissora, numa vida familiar aborrecida e num emprego mediano, veem no fascismo uma inevitabilidade que, embora incómoda, passará ao lado dos trabalhadores mais insignificantes do sistema. Bowling fica perturbado com a passagem de bombardeiros pelo céu de Londres, mas não partilha da urgência dos representantes dos movimentos antifascistas que dão palestras em reuniões de bairro. Nos pensamentos de Bowling que passam para a página encontramos não só uma recusa à resistência ativa, mas também uma pista para aquilo que Orwell sempre teve preocupação em sublinhar: o extremismo é tão nocivo quando tem origem à direita como à esquerda do espectro político.

À parte a leitura política que se possa fazer deste romance, A história de um homem comum espelha o modo de vida dos trabalhadores da sociedade capitalista em que ainda vivemos, presos no seu emprego desinteressante e maquinal e na sua família barulhenta e esgotante. É, ainda, um testemunho do desejo que reside em cada um de regressar ao espaço e ao tempo onde outrora se foi feliz, e da desilusão que acompanha a desgostosa tomada de consciência da desapiedada passagem do tempo.

Orwell escreveu o História de um homem comum em Marrocos, enquanto recuperava de ferimentos que sofrera na Guerra Civil Espanhola. Assim, percorre este livro um sentimento pessimista relativamente a conflitos armados, que devemos interpretar como um apelo à adoção de uma atitude oposta à de Bowling: baixar os braços face à aproximação da guerra não resolverá conflitos do presente nem do futuro. Apesar de ser uma obra menos célebre do autor, recomendo a leitura deste livro enquanto prova da sua versatilidade e da sua perspetiva sobre a condição humana, que viria a agudizar-se ao longo da sua carreira literária.

28
Mar24

“A Letra Escarlate” – Nathaliel Hawthorne

Helena

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Na Boston puritana do século XVII, uma mulher sobe ao cadafalso com uma criança nos braços. Sobre o seu peito, sobressai a letra A bordada a vermelho. Hester Pryne, a mulher no cadafalso, foi condenada a usar a letra escarlate no seio e, em consequência, ao opróbrio da sociedade, por ter cometido o pecado do adultério. Recusando-se a revelar o homem que teria sido cúmplice da sua perversão, Hester entrega-se a uma vida isolada dos olhares de desdém dos seus vizinhos.

À situação difícil que o pecado de Hester a tinha votado junta-se a chegada do seu marido, que ficara em Inglaterra quando ela partira para o Novo Mundo e que ela já julgava morto. Desonrado pelo adultério de Hester, o seu marido adota outro nome (Roger Chillingworth), oculta o seu casamento e faz com ela uma chantagem emocional – se ela revelasse a sua verdadeira identidade, ele revelaria a do seu cúmplice pecador.

Inicia-se, assim, uma vida de tormento para Hester Pryne: malvista pelos seus pares, questionada pela sua filha acerca da letra que traz ao peito e obrigada a testemunhar a angústia crescente do homem que com ela pecou – motivada, grandemente, pelo pérfido Roger Chillingworth...

“Não há estrada por onde saiamos deste triste labirinto.”

Este é um livro sobre o pecado, em particular sobre a demonização de que são vítimas aqueles acusados de pecar. Hester Pryne, pecadora por se ter deixado levar por uma afeição externa ao seu casamento, vê-se obrigada a passar o resto da sua vida isolada num casebre afastado do centro de Boston, sem se relacionar com os restantes habitantes e condenando à mesma vida triste a filha que resultou da união adúltera. Sabemos que Hester é uma mulher dotada, hábil na costura, humilde e sempre disponível para apoiar aqueles que precisam. Apesar disso, o seu caráter é demonizado pelos habitantes conservadores da aldeia, puritanos vindos da Europa para construir uma sociedade adequada aos seus valores do outro lado do Atlântico. Assim, A Letra Escarlate é não só um relato pungente da vida de uma pecadora no seio de uma comunidade de religiosidade extrema, como uma crítica à mentalidade puritana contraditória que fez da vida de Hester Pryne uma estrada de solidão e desconsolo. Saídos do Reino Unido em busca de um ambiente mais tolerante para poderem praticar a sua fé, os puritanos acabaram por se tornar uma comunidade intolerante, sendo Hester uma vítima da rigidez dos códigos morais e religiosos por que se regiam.

A tradução desta edição d’A Letra Escarlate (Relógio d’Água, 2017) foi feita por Fernando Pessoa, e não tenho nada a apontar nela. Apesar de não ter lido a versão original deste livro, já li alguns contos de Hawthorne em inglês, pelo que me parece que a cadência da narração e o leque de vocabulário escolhidos coincidirão com aquilo que o autor pretendia concretizar na versão inglesa. Tendo gostado do enredo e apreciado a qualidade da tradução, foi o estilo da narração que acabou por não me cativar e que fez com que a minha impressão geral do livro não fosse a mais positiva. Ainda não encontrei o livro de um autor romântico que me vai fazer começar a deleitar-me com este género.

Posto isto, enquanto clássico das literaturas americana e mundial, A Letra Escarlate é um livro que vale a pena acrescentar à biblioteca pessoal de qualquer um. É especialmente interessante enquanto leitura complementar d’As bruxas de Salem, de Miller, cuja ação decorre no mesmo período, no coração de uma povoação dominada pelo mesmo espartilho puritano que serve de pilar a este romance.

23
Mar24

“O Processo” – Franz Kafka

Helena

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Joseph K., gerente de um banco, acorda numa manhã da sua vida pacata para se deparar com a visita de membros do aparelho judicial, que lhe comunicam que se encontra envolvido num novo e complexo processo. Apesar de não o prenderem, deixam K. num estado psicológico de prisão perpétua, já que não conhece a natureza do seu processo, nem os seus responsáveis na Justiça, nem o motivo de estar envolvido nele.

Ao longo de 190 páginas, Joseph K. tenta em vão clarificar o seu processo judicial e provar a sua inocência – algo praticamente impossível, dado não se conhecer aquilo de que o consideram culpado. Quase “atirado” de um lado para o outro pelas exigências da irracional Justiça, K. vai-se movimentando naquele que se revela o universo corrupto, incompreensível e contraditório dos processos judiciais. No final de contas, lutar contra a sua sentença ou aceitá-la passivamente parecem levá-lo ao mesmo resultado desolador de uma condenação sem fundamento.

«Mas eu não sou culpado», respondeu K., «é um erro. E, por falarmos nisso, como é que um homem pode ser considerado culpado? Somos todos homens, tanto uns como outros.»

Através da história bizarra de Joseph K, Kafka leva-nos a refletir acerca do funcionamento das instituições fundamentais da sociedade ocidental – especialmente, acerca da completa ausência de sentido prático que as caracteriza. Apesar de as autoridades comunicarem a K., no início do seu processo, que ele não vai ser preso, o que efetivamente acontece é uma prisão alargada a toda a existência do arguido. O processo entranha-se na vida de K., tanto pela incógnita em que consiste a acusação que o envolveu, como pela ininteligibilidade do seu desenrolar. Por mais que K. tente intervir para acelerar o decorrer dos acontecimentos, tudo o que ele se dispõe a fazer é irrelevante ou nocivo para o seu estatuto de acusado. A impossibilidade de se sair vitorioso de uma batalha com as instituições é resumida pelo pintor com que K. se encontra para tentar encontrar uma solução: um caso só pode ser resolvido através de uma absolvição definitiva, de uma absolvição aparente ou de um adiamento indefinido. A primeira nunca ocorre, a segunda conta com uma absolvição ratificada pelo juiz, mas não pelo Supremo Tribunal (o que leva a que seja possível que o processo seja recuperado e recomeçado a qualquer momento), e o terceiro, que consiste em evitar que o processo passe das primeiras fases, exige visitas constantes ao juiz e uma vigilância permanente da situação do acusado. Em suma, um acusado está inevitavelmente condenado a uma vida de instabilidade e preocupação, afundado em burocracia que não consegue entender.

O próprio recurso aos conhecimentos do pintor constitui parte da crítica à rede de influências que permeia o funcionamento das instituições. Só com o recurso a pessoas com ligações mais ou menos lícitas ao sistema judicial consegue fazer algum progresso (ainda que apenas aparente e insatisfatório) no decorrer do seu processo.

Um aspeto que captou particularmente a minha atenção foi a ubiquidade do sistema judicial, materializada pela existência de escritórios do tribunal em sótãos de zonas residenciais. Assim como as vidas dos residentes se encontram permanentemente debaixo de extensões do aparelho judicial, literalmente, também as vidas dos cidadãos estão condenadas a desenrolar-se sob a inexorável burocracia segundo a qual, bem ou mal, nos regemos.

A minha experiência de leitura d’O Processo foi surpreendentemente positiva. Acabei por gostar muito mais deste livro do que do célebre A Metamorfose, talvez por tê-lo lido numa fase da vida em que consigo compreender melhor o que realmente está em causa numa história aparentemente sem sentido, ou por ter uma mensagem crítica mais fácil de destrinçar. Este pode ser, no fundo, um livro sobre a falta de sentido da vida, e sobre como não importa o que façamos para tentar compreendê-la ou combater o seu rumo. Recomendo esta leitura a toda a gente.

04
Mar24

“Breasts and Eggs” – Mieko Kawakami

Helena

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Este livro está dividido em duas partes: na primeira, Natsuko, a personagem principal, recebe a sua irmã, Makiko, e a sua sobrinha, Midoriko, em sua casa, em Tóquio. Para além de a dinâmica entre Makiko e Midoriko estar nitidamente em crise, já que Midoriko se recusa a dirigir qualquer palavra à progenitora, Makiko vive obcecada com o seu corpo imperfeito e com os implantes mamários que tenciona fazer num futuro próximo. Na segunda parte, anos depois, Natsuko é já uma autora publicada, numa crise de inspiração para o seu próximo livro, e desejosa de completar a sua vida com a presença de um filho. Mas Natsuko é uma mulher solteira, pelo que teria de recorrer à inseminação artificial e a um dador de sémen, e ter um filho nessas circunstâncias ainda é um fenómeno rodeado de estigma na sociedade japonesa. Como se isso não bastasse, a sua investigação em relação ao processo de doação leva-a a entrar em contacto com uma comunidade de pessoas unidas pela sua condição de filhos gerados por intervenção externa. As histórias de vida de algumas das testemunhas, as conversas com aqueles que a rodeiam e a pesquisa que aprofunda fazem-na pensar e repensar a validade dos seus desejos. Afinal, a ninguém foi pedida permissão para nascer…

Breasts and Eggs traz para cima da mesa tópicos de discussão muito pertinentes acerca do lugar do corpo da mulher na sociedade, especialmente na japonesa. A ansiedade de Makiko ao querer corresponder a um ideal que não consegue atingir sem intervenções estéticas, a perturbação de Midoriko face às mudanças que o seu corpo, e o das suas colegas, atravessa na puberdade, e a consciência de Natsuko da reprovação geral de que seria alvo uma grávida solteira são alguns dos problemas que poderiam derivar, num debate, em trocas de ideias acerca dos fatores socioeconómicos que podem estar envolvidos no recurso a cirurgias plásticas, da procura de um sentimento de pertença num corpo que nos é estranho, e da (as)sexualidade da mulher. Nesse sentido, este é um livro provocador no âmbito do feminismo, da crítica social, da exposição da precariedade económica e da educação sexual. Põe, ainda, em causa a moralidade da escolha de ter filhos, por todo o sofrimento não-autorizado a que se sujeita o fruto da vontade egoísta dos progenitores.

Apesar de reconhecer o interesse que reside no tratamento literário dos temas referidos acima, Breasts and Eggs acabou por não ser concretizado da maneira que eu consideraria mais lógica e coerente. Isto deve-se ao facto de a primeira parte parecer um projeto de uma história quase totalmente independente da segunda parte do romance. O tópico da insatisfação de uma mulher com o seu próprio corpo, inspirada pelos ideais irrealistas que absorveu da sociedade, é circunscrito à primeira parte, assim como as entradas (interessantes e ricas) do diário de Midoriko, em que ela se debate com o seu processo de crescimento. Em comparação com esta primeira secção, a segunda ficou aquém daquilo que gostava que tivesse sido. Longas conversas sobre a maternidade e acontecimentos sem grande importância para a questão central da ação preenchem o espaço que podia ter sido preenchido com peripécias mais relevantes, ou simplesmente eliminado. “Breasts”, em suma, era uma linha narrativa mais promissora e cativante do que “Eggs” se revelou.

Assim, apesar de ter sido uma leitura fácil e fluida, com reflexões interessantes sobre a relação de uma mulher com o seu próprio corpo e a ética da maternidade, Breasts ans Eggs não me deixou fascinada. Pode ser que outro livro de Kawakami me conquiste.

02
Mar24

“Sei porque canta o pássaro na gaiola” – Maya Angelou

Helena

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Sei porque canta o pássaro na gaiola é um memoir da autoria de Maya Angelou, no qual ela recua até à sua infância em Stamps e partilha a sua experiência de crescimento no sul dos Estados Unidos da América, enquanto menina negra entregue aos cuidados da sua avó.

Nas profundezas do Arkansas, a pequena Marguerite (Maya) familiariza-se desde cedo com a precariedade do trabalho da população negra nas plantações de algodão. Todas as manhãs, os trabalhadores chegavam à loja da sua avó para comprar o farnel do meio-dia e, todas as noites, regressavam de rastos, tanto por causa do trabalho pesado como pela certeza de que este nunca seria suficiente para cobrir as necessidades de uma vida digna.

A casa da avó, onde estão relativamente a salvo da dureza da vida lá fora, não pode proteger para sempre Marguerite e Bailey, o seu irmão mais velho e melhor amigo. À consciência crescente da irracionalidade do ódio que a população branca sente por eles aliar-se-á uma consciência aguda da ausência dos seus progenitores, especialmente depois de serem visitados pelo pai, em Stamps, e visitado a mãe, em St. Louis. Símbolos de uma vida diferente e livre fora dos limites de Stamps, os seus pais tornam-se também símbolos da ascensão social, da instabilidade e do trauma – de facto, é durante a sua estadia com a mãe que Marguerite é assediada e violada pelo seu padrasto, algo que a marca profundamente com um indelével sentimento de culpa.

A narrativa segue pelos anos de amadurecimento dos irmãos, e com ele a sua individualização. É a altura de Marguerite perceber em que medida aquilo em que se quer tornar é condicionado pelo seu passado, pela sua cor de pele e pelas suas decisões de todos os dias.

“As pessoas iam ficar tão espantadas no dia em que eu acordasse do meu sonho negro e feio, e em que o meu verdadeiro cabelo, que era comprido e louro, tomasse o lugar da carapinha que a Mãezinha não me deixava alisar!”

Sei porque canta o pássaro na gaiola provocou em mim aquilo que habitualmente me provoca o género literário do memoir: uma necessidade constante de me relembrar de que aquilo que estou a ler não é um produto de ficção. Tudo é real: o desconforto de Marguerite face aos comentários das crianças brancas sobre a sua avó; o seu amor por Bailey; a sua admiração por Mrs. Flowers, um ícone da emancipação feminina que se destacava no panorama conservador da sua vida em Stamps. Maya Angelou eterniza neste livro a violência da vida negra na América nos anos 30 e 40 do século passado, através do olhar límpido e inocente de uma criança que vai descobrindo o mundo em que vive.

Aquilo que mais me marcou nesta leitura foi a brutalidade da culpa que Marguerite carregou dentro de si durante o seu crescimento, fruto de um evento traumático que, enquanto criança, não tinha ferramentas para compreender nem processar. A tradição religiosa que dominou grande parte da sua infância, juntamente com a relação intermitente que mantinha com os pais, levaram Marguerite a interpretar a sua violação, e as consequências desta, como algo que a tornava indigna de afeto, abandonada pelo deus que venerava. O abuso da inocência de uma criança que ainda não conhece a barreira que separa o carinho do abuso é revoltante, e é-o mais ainda a chantagem emocional com que o abusador tenta silenciá-la.

Assim, Sei porque canta o pássaro na gaiola é uma leitura inspiradora, um testemunho de uma vida marcada por reviravoltas, altos e baixos, traumas e descobertas. Não deixa, no entanto, de ser um livro que aborda temas sensíveis, como a violação e o racismo, de uma forma bastante dura, pelo que não é um livro que recomende para quem procura beleza e conforto. Ainda assim, e porque só enfrentando um passado desagradável podemos construir um futuro mais justo, reitero a minha opinião de que esta é uma história de grande importância para aprendermos a ver a vida a partir dos olhos de outros.

18
Jan24

“O Judeu” – Bernardo Santareno

Helena

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O Judeu é um texto dramático sobre a vida de António José da Silva, um descendente de judeus que se vê encurralado pelo ódio irracional de todos os que o rodeiam, no período áureo da Inquisição portuguesa. Preso e torturado pelos inquisidores duas vezes, assim como Lourença, a sua mãe, e Leonor, a sua esposa, António é um exemplo da crença na importância da liberdade de pensar e representar criticamente um regime que se sabe corrupto e arcaico. No coração de uma sociedade em que os espiões pululavam em cada esquina, António dedicar-se-á à produção de peças teatrais satíricas que lhe trarão o reconhecimento do público e, até, a atenção do rei.

Este, por seu lado, estará entretido na preparação dos casamentos dos infantes e nas visitas às suas numerosas amantes. A magnanimidade do monarca, apreciador da visão mordaz de António, não será suficiente para livrar o acusado de judaísmo da fogueira em que morrerá como mártir pela justiça que não conseguiu encontrar nos cárceres da Inquisição.

Esta peça insere-se no ciclo épico das produções de Bernardo Santareno e, como tal, privilegia o comentário político e social em detrimento da valorização de uma génese trágica que encontramos nas obras do seu ciclo trágico. Tendo lido três peças pertencentes a este último ciclo, penso que o prefiro ao épico. O Judeu não se deu a uma leitura tão rápida e cativante como O Pecado de João Agonia ou O Crime da Aldeia Velha, em muito devido à sua forma e estilo. O facto de muitas das réplicas serem muito longas, em linguagem adaptada à época, e de conteúdo mais complexo abranda o ritmo da leitura, Isto é o oposto do que acontecia nas réplicas perspicazes e concentradas dos outros textos que li.

Ainda assim, é justo que este seja um dos textos mais célebres de Santareno, pela importância dos temas principais da peça e pela inteligência envolvida nos mecanismos da sua construção. Entretecidas nas réplicas das personagens encontram-se excertos de documentos reais, referentes ao caso particular que serve de base a esta peça e à globalidade do funcionamento da Inquisição em Portugal. Para além disso, O Judeu é também uma espécie de “matrioska” teatral, já que são reproduzidos excertos das peças levadas a palco por António José da Silva, textos críticos dentro de um texto crítico, alertando o leitor para o perigo em que ele próprio incorreria se a sua leitura de O Judeu tivesse lugar no período retratado.

A minha experiência de leitura foi curiosa, já que me tenho dedicado a ler outras obras, de não-ficção, acerca da Inquisição. Senti uma diferença substancial entre o impacto que teve em mim a descrição não ficcionada dos acontecimentos e o que teve a leitura de uma história (semi)ficcionada. Apesar de a ficção ocultar ou apenas roçar aspetos muito problemáticos e chocantes que a não-ficção explora em profundidade, é a vivacidade da primeira que torna, paradoxalmente, tudo mais real, mais impactante, mais revoltante, mais próximo de quem lê.

Achei, ainda, relevante a representação da exceção ao comportamento fanático da maioria das personagens por parte do 1º Inquisidor. Num período obscuro que é mais confortável para a contemporaneidade não revisitar, o 1º Inquisidor relembra-nos de que, mesmo sendo fruto do seu tempo, havia quem reconhecesse a falta de sentido, de ética e de humanidade envolvidos nos processos em tudo corrompidos da máquina inquisitorial.

Em suma, O Judeu é uma peça fundamental na paisagem da dramaturgia portuguesa cuja leitura é, no geral, uma experiência agradável que recomendo. Fica em espera a minha vontade crescente de o ver representado em palco, dada a importância da configuração do cenário em algumas cenas que, acredito, teriam um impacto ainda maior quando corporizadas.

 

14
Jan24

“A Inquisição – O Reino do Medo” – Toby Green

Helena

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Em A Inquisição – O Reino do Medo, Toby Green abarca os três séculos de atividade da Santa Inquisição na Península Ibérica e nos seus territórios coloniais em África, na América e na Ásia. Através da explicação das áreas de influência da Inquisição ao longo do tempo, juntamente com a exemplificação de casos particulares de perseguição ou perversão, Green propõe-se deixar para o futuro um lembrete do que o domínio do medo e da paranoia pode causar numa sociedade. Este fenómeno de fachada religiosa, cujos objetivos eram, na verdade, políticos e económicos, utilizava retóricas de fácil desconstrução para apelar a comportamentos diametralmente opostos àqueles que são pregados pela própria religião: a discriminação, a desconfiança e o ódio pelo próximo.

O foco primário de Green são os acontecimentos relativos à Inquisição Espanhola, já que se fundou primeiro e foi abolida mais tarde do que a portuguesa, e que registou um maior leque de alvos de perseguição do que a portuguesa. Judeus, cristãos-novos, feiticeiras, sodomitas, bígamos, mouriscos e maçons são alguns dos rótulos atribuídos às vítimas de uma necessidade coletiva de culpabilização externa e de união face a um inimigo comum, numa Espanha de território recém-unificado.

Ao longo de 300 páginas, assistimos à queda em cadeia de gerações no precipício do preconceito e do conservadorismo, aos resultados pouco ortodoxos da repressão de instintos básicos da população e à evolução e aprofundamento de uma mentalidade que levou, em última instância, ao derrubamento dos impérios ibéricos e da própria instituição.

“A atitude genérica em relação ao acusado era resumida por Eymeric ao declarar a morte na câmara de tortura uma forma de bruxaria rancorosa destinada a frustrar o inquisidor”

Este livro cumpriu com aquilo que eu esperava dele. Pude não só aprofundar os meus conhecimentos acerca do processo de instalação da Inquisição em Portugal e em Espanha e das motivações socioeconómicas da perseguição aos judeus, mas também aprender que os acusados mortos ou fugidos eram queimados em efígie, que existiam casos bizarros de beatas e exorcistas, e que não era preciso uma justificação fundamentada para todo um novo bode expiatório começar a ser perseguido (fossem mouriscos, bígamos, feiticeiras ou maçons).

Mais do que um livro que descreve a forma como as raízes da Inquisição grassaram em solo peninsular enquanto instituição persecutória de minorias em nome da pureza, segurança ou sacralidade de um povo, este é um livro sobre a sede de poder. Desde a afirmação do poder através do medo irracional e permanente aos abusos de poder por parte de inquisidores, familiares da Inquisição e confessores, este corruptor da sociedade encontrava-se na base do estabelecimento de relações sociais em solo ibérico e colonial. O que me pareceu mais interessante e de maior relevo em relação a este fenómeno foi a forma como o comportamento dos judeus fugidos para as colónias se alterava no seu destino: chegados a uma terra em que os alvos da perseguição eram outros (os escravos e os indígenas), os anteriores oprimidos assumiam rapidamente o papel de opressores. A crueza de caráter que atravessa as histórias compiladas neste volume põem à prova a fé do leitor na bondade humana.

Os únicos aspetos negativos que tenho a apontar a este livro são o facto de partir de um projeto tão ambicioso que impede que se siga uma linha cronológica sem avanços e recuos, e a qualidade da tradução, que apresenta algumas gralhas e erros, questões que podem interferir com uma leitura fluida.

Em suma, apesar dos ziguezagues da linha temporal (necessários para abarcar todas as facetas da instituição que o autor se propôs explorar), este é um livro que recomendaria aos interessados por História europeia, particularmente pelo período (demasiado longo) em que a Inquisição vigorou na Península Ibérica. Não é uma leitura reconfortante, mas apenas sendo confrontados com a realidade mais desagradável do nosso passado podemos compreender o presente e preparar o futuro.

06
Jan24

“Swimming in the Dark” – Tomasz Jedrowski

Helena

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Ludzio é um jovem que vive na Polónia dos anos 80. Ao longo deste romance, acompanhamos o seu crescimento pessoal, social e sexual, numa jornada de autoconhecimento e de descoberta do mundo que o rodeia.

Numa jornada de trabalho no campo organizada pela universidade que frequenta, Ludzio não consegue deixar de reparar na proximidade de Janusz, um rapaz belo e popular a que se vai aproximando timidamente. Janusz acaba por convidar Ludzio a partir com ele na sua viagem de verão até um lago junto do qual acampam e dão voz à atração que nutrem um pelo outro. A partir daí, os dois jovens embarcam numa jornada romântica atribulada no seio de uma sociedade em rutura económica e social. Aquilo que, inicialmente, se desenhava como um quadro de alegria e êxtase para o jovem Ludzio é abalado pela instabilidade do comportamento sexual de Janusz e pelas perspetivas de futuro divergentes dos rapazes. Enquanto Ludzio se debate contra a emergência de um regime de contornos autoritários e tenciona abandonar o país, Janusz insiste que uma vida na Polónia será possível, mesmo com a escassez e a pobreza que os rodeiam, desde que compactuem com as pessoas certas.

Num período de mudanças imprevisíveis e decisões difíceis, a nível interno e externo, o amor, a incerteza, a revolta e a desilusão inundam a vida de Ludzio e resultam neste retrato da homossexualidade num Leste europeu em crise.

“I had always liked the act of leaving, the expanse between departure and arrival when you’re seemingly nowhere, defined by another kind of time.”

Tinha formado uma opinião prévia deste livro muito positiva pelo feedback que me chegava de outras pessoas, e a minha experiência de leitura não me desiludiu. Tocante, viciante, lírico e intenso são adjetivos que vi a serem-lhe aplicados e que reitero sem reservas.

O primeiro aspeto que despertou a minha atenção foi o facto de a narração, para além de partir da perspetiva de Ludzio, na primeira pessoa, se destinar diretamente a Janusz, pelo que se refere a ele na segunda pessoa. Não me lembro de alguma vez ter lido um livro cujo destinatário é interno à narrativa, e parece-me relevante salientar o resultado tão natural de um mecanismo que é difícil de aplicar com êxito.

Fiquei muito feliz por ter decidido ler o Swimming in the Dark apenas depois de ter lido o Giovanni’s Room, já que este romance de Baldwin desempenha um papel basilar na construção da narrativa de Tomasz Jedrowski. Não só é descoberto e lido clandestinamente por Ludzio (e, depois, por Janusz), como também partilham muitos traços a nível temático. A intensidade dos sentimentos da personagem principal, acompanhada por incertezas angustiantes, alastram facilmente para fora da página em ambos os romances. A homossexualidade é, obviamente, o tema principal dos dois, e é interessante comparar o retrato da experiência homossexual adulta em Paris nos anos sessenta e a jovem-adulta na Polónia nos anos 80 – em ambos os casos, o segredo era parte essencial da equação. Já a experiência humana global é, no geral, bastante distinta: a vida boémia de Giovanni’s Room é, em Swimming in the Dark, uma vida de degradação económica e opressão crescente.

Esta leitura serviu, aliás, para identificar uma lacuna no meu conhecimento de História europeia. Desconheço completamente os sobressaltos políticos e económicos que assaltaram o território polaco no final do século XX. Apesar de esta ser uma história de amor, o comentário político e social é transversal à obra e deixou-me intrigada, pelo que vou certamente aprofundar as questões que foram levantadas com alguma pesquisa.

Em suma, o Swimming in the Dark foi uma confirmação daquilo que esperava encontrar e apreciar. É possível que tenha superado a minha leitura de Baldwin, pelo entretecer de mais aspetos externos às personagens que, para além de as condicionarem, as definem.

17
Dez23

“Pequenos Delírios Domésticos” – Ana Margarida de Carvalho

Helena

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Esta compilação de contos da autoria de Ana Margarida de Carvalho é um conjunto de histórias sobre a (não) pertença, o conhecimento de nós próprios e do outro, a partida e o regresso, o trauma e a redenção. Treze contos e dois poemas levam-nos a universos mais ou menos verosímeis, povoados por personagens, na sua maioria, peculiares e misteriosas.

O enredo de cada história é singular, desde o regresso a casa de um membro de uma organização terrorista para ajudar um amigo de longa data a pôr em prática as suas intenções de suicídio, a uma viagem a uma ilha sem sol para a escrita do epitáfio de uma conhecida sua em estado terminal. As personagens evadem-se ou regressam a um tempo ou a um espaço com uma significação subjetiva pesada, rica, nostálgica, destrutiva.

“estes Europeus nunca hão de compreender que o mais importante nunca está no centro das fotos, mas nas periferias, ou até mesmo fora do retângulo.”

Iniciei esta leitura com expectativas baixas e um pouco a medo, já que a modalidade do conto não costuma cativar-me e que o estilo de Ana Margarida de Carvalho nem sempre consegue aproximar-se do que considero uma experiência de leitura agradável. No entanto, fui agradavelmente surpreendida com esta coletânea de contos que me manteve interessada do início ao fim, cada um com uma trama que a escrita intrincada da autora apenas enriquecia.

Os meus contos preferidos foram “Do inferno ninguém regressa”, sobre um idoso num lar para refugiados do Médio Oriente, pela forma como conjuga o tratamento da terceira idade e o de pessoas traumatizadas, e “A última ceia”, pelo conceito já por si curioso de uma família em que todos são gémeos, à exceção do que partilhou o útero com um irmão que morreu à nascença. Fascinou-me, ainda, a atualidade do “Eremitério de boas intenções”, sobre o conflito entre duas famílias motivado pela cisão ancestral entre palestinianos e israelitas, prova de que a literatura é uma cápsula de intemporalidade.

Assim, “Pequenos Delírios Domésticos” conquistou meritoriamente um lugar no meu pódio de obras de Ana Margarida de Carvalho, juntamente com “Que Importa A Fúria do Mar” e “Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato”.

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